{"id":2759,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-cinto-o-contratempo-e-sinto-muito-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"o-cinto-o-contratempo-e-sinto-muito-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-cinto-o-contratempo-e-sinto-muito-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O CINTO, O CONTRATEMPO E SINTO MUITO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>O telefone tocou. Era uma filha. Iria deix\u00e1-la no aeroporto. M\u00e3e recente, mora fora daqui e viera matar as saudades. Marcamos a hora. O carro tinha um assento para beb\u00ea no banco traseiro. Fomos eu e a filha, no banco da frente. No traseiro, a neta e a bab\u00e1. Sa\u00edmos ouvindo m\u00fasica, mas logo adiante havia uma batida no cruzamento de duas ruas. Dois carros enganchados e uma moto ca\u00edda. Rapaz ao ch\u00e3o, mas com pequenos ferimentos.<br \/>\nContornei o problema e l\u00e1 vamos n\u00f3s. \u00c9 noite, c\u00e9u escuro, bom tr\u00e1fego e chegamos ao aeroporto. Est\u00e1vamos no hor\u00e1rio. O marido iria esper\u00e1-la. Tiramos a bagagem, mas o assento para beb\u00ea resolveu criar caso. Ele, como manda a lei, estava afixado nos cintos de seguran\u00e7a do banco traseiro. A filha, acostumada a mont\u00e1-lo e a retir\u00e1-lo, encontrou dificuldade. Uma al\u00e7a cismou de n\u00e3o sair do engate.<br \/>\nDepois, fui eu, crente. Resolveria em um minuto. O tempo passando. Acendi as luzes internas, liguei o pisca-alerta \u2013 estava na entrada do aeroporto. Sou canhoto e meio desengon\u00e7ado, tentei, virei e mexi, comecei a suar e nada da al\u00e7a sair.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que tive a brilhante ideia. V\u00e1, filha, fa\u00e7a o despacho que eu resolvo aqui. Ela argumenta que o assento seria preciso e que, al\u00e9m disso, deveria ser envelopado com pl\u00e1stico, pois a companhia a\u00e9rea n\u00e3o permite que v\u00e1 na cabine. Vai para o por\u00e3o, em meio a malas, encomendas e animais de estima\u00e7\u00e3o grunhindo.<br \/>\nN\u00e3o se preocupe, eu, o pai metido a resolvedor, disse. L\u00e1 se foi ela fazer o despacho. Nada da al\u00e7a soltar. O tempo correndo. Um rapaz em farda de servi\u00e7o prontificou-se a ajudar. Pimp\u00e3o, destravaria o engate. Foram mais dez minutos. A\u00ed, desisti. Iria cortar o cinto, mas n\u00e3o sabia como faz\u00ea-lo. Afinal, na pr\u00f3pria empresa de embalagens consegui um estilete e o repassei para o rapaz prestimoso, com a ordem de cortar o cinto do carro.<br \/>\nEle atordoou-se, e, como s\u00f3 soube depois, cortou, por engano, o cinto do assento para beb\u00ea. Agora, era embal\u00e1-lo, pois n\u00e3o desconhecia o cinto cortado, lembre. Tudo foi embalado, fita gomada e um aquecedor acesso soltando vapor para extrair o ar do pacote. S\u00f3 tinha uma nota de R$ 100,00 e esperei pelo troco de R$ 55,00. Meio desajeitado, peguei o pacote e fui ao despacho.<br \/>\nA filha, paciente, esperava por mim. Deu certo. Subimos de elevador, despedi-me da filha, da neta, e da bab\u00e1, uma senhora que j\u00e1 cuidou, interestadualmente, de mais de 21 crian\u00e7as. Isso eu soube antes de chegar ao aeroporto. Distribui beijos e tomei o caminho de casa. A filha ligaria ao chegar. Era noite, n\u00e3o t\u00e3o cedo mais.<br \/>\nTomei banho e fui ler a revista \u201cVeja\u201d. S\u00f3 not\u00edcias ruins. Larguei. Peguei o livro de ensaio \u201cAmigos Escritos\u201d, de Sueli Tomazini Barros Cassal, sobre as cartas trocadas entre Monteiro Lobato &#8211; um dos meus autores favoritos &#8211; e o escritor Godofredo Rangel.<br \/>\nLobato era escritor, editor e empres\u00e1rio. Foi quem primeiro levantou a ideia de furar po\u00e7o para descobrir petr\u00f3leo. E assim o fez, alardeando por carta ao presidente Vargas na imprensa a sua aud\u00e1cia. Era tempo de ditadura. Os do Pal\u00e1cio do Catete, aborrecidos com uma carta de Lobato e a press\u00e3o da imprensa para come\u00e7ar a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, o processaram e, em seguida, prenderam Monteiro Lobato. Era 1941.<br \/>\nO telefone toca. Era a filha. Haviam chegado. Tudo estava bem, mas ao desembrulhar o assento do beb\u00ea, faltava o tal cinto. Mal dormi. Amanhece, examino o carro e encontro o dito cinto, cortado. Incontinenti, sai \u00e0 procura de maleiro. Parei no primeiro: Oficina das Malas. O dono, Macedo, senhor simp\u00e1tico, conversador, cearense, morara em S\u00e3o Paulo, com sucesso no seu neg\u00f3cio nos jardins. Preferiu voltar. Ele conversando. Eu esperando.<br \/>\nEntrega o cinto, costurado e recosturado. Trocamos gentilezas. Fiz bilhete e mandei o teimoso do cinto pela ECT\/Sedex. No comprovante, observa\u00e7\u00e3o: a encomenda poderia demorar em face da greve dos caminhoneiros. Brasil,zil, zil. Ligo para a filha: o cinto estava a caminho. Se consegui trazer voc\u00ea at\u00e9 aqui e contar este caso banal de pai e av\u00f4 meio sem jeito, sinto muito.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/03\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O telefone tocou. Era uma filha. Iria deix\u00e1-la no aeroporto. M\u00e3e recente, mora fora daqui e viera matar as saudades. Marcamos a hora. O carro tinha um assento para beb\u00ea no banco traseiro. Fomos eu e a filha, no banco da frente. No traseiro, a neta e a bab\u00e1. Sa\u00edmos ouvindo m\u00fasica, mas logo adiante havia uma batida no cruzamento de duas ruas. Dois carros enganchados e uma moto ca\u00edda. Rapaz ao ch\u00e3o, mas com pequenos ferimentos.<br \/>\nContornei o problema e l\u00e1 vamos n\u00f3s. \u00c9 noite, c\u00e9u escuro, bom tr\u00e1fego e chegamos ao aeroporto. Est\u00e1vamos no hor\u00e1rio. O marido iria esper\u00e1-la. Tiramos a bagagem, mas o assento para beb\u00ea resolveu criar caso. Ele, como manda a lei, estava afixado nos cintos de seguran\u00e7a do banco traseiro. A filha, acostumada a mont\u00e1-lo e a retir\u00e1-lo, encontrou dificuldade. Uma al\u00e7a cismou de n\u00e3o sair do engate.<br \/>\nDepois, fui eu, crente. Resolveria em um minuto. O tempo passando. Acendi as luzes internas, liguei o pisca-alerta \u2013 estava na entrada do aeroporto. Sou canhoto e meio desengon\u00e7ado, tentei, virei e mexi, comecei a suar e nada da al\u00e7a sair.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que tive a brilhante ideia. V\u00e1, filha, fa\u00e7a o despacho que eu resolvo aqui. Ela argumenta que o assento seria preciso e que, al\u00e9m disso, deveria ser envelopado com pl\u00e1stico, pois a companhia a\u00e9rea n\u00e3o permite que v\u00e1 na cabine. Vai para o por\u00e3o, em meio a malas, encomendas e animais de estima\u00e7\u00e3o grunhindo.<br \/>\nN\u00e3o se preocupe, eu, o pai metido a resolvedor, disse. L\u00e1 se foi ela fazer o despacho. Nada da al\u00e7a soltar. O tempo correndo. Um rapaz em farda de servi\u00e7o prontificou-se a ajudar. Pimp\u00e3o, destravaria o engate. Foram mais dez minutos. A\u00ed, desisti. Iria cortar o cinto, mas n\u00e3o sabia como faz\u00ea-lo. Afinal, na pr\u00f3pria empresa de embalagens consegui um estilete e o repassei para o rapaz prestimoso, com a ordem de cortar o cinto do carro.<br \/>\nEle atordoou-se, e, como s\u00f3 soube depois, cortou, por engano, o cinto do assento para beb\u00ea. Agora, era embal\u00e1-lo, pois n\u00e3o desconhecia o cinto cortado, lembre. Tudo foi embalado, fita gomada e um aquecedor acesso soltando vapor para extrair o ar do pacote. S\u00f3 tinha uma nota de R$ 100,00 e esperei pelo troco de R$ 55,00. Meio desajeitado, peguei o pacote e fui ao despacho.<br \/>\nA filha, paciente, esperava por mim. Deu certo. Subimos de elevador, despedi-me da filha, da neta, e da bab\u00e1, uma senhora que j\u00e1 cuidou, interestadualmente, de mais de 21 crian\u00e7as. Isso eu soube antes de chegar ao aeroporto. Distribui beijos e tomei o caminho de casa. A filha ligaria ao chegar. Era noite, n\u00e3o t\u00e3o cedo mais.<br \/>\nTomei banho e fui ler a revista \u201cVeja\u201d. S\u00f3 not\u00edcias ruins. Larguei. Peguei o livro de ensaio \u201cAmigos Escritos\u201d, de Sueli Tomazini Barros Cassal, sobre as cartas trocadas entre Monteiro Lobato &#8211; um dos meus autores favoritos &#8211; e o escritor Godofredo Rangel.<br \/>\nLobato era escritor, editor e empres\u00e1rio. Foi quem primeiro levantou a ideia de furar po\u00e7o para descobrir petr\u00f3leo. E assim o fez, alardeando por carta ao presidente Vargas na imprensa a sua aud\u00e1cia. Era tempo de ditadura. Os do Pal\u00e1cio do Catete, aborrecidos com uma carta de Lobato e a press\u00e3o da imprensa para come\u00e7ar a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, o processaram e, em seguida, prenderam Monteiro Lobato. Era 1941.<br \/>\nO telefone toca. Era a filha. Haviam chegado. Tudo estava bem, mas ao desembrulhar o assento do beb\u00ea, faltava o tal cinto. Mal dormi. Amanhece, examino o carro e encontro o dito cinto, cortado. Incontinenti, sai \u00e0 procura de maleiro. Parei no primeiro: Oficina das Malas. O dono, Macedo, senhor simp\u00e1tico, conversador, cearense, morara em S\u00e3o Paulo, com sucesso no seu neg\u00f3cio nos jardins. Preferiu voltar. Ele conversando. Eu esperando.<br \/>\nEntrega o cinto, costurado e recosturado. Trocamos gentilezas. 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Se consegui trazer voc\u00ea at\u00e9 aqui e contar este caso banal de pai e av\u00f4 meio sem jeito, sinto muito.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06\/03\/2015.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2759","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2759","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2759"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2759\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2759"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2759"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2759"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}