{"id":2750,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-padre-henri-a-viagem-a-pe-entre-paris-e-roma-e-os-pobres-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"o-padre-henri-a-viagem-a-pe-entre-paris-e-roma-e-os-pobres-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-padre-henri-a-viagem-a-pe-entre-paris-e-roma-e-os-pobres-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O PADRE HENRI, A VIAGEM A P\u00c9 ENTRE PARIS E ROMA E OS POBRES &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO melhor dos bens \u00e9 o que n\u00e3o se possui\u201d. Machado de Assis<br \/>\nO padre redentorista Henri Le Bousicard (foto), franc\u00eas, 94 anos, h\u00e1 seis anos mora em Fortaleza, de favor. Ele ainda tem um aperto de m\u00e3o forte, anda com os seus p\u00e9s de caminhante e, vez por outra, fala. A voz cansada com poucas palavras talvez demonstre a car\u00eancia de sinapses que a idade permite. Seu olhar azul \u00e9 significativo e nos passa a ideia de que ele gosta do pr\u00f3ximo, quem quer que seja.<br \/>\nAo chegar aqui, juntou papel\u00f5es e montou um barraco entre os mais pobres da zona oeste. Ali viveu e espalhou o seu jeito forte de ser, liderando movimentos sociais em favor de miser\u00e1veis.<br \/>\nFui ver \u00e0 casa que ora o abriga l\u00e1 na Barra do Cear\u00e1, onde \u00e9 assistido por amigos que acreditaram em seu projeto h\u00e1 22 anos, quando de sua primeira visita ao Cear\u00e1, e aqui fundaram, entre outros, o Ema\u00fas Vila Velha.<br \/>\nO movimento Ema\u00fas pretende ser defensor de pessoas em condi\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria e risco. Sua renda prov\u00e9m de d\u00e1divas de papel\u00f5es, roupas, m\u00f3veis e objetos sem mais serventia para os doadores. Com a renda, operam.<br \/>\nO que importa neste espa\u00e7o \u00e9 dizer que a hist\u00f3ria do padre Henri foi contada em prosa no livro \u201cAos 75 anos Paris \u2013 Roma 1500 km a P\u00e9\u201d, editado em portugu\u00eas, em 2009. O livro \u00e9 gostoso de ler por sua inteireza. Algu\u00e9m resolve ir a Roma, saindo da Pra\u00e7a Notre-Dame, Paris, no dia 15 de junho de 1995. Ao fim e ao cabo de 97 dias, de sol e chuva, perdas de caminho e retomadas, chega a seu destino.<br \/>\nNa entrada do livro, como se fora a sua senha, a chave de abertura ou a soleira da porta, ele diz: \u201cA todos os exclu\u00eddos da mesa da vida\/ A todos os marginalizados pela sociedade\/Aos homens da rua, aos deserdados pela sorte\/Aos desempregados, aos condenados \u00e0 morte\/Aos sem p\u00e3o, aos sem casa, aos sem abrigo\/A todos aqueles que vivem na ang\u00fastia do desespero\/ Ao meu irm\u00e3o \u2018D\u00e9d\u00e9 La Pipe\u2019 que, um dia,\/ no metr\u00f4, teve de gritar para um jovem ao lado: Chega para l\u00e1 seu grande ego\u00edsta, pois est\u00e1s ocupando o lugar de dois\u201d.<br \/>\nLevava duas mudas de roupas e teve a sorte de contar com um volunt\u00e1rio e destemido companheiro, um jovem alem\u00e3o, com a metade de sua idade, com quem andava, conversava, discutia e at\u00e9 brigava. A ideia dele era entregar ao papa de ent\u00e3o livros de Bernard H\u00e4ring, entre eles, \u201cLivres e Fi\u00e9is em Cristo\u201d. Sequer, mesmo tentando, n\u00e3o falou com o papa Jo\u00e3o Paulo II. A burocracia da Igreja o barrou. Contentou-se em deixar no suntuoso Vaticano uma carta e os livros j\u00e1 referidos. Triste, rezou nas catacumbas romanas como um peregrino da f\u00e9, n\u00e3o algu\u00e9m em busca de fama e refletores. Cumprira o seu des\u00edgnio.<br \/>\nNo livro, j\u00e1 quase em seu final, ele reflete sobre a sua odisseia: \u201cGostaria de dizer a todos Redentoristas que sejam c\u00e9ticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha marcha. N\u00e3o perdi meu tempo, percorrendo 1500 km a p\u00e9. Tenho impress\u00e3o, quando me lembro de tantos encontros de reflex\u00e3o durante a viagem, que foram tr\u00eas meses de aut\u00eantica miss\u00e3o. Foi, com certeza, uma a\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita. Mas, quando participei em Portugal num retiro de Redentoristas, animado por um antigo conselheiro geral dos padres do Esp\u00edrito Santo, fiquei admirado de ouvir o pregador dizer que a voca\u00e7\u00e3o dos religiosos implicava em atos excessivos. Fiquei repleto at\u00e9 o fundo do meu ser. Certamente que atos excessivos em amor\u201d.<br \/>\nEle abandonou o conforto e a seguran\u00e7a de um convento franc\u00eas para assumir uma postura de mission\u00e1rio e o fez, n\u00e3o s\u00f3 em seu pa\u00eds de origem \u2013 onde, em 1972, na cidade de Charenton, funda a primeira \u201cComunidade de Ema\u00fas- Liberdade \u2013, mas ao viajar ao redor do mundo. Aos 52 anos passa a pregar, a agir e a fazer o bem em pa\u00edses t\u00e3o distintos como Portugal, Brasil, Haiti, Benin, Irlanda do Norte, Alemanha, Checoslov\u00e1quia, Pol\u00f4nia, Cabo Verde, Madagascar, Rom\u00eania, Iraque, Camar\u00f5es, Congo e Mali.<br \/>\nAo escolher Fortaleza para o seu destino final, ele parece interrogar: \u201cE os outros? Tendes pensado nos que mais sofrem? A mis\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade. Causada pela cobi\u00e7a dos homens, ela tem de ser solucionada por eles. Apenas temos de nos empenhar na luta contra as suas causas&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/01\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO melhor dos bens \u00e9 o que n\u00e3o se possui\u201d. Machado de Assis<br \/>\nO padre redentorista Henri Le Bousicard (foto), franc\u00eas, 94 anos, h\u00e1 seis anos mora em Fortaleza, de favor. 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Sua renda prov\u00e9m de d\u00e1divas de papel\u00f5es, roupas, m\u00f3veis e objetos sem mais serventia para os doadores. Com a renda, operam.<br \/>\nO que importa neste espa\u00e7o \u00e9 dizer que a hist\u00f3ria do padre Henri foi contada em prosa no livro \u201cAos 75 anos Paris \u2013 Roma 1500 km a P\u00e9\u201d, editado em portugu\u00eas, em 2009. O livro \u00e9 gostoso de ler por sua inteireza. Algu\u00e9m resolve ir a Roma, saindo da Pra\u00e7a Notre-Dame, Paris, no dia 15 de junho de 1995. Ao fim e ao cabo de 97 dias, de sol e chuva, perdas de caminho e retomadas, chega a seu destino.<br \/>\nNa entrada do livro, como se fora a sua senha, a chave de abertura ou a soleira da porta, ele diz: \u201cA todos os exclu\u00eddos da mesa da vida\/ A todos os marginalizados pela sociedade\/Aos homens da rua, aos deserdados pela sorte\/Aos desempregados, aos condenados \u00e0 morte\/Aos sem p\u00e3o, aos sem casa, aos sem abrigo\/A todos aqueles que vivem na ang\u00fastia do desespero\/ Ao meu irm\u00e3o \u2018D\u00e9d\u00e9 La Pipe\u2019 que, um dia,\/ no metr\u00f4, teve de gritar para um jovem ao lado: Chega para l\u00e1 seu grande ego\u00edsta, pois est\u00e1s ocupando o lugar de dois\u201d.<br \/>\nLevava duas mudas de roupas e teve a sorte de contar com um volunt\u00e1rio e destemido companheiro, um jovem alem\u00e3o, com a metade de sua idade, com quem andava, conversava, discutia e at\u00e9 brigava. A ideia dele era entregar ao papa de ent\u00e3o livros de Bernard H\u00e4ring, entre eles, \u201cLivres e Fi\u00e9is em Cristo\u201d. Sequer, mesmo tentando, n\u00e3o falou com o papa Jo\u00e3o Paulo II. A burocracia da Igreja o barrou. Contentou-se em deixar no suntuoso Vaticano uma carta e os livros j\u00e1 referidos. Triste, rezou nas catacumbas romanas como um peregrino da f\u00e9, n\u00e3o algu\u00e9m em busca de fama e refletores. Cumprira o seu des\u00edgnio.<br \/>\nNo livro, j\u00e1 quase em seu final, ele reflete sobre a sua odisseia: \u201cGostaria de dizer a todos Redentoristas que sejam c\u00e9ticos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha marcha. N\u00e3o perdi meu tempo, percorrendo 1500 km a p\u00e9. Tenho impress\u00e3o, quando me lembro de tantos encontros de reflex\u00e3o durante a viagem, que foram tr\u00eas meses de aut\u00eantica miss\u00e3o. Foi, com certeza, uma a\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita. Mas, quando participei em Portugal num retiro de Redentoristas, animado por um antigo conselheiro geral dos padres do Esp\u00edrito Santo, fiquei admirado de ouvir o pregador dizer que a voca\u00e7\u00e3o dos religiosos implicava em atos excessivos. Fiquei repleto at\u00e9 o fundo do meu ser. Certamente que atos excessivos em amor\u201d.<br \/>\nEle abandonou o conforto e a seguran\u00e7a de um convento franc\u00eas para assumir uma postura de mission\u00e1rio e o fez, n\u00e3o s\u00f3 em seu pa\u00eds de origem \u2013 onde, em 1972, na cidade de Charenton, funda a primeira \u201cComunidade de Ema\u00fas- Liberdade \u2013, mas ao viajar ao redor do mundo. Aos 52 anos passa a pregar, a agir e a fazer o bem em pa\u00edses t\u00e3o distintos como Portugal, Brasil, Haiti, Benin, Irlanda do Norte, Alemanha, Checoslov\u00e1quia, Pol\u00f4nia, Cabo Verde, Madagascar, Rom\u00eania, Iraque, Camar\u00f5es, Congo e Mali.<br \/>\nAo escolher Fortaleza para o seu destino final, ele parece interrogar: \u201cE os outros? Tendes pensado nos que mais sofrem? A mis\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 uma fatalidade. Causada pela cobi\u00e7a dos homens, ela tem de ser solucionada por eles. Apenas temos de nos empenhar na luta contra as suas causas&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/01\/2015.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2750","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2750","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2750"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2750\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}