{"id":2763,"date":"2023-12-21T09:10:28","date_gmt":"2023-12-21T12:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/homens-comuns-e-extraordinarios-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:28","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:28","slug":"homens-comuns-e-extraordinarios-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/homens-comuns-e-extraordinarios-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"HOMENS COMUNS E EXTRAORDIN\u00c1RIOS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cOs que n\u00e3o conseguem relembrar o passado est\u00e3o condenados a repeti-los\u201d. George Santayana (1863-1952), fil\u00f3sofo americano.<br \/>\nCaro Leitor: tenha paci\u00eancia com o texto. V\u00e1 at\u00e9 ao final. Leia devagar. Come\u00e7o: Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski (1821-1881), grande escritor russo, autor de \u201cCrime e Castigo\u201d, publicado em 1866, romance geralmente apresentado em dois volumes, fala de sentimentos de personagens atormentados, da\u00ed ter sido o seu autor considerado \u201co homem do subsolo\u201d, objeto de estudo de Freud.<br \/>\nNo primeiro volume, tradu\u00e7\u00e3o de Ros\u00e1rio Fusco, pag. 345, Rask\u00f3lnikov, personagem central, \u00e9 abordado sobre artigo por ele publicado na \u201cPalavra Peri\u00f3dica\u201d. Nele fala sobre a natureza do crime. \u00c9 dito que os homens s\u00e3o divididos em \u201cordin\u00e1rios e extraordin\u00e1rios\u201d.<br \/>\n\u201cOs homens ordin\u00e1rios devem viver na obedi\u00eancia e n\u00e3o t\u00eam o direito de transgredir a lei, uma vez que s\u00e3o ordin\u00e1rios. Os indiv\u00edduos extraordin\u00e1rios, por sua vez, t\u00eam o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela \u00fanica raz\u00e3o de serem extraordin\u00e1rios\u201d.<br \/>\nComo surgem d\u00favidas, Rask\u00f3lnikov, o autor, resolve explicar: \u201cN\u00e3o foi propriamente assim que me exprimi \u2013 come\u00e7ou num tom simples e modesto. \u2013 Ali\u00e1s, confesso-lhe que o senhor reproduziu o meu pensamento bem de perto. Pensando bem, reproduziu-o exatamente. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que eu n\u00e3o insinuo como o senhor d\u00e1 a entender que aos homens extraordin\u00e1rios seja permitido cometer todas as esp\u00e9cies de crimes. Parece-me que um artigo nesse sentido n\u00e3o poderia ser jamais publicado. Eu somente insinuei que o homem extraordin\u00e1rio tem o direito, n\u00e3o o direito legal, mas o direito moral de permitir \u00e0 sua consci\u00eancia saltar certos obst\u00e1culos e, isso, somente no caso em que exige a realiza\u00e7\u00e3o de sua ideia benfeitora, para toda a humanidade\u201d.<br \/>\nVolto e pergunto: por acaso h\u00e1 alguma semelhan\u00e7a no passado e presente do Brasil entre pessoas que se consideraram extraordin\u00e1rias e acreditaram que, em nome de uma causa, poderiam fazer o que quisessem?<br \/>\nEle continua: \u201cNa maioria dos casos, esses homens reclamam, sob as mais diversas f\u00f3rmulas, a destrui\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida em proveito de um mundo melhor. Mas, se for preciso, para fazerem triunfar as suas ideias, eles passam sobre cad\u00e1veres, atravessam mares de sangue. Dentro deles, a sua consci\u00eancia permite-lhes faz\u00ea-lo em fun\u00e7\u00e3o naturalmente da import\u00e2ncia da sua ideia\u201d.<br \/>\nPausa para mim: h\u00e1 similar na hist\u00f3ria da p\u00e1tria amada?<br \/>\nSigo com ele, p\u00e1ginas adiante: \u201cUma coisa \u00e9 certa: \u00e9 que a reparti\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos nas categorias e subdivis\u00f5es da esp\u00e9cie humana deve ser estritamente determinada por alguma lei da natureza. Essa lei \u00e9-nos, bem entendido, desconhecida ainda at\u00e9 a hora presente, mas acredito que ela exista e nos possa ser revelada um dia. A enorme massa dos indiv\u00edduos do rebanho, como dissemos, n\u00e3o vive na face da terra sen\u00e3o para fazer aparecer, finalmente, no mundo, depois de uma s\u00e9rie de longos esfor\u00e7os, de misteriosos cruzamentos de povos e de ra\u00e7as, um homem que entre mil possua a sua independ\u00eancia, e um sobre dez mil, sobre cem mil, \u00e0 medida que o grau de independ\u00eancia se eleva\u201d.<br \/>\nEu, de novo: ter\u00edamos n\u00f3s, ao longo da nossa hist\u00f3ria, encontrados esses homens extraordin\u00e1rios? Teriam eles, se realmente encontrados, o direito \u2013 em nome de uma ideia \u2013 de cometer toda a sorte de crimes, com ou sem sangue? Talvez seja preciso que voltemos a reestudar a Hist\u00f3ria do Brasil, desde o com\u00e9rcio internacional de escravos ao tempo da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, depois transformada em vice-reino \u2013 fugindo de Napole\u00e3o Bonaparte e seu ex\u00e9rcito \u2013 com a \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d da Inglaterra; Rediscutir como aconteceu a independ\u00eancia do Brasil. Vale dizer que o nosso D. Pedro I, com o seu grito do Ipiranga, pouco depois, foi aclamado rei de Portugal, nominado D. Pedro IV. H\u00e1 uma est\u00e1tua dele no Rossio, em Lisboa.<br \/>\nDepois, deveremos olhar a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, com todas as suas nuances e as influ\u00eancias verdadeiras, escoimadas nos livros em que as nossas crian\u00e7as e nossos jovens devem acreditar. Pense nisso.<br \/>\nSer\u00e1 que a Guerra do Paraguai (a tal Tr\u00edplice Alian\u00e7a) n\u00e3o foi uma mera artimanha da protetora Inglaterra? Quem puder, pesquise e veja se estou exagerando.<br \/>\nDesde a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, houve tanta confus\u00e3o no Brasil que n\u00e3o sei como chegamos ao s\u00e9culo 21. Repare um pouco, lembre-se de todos os ex-presidentes, os eleitos, os impostos e os gerados (Floriano Peixoto,1892, e Jos\u00e9 Sarney,1985). Aprazerem-se em procurar saber um pouco mais de cada epis\u00f3dio.<br \/>\nDostoi\u00e9vski foi citado por mim, como cond\u00e3o ou reflex\u00e3o, para que todos saibam fazer a distin\u00e7\u00e3o entre os homens comuns e os extraordin\u00e1rios que nos trouxeram at\u00e9 aqui. Cada um tire as suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 crime sem castigo da hist\u00f3ria. E no romance. Pelo menos. Obrigado.<br \/>\n Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20\/03\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cOs que n\u00e3o conseguem relembrar o passado est\u00e3o condenados a repeti-los\u201d. George Santayana (1863-1952), fil\u00f3sofo americano.<br \/>\nCaro Leitor: tenha paci\u00eancia com o texto. V\u00e1 at\u00e9 ao final. Leia devagar. Come\u00e7o: Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski (1821-1881), grande escritor russo, autor de \u201cCrime e Castigo\u201d, publicado em 1866, romance geralmente apresentado em dois volumes, fala de sentimentos de personagens atormentados, da\u00ed ter sido o seu autor considerado \u201co homem do subsolo\u201d, objeto de estudo de Freud.<br \/>\nNo primeiro volume, tradu\u00e7\u00e3o de Ros\u00e1rio Fusco, pag. 345, Rask\u00f3lnikov, personagem central, \u00e9 abordado sobre artigo por ele publicado na \u201cPalavra Peri\u00f3dica\u201d. Nele fala sobre a natureza do crime. \u00c9 dito que os homens s\u00e3o divididos em \u201cordin\u00e1rios e extraordin\u00e1rios\u201d.<br \/>\n\u201cOs homens ordin\u00e1rios devem viver na obedi\u00eancia e n\u00e3o t\u00eam o direito de transgredir a lei, uma vez que s\u00e3o ordin\u00e1rios. Os indiv\u00edduos extraordin\u00e1rios, por sua vez, t\u00eam o direito de cometer todos os crimes e de violar todas as leis pela \u00fanica raz\u00e3o de serem extraordin\u00e1rios\u201d.<br \/>\nComo surgem d\u00favidas, Rask\u00f3lnikov, o autor, resolve explicar: \u201cN\u00e3o foi propriamente assim que me exprimi \u2013 come\u00e7ou num tom simples e modesto. \u2013 Ali\u00e1s, confesso-lhe que o senhor reproduziu o meu pensamento bem de perto. Pensando bem, reproduziu-o exatamente. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que eu n\u00e3o insinuo como o senhor d\u00e1 a entender que aos homens extraordin\u00e1rios seja permitido cometer todas as esp\u00e9cies de crimes. Parece-me que um artigo nesse sentido n\u00e3o poderia ser jamais publicado. Eu somente insinuei que o homem extraordin\u00e1rio tem o direito, n\u00e3o o direito legal, mas o direito moral de permitir \u00e0 sua consci\u00eancia saltar certos obst\u00e1culos e, isso, somente no caso em que exige a realiza\u00e7\u00e3o de sua ideia benfeitora, para toda a humanidade\u201d.<br \/>\nVolto e pergunto: por acaso h\u00e1 alguma semelhan\u00e7a no passado e presente do Brasil entre pessoas que se consideraram extraordin\u00e1rias e acreditaram que, em nome de uma causa, poderiam fazer o que quisessem?<br \/>\nEle continua: \u201cNa maioria dos casos, esses homens reclamam, sob as mais diversas f\u00f3rmulas, a destrui\u00e7\u00e3o da ordem estabelecida em proveito de um mundo melhor. Mas, se for preciso, para fazerem triunfar as suas ideias, eles passam sobre cad\u00e1veres, atravessam mares de sangue. Dentro deles, a sua consci\u00eancia permite-lhes faz\u00ea-lo em fun\u00e7\u00e3o naturalmente da import\u00e2ncia da sua ideia\u201d.<br \/>\nPausa para mim: h\u00e1 similar na hist\u00f3ria da p\u00e1tria amada?<br \/>\nSigo com ele, p\u00e1ginas adiante: \u201cUma coisa \u00e9 certa: \u00e9 que a reparti\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos nas categorias e subdivis\u00f5es da esp\u00e9cie humana deve ser estritamente determinada por alguma lei da natureza. Essa lei \u00e9-nos, bem entendido, desconhecida ainda at\u00e9 a hora presente, mas acredito que ela exista e nos possa ser revelada um dia. A enorme massa dos indiv\u00edduos do rebanho, como dissemos, n\u00e3o vive na face da terra sen\u00e3o para fazer aparecer, finalmente, no mundo, depois de uma s\u00e9rie de longos esfor\u00e7os, de misteriosos cruzamentos de povos e de ra\u00e7as, um homem que entre mil possua a sua independ\u00eancia, e um sobre dez mil, sobre cem mil, \u00e0 medida que o grau de independ\u00eancia se eleva\u201d.<br \/>\nEu, de novo: ter\u00edamos n\u00f3s, ao longo da nossa hist\u00f3ria, encontrados esses homens extraordin\u00e1rios? Teriam eles, se realmente encontrados, o direito \u2013 em nome de uma ideia \u2013 de cometer toda a sorte de crimes, com ou sem sangue? Talvez seja preciso que voltemos a reestudar a Hist\u00f3ria do Brasil, desde o com\u00e9rcio internacional de escravos ao tempo da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, depois transformada em vice-reino \u2013 fugindo de Napole\u00e3o Bonaparte e seu ex\u00e9rcito \u2013 com a \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d da Inglaterra; Rediscutir como aconteceu a independ\u00eancia do Brasil. Vale dizer que o nosso D. Pedro I, com o seu grito do Ipiranga, pouco depois, foi aclamado rei de Portugal, nominado D. Pedro IV. H\u00e1 uma est\u00e1tua dele no Rossio, em Lisboa.<br \/>\nDepois, deveremos olhar a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, com todas as suas nuances e as influ\u00eancias verdadeiras, escoimadas nos livros em que as nossas crian\u00e7as e nossos jovens devem acreditar. Pense nisso.<br \/>\nSer\u00e1 que a Guerra do Paraguai (a tal Tr\u00edplice Alian\u00e7a) n\u00e3o foi uma mera artimanha da protetora Inglaterra? Quem puder, pesquise e veja se estou exagerando.<br \/>\nDesde a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, houve tanta confus\u00e3o no Brasil que n\u00e3o sei como chegamos ao s\u00e9culo 21. Repare um pouco, lembre-se de todos os ex-presidentes, os eleitos, os impostos e os gerados (Floriano Peixoto,1892, e Jos\u00e9 Sarney,1985). Aprazerem-se em procurar saber um pouco mais de cada epis\u00f3dio.<br \/>\nDostoi\u00e9vski foi citado por mim, como cond\u00e3o ou reflex\u00e3o, para que todos saibam fazer a distin\u00e7\u00e3o entre os homens comuns e os extraordin\u00e1rios que nos trouxeram at\u00e9 aqui. Cada um tire as suas pr\u00f3prias conclus\u00f5es. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 crime sem castigo da hist\u00f3ria. E no romance. Pelo menos. Obrigado.<br \/>\n Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20\/03\/2015.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2763","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2763","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2763"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2763\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2763"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2763"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2763"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}