{"id":2793,"date":"2023-12-21T09:10:29","date_gmt":"2023-12-21T12:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/pedro-nava-por-monique-le-moing-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:29","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:29","slug":"pedro-nava-por-monique-le-moing-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/pedro-nava-por-monique-le-moing-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"Pedro Nava por Monique Le Moing &#8211; JORNAL O ESTADO"},"content":{"rendered":"<p>\u201cQue somos n\u00f3s!? Pronomes pessoais\u201d. M\u00e1rio de Andrade<br \/>\nGosto de ler biografias. Agora, li \u201cA Solid\u00e3o Povoada\u201d uma biografia sobre Pedro Nava, escrita, em 1996, em portugu\u00eas, pela acad\u00eamica francesa Monique Le Moing, para a sua tese de doutoramento.<br \/>\nPedro Nava, mineiro de Juiz de Fora, era filho de Diva Mariana Jaguaribe, \u201cmo\u00e7a de recursos\u201d, e do m\u00e9dico cearense Jos\u00e9 Nava, membro da Padaria Espiritual, movimento fortalezense do fim do s\u00e9culo 19.<br \/>\nNava nasceu, em 1903, e viu seu pai morrer logo em 1911. A a sua primeira grande perda. Foi criado pela m\u00e3e Diva e pelos tios Alice e Ant\u00f4nio Sales, poeta e tamb\u00e9m padeiro espiritual. Formou-se em medicina em Belo Horizonte e, em seguida, clinicou no oeste paulista. Aos 30 anos voltou ao Rio de Janeiro, onde havia conclu\u00eddo o ensino m\u00e9dio no Col\u00e9gio Pedro II. Em 1942 casou-se com Nieta Penido. Com ela conviveu at\u00e9 a sua morte em 1984. N\u00e3o tiveram descendentes.<br \/>\nParalelo \u00e0 sua vida como m\u00e9dico- dirigia cl\u00ednica de reumatologia e era professor da Faculdade de Medicina no Rio &#8211; participava de papos com intelectuais tais como, os \u201csabadoyles\u201d, na casa de Pl\u00ednio Doyle. Da roda faziam parte, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Afonso Arino de Melo Franco e Joaquim Inojosa. Por\u00e9m, Nava s\u00f3 come\u00e7ou a escrever literatura aos 70 anos.<br \/>\nO livro em an\u00e1lise \u00e9 um trabalho s\u00e9rio de pesquisa, com a vantagem de ter sido escrito por uma n\u00e3o brasileira, o que pressup\u00f5e a isen\u00e7\u00e3o de Monique. Ela j\u00e1 havia &#8211; em sua tese de mestrado &#8211; dado a lume \u201cO ci\u00fame na obra de Machado de Assis e de Allain Robbe-Grillet: Dom Casmurro e La Jalouisie\u201d, orientada pelo professor Silviano Santiago.<br \/>\nMonique justifica o caminho que tomou na biografia: \u201cUma pol\u00eamica agitava ent\u00e3o os meios intelectuais do Rio quanto ao fim de Pedro Nava: suic\u00eddio? Assassinato? Dizia-se que frequentava certos meios homossexuais do Rio de Janeiro e ningu\u00e9m acreditava que ele fosse capaz de ter uma vida dupla, que tinha sido objeto de uma chantagem qualquer e compelido a um gesto de desespero. Meu interesse por seus escritos, incrementado pelo mist\u00e9rio que de repente envolvia a sua morte, assim como a recente descoberta dos arquivos, decidiram a orienta\u00e7\u00e3o do meu trabalho\u201d.<br \/>\nAo meu olhar, bastaria Monique pesquisar a estreita liga\u00e7\u00e3o \u2013 e correspond\u00eancia &#8211; de Pedro Nava com M\u00e1rio de Andrade, nos anos 1920, para dar uma pista de sua prefer\u00eancia sexual. Foi Pedro Nava o autor das ilustra\u00e7\u00f5es do famoso livro \u201cMacuna\u00edma, um her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter\u201d, de M\u00e1rio de Andrade.<br \/>\nSobre M\u00e1rio, agora foi aclarada e publicizada, se bem que de todos sabida, a sua homossexualidade. Monique, diga-se, foi, igualmente, a tradutora para o franc\u00eas do livro de M\u00e1rio de Andrade, \u201cO Turista Aprendiz\u201d, em que ele tenta compreender o Brasil, lapidar sua forma\u00e7\u00e3o, narrar as suas perip\u00e9cias, tirar fotografias, o que fez em duas viagens etnogr\u00e1ficas ao norte e nordeste do Brasil, entre 1927 e 1929. Foi entre essas duas viagens que Andrade resolveu publicar \u201cMacuna\u00edma\u201d, sua obra capital, em 1928.<br \/>\nEm ensaio da colunista Adriana K\u00fcchler, da revista sociocultural paulista \u201cSerafina\u201d, na Folha-SP, h\u00e1 uma declara\u00e7\u00e3o, talvez nova, sobre \u201cMacuna\u00edma\u201d. Carlos Augusto Kalil, curador da Casa M\u00e1rio de Andrade, diz que M\u00e1rio quase copiou a obra \u201cVom Roraima zum Orinoco\u201d, do etn\u00f3logo alem\u00e3o Theodor Koch-Gr\u00fcnberg. E tem mais, na \u201cbricolagem\u201d usa trechos de Couto de Magalh\u00e3es e at\u00e9 de Capistrano de Abreu.<br \/>\nVou ficando por aqui, mas antes quero dizer que \u201cA Solid\u00e3o Povoada\u201d \u00e9 s\u00f3lido em informa\u00e7\u00f5es bem trabalhadas por Monique que, inclusive agregou ao texto o nome de todas as obras publicadas por Nava, incluindo poemas, trabalhos cient\u00edficos e liter\u00e1rios, mem\u00f3rias, pref\u00e1cios, discursos, confer\u00eancias, entrevistas, obras in\u00e9ditas, correspond\u00eancias \u2013 ativa e passiva \u2013 e, por fim, artigos escritos sobre o m\u00e9dico\/escritor, dentre eles, o do cearense Edigar de Alencar que o refere como \u201cUm l\u00edder de intelig\u00eancia nordestina\u201d, por ele ter ra\u00edzes cearenses.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03\/07\/2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQue somos n\u00f3s!? 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N\u00e3o tiveram descendentes.<br \/>\nParalelo \u00e0 sua vida como m\u00e9dico- dirigia cl\u00ednica de reumatologia e era professor da Faculdade de Medicina no Rio &#8211; participava de papos com intelectuais tais como, os \u201csabadoyles\u201d, na casa de Pl\u00ednio Doyle. Da roda faziam parte, entre outros, Carlos Drummond de Andrade, Afonso Arino de Melo Franco e Joaquim Inojosa. Por\u00e9m, Nava s\u00f3 come\u00e7ou a escrever literatura aos 70 anos.<br \/>\nO livro em an\u00e1lise \u00e9 um trabalho s\u00e9rio de pesquisa, com a vantagem de ter sido escrito por uma n\u00e3o brasileira, o que pressup\u00f5e a isen\u00e7\u00e3o de Monique. Ela j\u00e1 havia &#8211; em sua tese de mestrado &#8211; dado a lume \u201cO ci\u00fame na obra de Machado de Assis e de Allain Robbe-Grillet: Dom Casmurro e La Jalouisie\u201d, orientada pelo professor Silviano Santiago.<br \/>\nMonique justifica o caminho que tomou na biografia: \u201cUma pol\u00eamica agitava ent\u00e3o os meios intelectuais do Rio quanto ao fim de Pedro Nava: suic\u00eddio? Assassinato? Dizia-se que frequentava certos meios homossexuais do Rio de Janeiro e ningu\u00e9m acreditava que ele fosse capaz de ter uma vida dupla, que tinha sido objeto de uma chantagem qualquer e compelido a um gesto de desespero. Meu interesse por seus escritos, incrementado pelo mist\u00e9rio que de repente envolvia a sua morte, assim como a recente descoberta dos arquivos, decidiram a orienta\u00e7\u00e3o do meu trabalho\u201d.<br \/>\nAo meu olhar, bastaria Monique pesquisar a estreita liga\u00e7\u00e3o \u2013 e correspond\u00eancia &#8211; de Pedro Nava com M\u00e1rio de Andrade, nos anos 1920, para dar uma pista de sua prefer\u00eancia sexual. Foi Pedro Nava o autor das ilustra\u00e7\u00f5es do famoso livro \u201cMacuna\u00edma, um her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter\u201d, de M\u00e1rio de Andrade.<br \/>\nSobre M\u00e1rio, agora foi aclarada e publicizada, se bem que de todos sabida, a sua homossexualidade. 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