{"id":2791,"date":"2023-12-21T09:10:29","date_gmt":"2023-12-21T12:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/machado-de-assis-de-rabugento-a-compassivo-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:29","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:29","slug":"machado-de-assis-de-rabugento-a-compassivo-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/machado-de-assis-de-rabugento-a-compassivo-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"MACHADO DE ASSIS, DE RABUGENTO A COMPASSIVO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem \u00e0 alma e ao corpo. As melhores digest\u00f5es de minha vida s\u00e3o as de jantares em que sou brindado\u201d. Machado de Assis<br \/>\nNa posse do romancista Ant\u00f4nio Torres, em sess\u00e3o solene na Academia Brasileira de Letras &#8211; ABL deparei-me com o diplomata e fil\u00f3sofo S\u00e9rgio Paulo Rouanet, de fard\u00e3o. Do meu jeito irreverente, disse: \u201dEstarei cumprimentando o acad\u00eamico ou a lei? \u201d Explico, Rouanet foi o mentor da lei de ren\u00fancia fiscal, \u00e0 \u00e9poca do governo Collor. Sem perder a fleuma, que em anos de Itamaraty lhe foi incutida, respondeu: \u201dCom os dois\u201d. Rimos.<br \/>\nAgora, Rouanet como Coordenador- Irene Moutinho e Silvia Eleut\u00e9rio, como pesquisadoras -, deu a lume o quinto volume da correspond\u00eancia de Machado de Assis \u2013 1905-1908, edi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ABL, objeto de ensaio-reportagem de Lu\u00eds Ant\u00f4nio Giron, no caderno Eu&#038;Fim de Semana, jornal Valor.<br \/>\nPode-se depreender do lido que a ideia \u00e9 retirar de Machado (1839-1908) a pecha de rabugento ou casmurro. Seria ele \u201cO Dom Casmurro\u201d. E isso \u00e9 feito com maestria ao se trazer ao hoje trechos de correspond\u00eancias passivas, cartas recebidas, e ativas, as que escrevia.<br \/>\nA elei\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 da Silva Paranhos J\u00fanior, o Bar\u00e3o do Rio Branco, por Machado, logo em 1898, mostra que este queria dar \u00e0 ABL uma dimens\u00e3o simp\u00e1tica e compassiva de \u201cinstrumento de pol\u00edtica externa\u201d, ao olhar de Rouanet.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 sup\u00e9rfluo repetir que Machado sofria de epilepsia- que ele chamava de vertigem-, de lapsos de mem\u00f3ria, de depress\u00e3o e, ao final da vida, de c\u00e2ncer intestinal. Apesar disso tudo, conseguiu ao longo dos seus 69 anos, escrever nove romances, cinco livros de poemas, nove pe\u00e7as de teatro, duas centenas de contos e cerca de 600 cr\u00f4nicas.<br \/>\n\u00c9 apropriado lembrar que n\u00e3o havia computador, n\u00e3o se socorria do Google, tampouco ele era bafejado pela sorte que tenho ao consultar o que Giron escreveu. Era ele, o seu cabedal lingu\u00edstico e a sua imagina\u00e7\u00e3o. Machado, antes de qualquer publica\u00e7\u00e3o, mostrava seus textos \u00e0 sua mulher, a portuguesa Carolina Novais (1835-1904) e, por carta, ao irm\u00e3o dela, o cunhado, Miguel de Novais.<br \/>\nA prop\u00f3sito, Roaunet informa a Giron: \u201cespero viver para p\u00f4r a m\u00e3o nessas cartas. Imagine o tempo que essas cartas levavam do Brasil a Portugal e vice-versa\u201d. Os tr\u00eas autores deixam claro que a falsa impress\u00e3o de \u201ccasmurro\u201d cai por terra na leitura da correspond\u00eancia, mostrando as suas fragilidades e humanidade. Todos sabem que Machado foi amigo chegado de Jos\u00e9 de Alencar (1829-1877) tendo, inclusive, o escolhido como patrono da sua cadeira na ABL. E essa amizade, ap\u00f3s a morte do autor de Iracema, transferiu-se para o poeta M\u00e1rio de Alencar, filho deste. Tanto \u00e9 verdade que M\u00e1rio, aos 36 anos, j\u00e1 integrava a ABL. Machado e M\u00e1rio tinham tamb\u00e9m em comum a epilepsia.<br \/>\nParece-me que a ideia central dessa obra, agora editada pela Academia, al\u00e9m da publica\u00e7\u00e3o de cartas trocadas com autores como Joaquim Nabuco, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, Oliveira Lima, M\u00e1rio de Alencar e outros, \u00e9 desmitificar a decantada casmurrice e qui\u00e7\u00e1 isolamento de Machado, motivado por seus males f\u00edsicos, mas faz\u00ea-lo emergir como Aires, personagem leve e central do seu \u00faltimo livro, Memorial de Aires.<br \/>\nMachado ficou vi\u00favo de Carolina em 1904. Ap\u00f3s per\u00edodo depressivo, voltou a escrever e a receber cartas dos amigos. Uma dessas cartas, escrita por Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, em 18 de julho de 1908, meses antes da morte de Machado, colabora com a ideia de Rouanet de que o mito do dom Casmurro \u00e9 substitu\u00eddo pelo leve e apaixonado personagem Aires.<br \/>\nUm trecho de Ver\u00edssimo, citado por Giron, diz: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 nos tinha acostumado \u00e0s suas deliciosas figuras de mulher, mas creia-me, excedeu-se em dona Carmo. Ah! Como \u00e9 verdadeira que a grande arte n\u00e3o dispensa a colabora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nDepreende-se, repito, Aires seria o pr\u00f3prio Machado e dona Carmo n\u00e3o seria outra sen\u00e3o a pranteada Carolina. Por fim, louvo essa pesquisa liter\u00e1ria e hist\u00f3rica de Roaunet, Moutinho e Eleut\u00e9rio, t\u00e3o bem sumariada por Giron. Machado vive e gosta que falem sobre a sua pessoa. Reveja a ep\u00edgrafe.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/06\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEu n\u00e3o sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem \u00e0 alma e ao corpo. As melhores digest\u00f5es de minha vida s\u00e3o as de jantares em que sou brindado\u201d. Machado de Assis<br \/>\nNa posse do romancista Ant\u00f4nio Torres, em sess\u00e3o solene na Academia Brasileira de Letras &#8211; ABL deparei-me com o diplomata e fil\u00f3sofo S\u00e9rgio Paulo Rouanet, de fard\u00e3o. Do meu jeito irreverente, disse: \u201dEstarei cumprimentando o acad\u00eamico ou a lei? \u201d Explico, Rouanet foi o mentor da lei de ren\u00fancia fiscal, \u00e0 \u00e9poca do governo Collor. Sem perder a fleuma, que em anos de Itamaraty lhe foi incutida, respondeu: \u201dCom os dois\u201d. Rimos.<br \/>\nAgora, Rouanet como Coordenador- Irene Moutinho e Silvia Eleut\u00e9rio, como pesquisadoras -, deu a lume o quinto volume da correspond\u00eancia de Machado de Assis \u2013 1905-1908, edi\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria ABL, objeto de ensaio-reportagem de Lu\u00eds Ant\u00f4nio Giron, no caderno Eu&#038;Fim de Semana, jornal Valor.<br \/>\nPode-se depreender do lido que a ideia \u00e9 retirar de Machado (1839-1908) a pecha de rabugento ou casmurro. Seria ele \u201cO Dom Casmurro\u201d. E isso \u00e9 feito com maestria ao se trazer ao hoje trechos de correspond\u00eancias passivas, cartas recebidas, e ativas, as que escrevia.<br \/>\nA elei\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 da Silva Paranhos J\u00fanior, o Bar\u00e3o do Rio Branco, por Machado, logo em 1898, mostra que este queria dar \u00e0 ABL uma dimens\u00e3o simp\u00e1tica e compassiva de \u201cinstrumento de pol\u00edtica externa\u201d, ao olhar de Rouanet.<br \/>\nN\u00e3o \u00e9 sup\u00e9rfluo repetir que Machado sofria de epilepsia- que ele chamava de vertigem-, de lapsos de mem\u00f3ria, de depress\u00e3o e, ao final da vida, de c\u00e2ncer intestinal. Apesar disso tudo, conseguiu ao longo dos seus 69 anos, escrever nove romances, cinco livros de poemas, nove pe\u00e7as de teatro, duas centenas de contos e cerca de 600 cr\u00f4nicas.<br \/>\n\u00c9 apropriado lembrar que n\u00e3o havia computador, n\u00e3o se socorria do Google, tampouco ele era bafejado pela sorte que tenho ao consultar o que Giron escreveu. Era ele, o seu cabedal lingu\u00edstico e a sua imagina\u00e7\u00e3o. Machado, antes de qualquer publica\u00e7\u00e3o, mostrava seus textos \u00e0 sua mulher, a portuguesa Carolina Novais (1835-1904) e, por carta, ao irm\u00e3o dela, o cunhado, Miguel de Novais.<br \/>\nA prop\u00f3sito, Roaunet informa a Giron: \u201cespero viver para p\u00f4r a m\u00e3o nessas cartas. Imagine o tempo que essas cartas levavam do Brasil a Portugal e vice-versa\u201d. Os tr\u00eas autores deixam claro que a falsa impress\u00e3o de \u201ccasmurro\u201d cai por terra na leitura da correspond\u00eancia, mostrando as suas fragilidades e humanidade. Todos sabem que Machado foi amigo chegado de Jos\u00e9 de Alencar (1829-1877) tendo, inclusive, o escolhido como patrono da sua cadeira na ABL. E essa amizade, ap\u00f3s a morte do autor de Iracema, transferiu-se para o poeta M\u00e1rio de Alencar, filho deste. Tanto \u00e9 verdade que M\u00e1rio, aos 36 anos, j\u00e1 integrava a ABL. Machado e M\u00e1rio tinham tamb\u00e9m em comum a epilepsia.<br \/>\nParece-me que a ideia central dessa obra, agora editada pela Academia, al\u00e9m da publica\u00e7\u00e3o de cartas trocadas com autores como Joaquim Nabuco, Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, Oliveira Lima, M\u00e1rio de Alencar e outros, \u00e9 desmitificar a decantada casmurrice e qui\u00e7\u00e1 isolamento de Machado, motivado por seus males f\u00edsicos, mas faz\u00ea-lo emergir como Aires, personagem leve e central do seu \u00faltimo livro, Memorial de Aires.<br \/>\nMachado ficou vi\u00favo de Carolina em 1904. Ap\u00f3s per\u00edodo depressivo, voltou a escrever e a receber cartas dos amigos. Uma dessas cartas, escrita por Jos\u00e9 Ver\u00edssimo, em 18 de julho de 1908, meses antes da morte de Machado, colabora com a ideia de Rouanet de que o mito do dom Casmurro \u00e9 substitu\u00eddo pelo leve e apaixonado personagem Aires.<br \/>\nUm trecho de Ver\u00edssimo, citado por Giron, diz: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 nos tinha acostumado \u00e0s suas deliciosas figuras de mulher, mas creia-me, excedeu-se em dona Carmo. Ah! Como \u00e9 verdadeira que a grande arte n\u00e3o dispensa a colabora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nDepreende-se, repito, Aires seria o pr\u00f3prio Machado e dona Carmo n\u00e3o seria outra sen\u00e3o a pranteada Carolina. Por fim, louvo essa pesquisa liter\u00e1ria e hist\u00f3rica de Roaunet, Moutinho e Eleut\u00e9rio, t\u00e3o bem sumariada por Giron. Machado vive e gosta que falem sobre a sua pessoa. Reveja a ep\u00edgrafe.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/06\/2015.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2791","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2791","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2791"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2791\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2791"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2791"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2791"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}