{"id":2761,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/trafico-de-influencia-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"trafico-de-influencia-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/trafico-de-influencia-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"TR\u00c1FICO DE INFLU\u00caNCIA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Como se retrocedesse na c\u00e1psula do tempo neste 2015 t\u00e3o complicado \u2013 e ainda estamos em mar\u00e7o \u2013 desembarco no ano de 1868, cem anos antes do revolucion\u00e1rio 1968, \u201cO Ano que n\u00e3o terminou\u201d, seguindo livro hom\u00f4nimo de Zuenir Ventura (foto) e outros escritos por franceses.<br \/>\nChego e encontro Jos\u00e9 Martiniano de Alencar J\u00fanior, no Rio. Famoso, nosso escritor maior, pol\u00edtico importante, faz, afirmo, tr\u00e1fico de influ\u00eancia. Olhei e vi a carta de 18 de fevereiro de 1868, do autor de \u201cIracema\u201d para Machado de Assis.<br \/>\nA carta vai resumida, em etapas. Come\u00e7a assim: \u201cIlmo.Sr. Machado de Assis. Recebi, ontem, a visita de um poeta. O Rio de Janeiro n\u00e3o o conhece ainda; muito breve o h\u00e1 de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o do resto\u201d.<br \/>\nComo se v\u00ea, Jos\u00e9 de Alencar, que era pol\u00edtico, tal como o pai, lembro, enxergava a dicotomia. Havia dois brasis. Um: o que se sente; do cora\u00e7\u00e3o. Outro, o do resto. Assim, a coisa vem de longe.<br \/>\nVoltemos \u00e0 carta, a do Brasil do sentir. Alencar continua: \u201cO Sr. Castro Alves \u00e9 h\u00f3spede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a S\u00e3o Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. Nasceu na Bahia, a p\u00e1tria de t\u00e3o belos talentos: a Atenas brasileira que n\u00e3o cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. Podia acrescentar que \u00e9 filho de um m\u00e9dico ilustre. Mas para qu\u00ea. A genealogia dos poetas come\u00e7a com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?\u201d<br \/>\nAgora, Alencar fala das refer\u00eancias do logo futuro poeta condoreiro: \u201cO Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pont\u00edfices das tribunas brasileiras. Digo pont\u00edfice, porque nos caracteres dessa t\u00eampora o talento \u00e9 uma religi\u00e3o, a palavra um sacerd\u00f3cio\u201d.<br \/>\nAlencar elogia Joaquim Maria Machado de Assis, a quem a carta \u00e9 dirigida, lembre. Diz o t\u00edsico, m\u00edope e brilhante filho de padre: \u201cLembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos t\u00edtulos. Para apresentar ao p\u00fablico fluminense o poeta baiano&#8230; Seu melhor t\u00edtulo, por\u00e9m \u00e9 outro. O senhor foi o \u00fanico dos modernos escritores que se dedicou \u00e0 cultura dessa dif\u00edcil ci\u00eancia que se chama cr\u00edtica&#8230; Do senhor, pois, do primeiro cr\u00edtico liter\u00e1rio brasileiro, confio a brilhante voca\u00e7\u00e3o que se revelou com tanto vigor\u201d.<br \/>\nE conclui: \u201cSeja o Virg\u00edlio do jovem Dante, conduza-o pelos \u00ednvios caminhos por onde se vai \u00e0 decep\u00e7\u00e3o, \u00e0 indiferen\u00e7a e finalmente, \u00e0 gl\u00f3ria, que s\u00e3o os tr\u00eas c\u00edrculos m\u00e1ximos da divina com\u00e9dia do talento\u201d.<br \/>\nMachado de Assis respondeu no dia 28, do mesmo m\u00eas de fevereiro: \u201cExmo. Sr. \u2013 \u00c9 boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna \u00e9 receb\u00ea-lo das m\u00e3os de V.Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomenda\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma sagra\u00e7\u00e3o. A musa do Sr. Castro Alves n\u00e3o podia ter melhor intr\u00f3ito na vida liter\u00e1ria. Abre os seus primeiros cantos, obt\u00eam o aplauso de um mestre\u201d.<br \/>\nDevo dizer, tal como Jos\u00e9 de Alencar, a carta de Machado \u00e9 longa. Cada um rasga-seda maior. Poupo-o de p\u00e1ginas e vou direto ao final da missiva quando, ap\u00f3s considera\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, Machado aduz que o jovem poeta Ant\u00f4nio Frederico de Castro Alves ainda n\u00e3o est\u00e1 pronto: \u201c A m\u00e3o \u00e9 inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperi\u00eancia. Estudou e estuda; \u00e9 um penhor que nos d\u00e1. Quando voltar seus arquivos hist\u00f3ricos ou revolver as paix\u00f5es contempor\u00e2neas, estou certo que o far\u00e1 com a m\u00e3o na consci\u00eancia. Est\u00e1 mo\u00e7o, tem um belo futuro diante de si. Venha desde j\u00e1 alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o imp\u00e9rio das musas. O fim \u00e9 nobre, a necessidade \u00e9 evidente. Mas o sucesso coroar\u00e1 a obra?&#8230;<br \/>\nLembro ao leitor que o recomendado Castro Alves escreveu a sua obra capital \u201cNavio Negreiro\u201d no ano seguinte, 1869, e morreu, tuberculoso, em 1871, aos 24 anos. Alencar desde cedo enfrentou a tuberculose e se quedou em 1877, aos 46. Machado de Assis, com todas as mazelas advindas da epilepsia, varou o s\u00e9culo e se foi aos 69, em 1908.<br \/>\nVolto ao 2015. Chove. Ou\u00e7o barulhos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13\/03\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como se retrocedesse na c\u00e1psula do tempo neste 2015 t\u00e3o complicado \u2013 e ainda estamos em mar\u00e7o \u2013 desembarco no ano de 1868, cem anos antes do revolucion\u00e1rio 1968, \u201cO Ano que n\u00e3o terminou\u201d, seguindo livro hom\u00f4nimo de Zuenir Ventura (foto) e outros escritos por franceses.<br \/>\nChego e encontro Jos\u00e9 Martiniano de Alencar J\u00fanior, no Rio. Famoso, nosso escritor maior, pol\u00edtico importante, faz, afirmo, tr\u00e1fico de influ\u00eancia. Olhei e vi a carta de 18 de fevereiro de 1868, do autor de \u201cIracema\u201d para Machado de Assis.<br \/>\nA carta vai resumida, em etapas. Come\u00e7a assim: \u201cIlmo.Sr. Machado de Assis. Recebi, ontem, a visita de um poeta. O Rio de Janeiro n\u00e3o o conhece ainda; muito breve o h\u00e1 de conhecer o Brasil. Bem entendido, falo do Brasil que sente; do cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o do resto\u201d.<br \/>\nComo se v\u00ea, Jos\u00e9 de Alencar, que era pol\u00edtico, tal como o pai, lembro, enxergava a dicotomia. Havia dois brasis. Um: o que se sente; do cora\u00e7\u00e3o. Outro, o do resto. Assim, a coisa vem de longe.<br \/>\nVoltemos \u00e0 carta, a do Brasil do sentir. Alencar continua: \u201cO Sr. Castro Alves \u00e9 h\u00f3spede desta grande cidade, alguns dias apenas. Vai a S\u00e3o Paulo concluir o curso que encetou em Olinda. Nasceu na Bahia, a p\u00e1tria de t\u00e3o belos talentos: a Atenas brasileira que n\u00e3o cansa de produzir estadistas, oradores, poetas e guerreiros. Podia acrescentar que \u00e9 filho de um m\u00e9dico ilustre. Mas para qu\u00ea. A genealogia dos poetas come\u00e7a com o seu primeiro poema. E que pergaminhos valem estes selados por Deus?\u201d<br \/>\nAgora, Alencar fala das refer\u00eancias do logo futuro poeta condoreiro: \u201cO Sr. Castro Alves trouxe-me uma carta do Dr. Fernandes da Cunha, um dos pont\u00edfices das tribunas brasileiras. Digo pont\u00edfice, porque nos caracteres dessa t\u00eampora o talento \u00e9 uma religi\u00e3o, a palavra um sacerd\u00f3cio\u201d.<br \/>\nAlencar elogia Joaquim Maria Machado de Assis, a quem a carta \u00e9 dirigida, lembre. Diz o t\u00edsico, m\u00edope e brilhante filho de padre: \u201cLembrei-me do senhor. Em nenhum concorrem os mesmos t\u00edtulos. Para apresentar ao p\u00fablico fluminense o poeta baiano&#8230; Seu melhor t\u00edtulo, por\u00e9m \u00e9 outro. O senhor foi o \u00fanico dos modernos escritores que se dedicou \u00e0 cultura dessa dif\u00edcil ci\u00eancia que se chama cr\u00edtica&#8230; Do senhor, pois, do primeiro cr\u00edtico liter\u00e1rio brasileiro, confio a brilhante voca\u00e7\u00e3o que se revelou com tanto vigor\u201d.<br \/>\nE conclui: \u201cSeja o Virg\u00edlio do jovem Dante, conduza-o pelos \u00ednvios caminhos por onde se vai \u00e0 decep\u00e7\u00e3o, \u00e0 indiferen\u00e7a e finalmente, \u00e0 gl\u00f3ria, que s\u00e3o os tr\u00eas c\u00edrculos m\u00e1ximos da divina com\u00e9dia do talento\u201d.<br \/>\nMachado de Assis respondeu no dia 28, do mesmo m\u00eas de fevereiro: \u201cExmo. Sr. \u2013 \u00c9 boa e grande fortuna conhecer um poeta; melhor e maior fortuna \u00e9 receb\u00ea-lo das m\u00e3os de V.Ex., com uma carta que vale um diploma, com uma recomenda\u00e7\u00e3o que \u00e9 uma sagra\u00e7\u00e3o. A musa do Sr. Castro Alves n\u00e3o podia ter melhor intr\u00f3ito na vida liter\u00e1ria. Abre os seus primeiros cantos, obt\u00eam o aplauso de um mestre\u201d.<br \/>\nDevo dizer, tal como Jos\u00e9 de Alencar, a carta de Machado \u00e9 longa. Cada um rasga-seda maior. Poupo-o de p\u00e1ginas e vou direto ao final da missiva quando, ap\u00f3s considera\u00e7\u00f5es cr\u00edticas, Machado aduz que o jovem poeta Ant\u00f4nio Frederico de Castro Alves ainda n\u00e3o est\u00e1 pronto: \u201c A m\u00e3o \u00e9 inexperiente, mas a sagacidade do autor supre a inexperi\u00eancia. Estudou e estuda; \u00e9 um penhor que nos d\u00e1. Quando voltar seus arquivos hist\u00f3ricos ou revolver as paix\u00f5es contempor\u00e2neas, estou certo que o far\u00e1 com a m\u00e3o na consci\u00eancia. Est\u00e1 mo\u00e7o, tem um belo futuro diante de si. Venha desde j\u00e1 alistar-se nas fileiras dos que devem trabalhar para restaurar o imp\u00e9rio das musas. O fim \u00e9 nobre, a necessidade \u00e9 evidente. Mas o sucesso coroar\u00e1 a obra?&#8230;<br \/>\nLembro ao leitor que o recomendado Castro Alves escreveu a sua obra capital \u201cNavio Negreiro\u201d no ano seguinte, 1869, e morreu, tuberculoso, em 1871, aos 24 anos. Alencar desde cedo enfrentou a tuberculose e se quedou em 1877, aos 46. Machado de Assis, com todas as mazelas advindas da epilepsia, varou o s\u00e9culo e se foi aos 69, em 1908.<br \/>\nVolto ao 2015. Chove. Ou\u00e7o barulhos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 13\/03\/2015.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2761","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2761"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2761\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}