{"id":2799,"date":"2023-12-21T09:10:29","date_gmt":"2023-12-21T12:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-brasil-do-real-ou-o-brasil-real-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:29","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:29","slug":"o-brasil-do-real-ou-o-brasil-real-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-brasil-do-real-ou-o-brasil-real-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O BRASIL DO REAL OU O BRASIL REAL &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 para principiantes\u201d, frase atribu\u00edda a Tom Jobim.<br \/>\nNo Brasil, h\u00e1 coisas estranhas, dignas de serem analisadas pela sociedade psicanal\u00edtica nacional. Houve tempo em que carros mostravam o adesivo: \u201cBrasil, ame-o ou deixe-o\u00bb. Depois, veio a luta pelas diretas e o Pa\u00eds se veste de verde e amarelo. Tancredo vai eleito, por via indireta, e h\u00e1 verdadeiro carnaval. A\u00ed, Tancredo adoece, morre, e o Pa\u00eds se desmancha em l\u00e1grimas. Cada pessoa parecia ter perdido um pai ou um conselheiro.<br \/>\nSurge o presidente Samey e repete, no discurso de posse, uma frase de Tancredo: \u201c\u00c9 proibido gastar\u201d. E come\u00e7a a gastar. Gasta tanto que s\u00f3 h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o: o Plano Cruzado. \u201cCada brasileiro ou brasileira dever\u00e1 ser um fiscal do Presidente\u201d, disse, e o povo aceitou. Nunca houve tanta dela\u00e7\u00e3o quanto logo ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do Plano Cruzado. A Sunab e a Pol\u00edcia Federal ficaram encarregadas das reclama\u00e7\u00f5es e de trotes, dos fuxicos e das persegui\u00e7\u00f5es de pessoas que n\u00e3o gostavam de outras e, aproveitando a ocasi\u00e3o, haja den\u00fancias.<br \/>\nSarney enxuga as l\u00e1grimas do povo brasileiro e passa a ser o nosso novo her\u00f3i. Todo bom her\u00f3i que se preza tem o seu fiel escudeiro, o Dilson Funaro. Menos de um ano se passou e Sarney perdeu o seu trono na paix\u00e3o coletiva. Depois, o lbope disse ao Sarney que o caso de amor estava acabando juntamente com a nossa paci\u00eancia. Ele resolveu arrega\u00e7ar as mangas de seu jaquet\u00e3o cl\u00e1ssico, pentear os bigodes e a cabeleira e costurar o \u201cpacto social\u201d, que n\u00e3o aconteceu.<br \/>\nAp\u00f3s Sarney veio o Collor, com a aceita\u00e7\u00e3o total da m\u00eddia e da maioria dos eleitores que n\u00e3o souberam ver a intranquilidade no seu olhar e no gestual. Deu no que deu. E a\u00ed veio o Itamar com o seu temperamento ciclot\u00edmico e a ideia de ressuscitar o velho Fusca. Apesar disso, quase no final do governo Itamar, Ciro Gomes e economistas de peso bolaram o Plano Real, do qual se apropriou o novo Ministro da Fazenda, FHC, e da\u00ed para a elei\u00e7\u00e3o foi um passeio. FHC vai reeleito, a custa de barganhas.<br \/>\nEm meio a procelas e ajustes, o Plano Real se mant\u00e9m h\u00e1 21 anos e o povo, cheio de promessas, permitiu a aprova\u00e7\u00e3o da reelei\u00e7\u00e3o, deixando para depois as reformas fiscal, administrativa e previdenci\u00e1ria. Temos tempo. O brasileiro estava alegre, at\u00e9 frango comia.<br \/>\nSaiu FHC, entrou Lula, o metal\u00fargico do ABC, falando a linguagem que a maioria do povo queria ouvir. Os empres\u00e1rios torceram os narizes. Em seguida, houve a aproxima\u00e7\u00e3o que virou amizade. Lula vai reeleito, viaja pelo mundo, propaga um Brasil crescente, resolvido, cheio de orgulho e zera as contas com o FMI.<br \/>\nElege Dilma Rousseff, oriunda do Brizolismo, economista, descasada, mineira aclimatada no Rio Grande do Sul e ex-guerrilheira. Emerge o sonho da mulher descrito, entre outras, por Simone de Beauvoir, Rosa de Luxemburgo e Bertha Lutz. As mulheres vibram e Dilma vai eleita com discurso imprevis\u00edvel. Passam-se quatro anos, o mundo perde o g\u00e1s econ\u00f4mico, mas, Dilma vai reeleita por estreita margem. O pa\u00eds entra em 2015 nitidamente dividido, come\u00e7a o segundo mandato. Empreiteiros, cambistas, ex-diretores da Petrobr\u00e1s e integrantes de diversos partidos, s\u00e3o chamados \u00e0 ordem por um juiz com sobrenome parecido com Thomas Morus-o fil\u00f3sofo da utopia-, que principia a deslindar a enorme teia como no \u201cO Labirinto\u201d de Jorge Luis Borges. Mas, e o Minotauro?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/07\/2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO Brasil n\u00e3o \u00e9 para principiantes\u201d, frase atribu\u00edda a Tom Jobim.<br \/>\nNo Brasil, h\u00e1 coisas estranhas, dignas de serem analisadas pela sociedade psicanal\u00edtica nacional. Houve tempo em que carros mostravam o adesivo: \u201cBrasil, ame-o ou deixe-o\u00bb. Depois, veio a luta pelas diretas e o Pa\u00eds se veste de verde e amarelo. Tancredo vai eleito, por via indireta, e h\u00e1 verdadeiro carnaval. A\u00ed, Tancredo adoece, morre, e o Pa\u00eds se desmancha em l\u00e1grimas. Cada pessoa parecia ter perdido um pai ou um conselheiro.<br \/>\nSurge o presidente Samey e repete, no discurso de posse, uma frase de Tancredo: \u201c\u00c9 proibido gastar\u201d. E come\u00e7a a gastar. Gasta tanto que s\u00f3 h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o: o Plano Cruzado. \u201cCada brasileiro ou brasileira dever\u00e1 ser um fiscal do Presidente\u201d, disse, e o povo aceitou. Nunca houve tanta dela\u00e7\u00e3o quanto logo ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o do Plano Cruzado. 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E a\u00ed veio o Itamar com o seu temperamento ciclot\u00edmico e a ideia de ressuscitar o velho Fusca. Apesar disso, quase no final do governo Itamar, Ciro Gomes e economistas de peso bolaram o Plano Real, do qual se apropriou o novo Ministro da Fazenda, FHC, e da\u00ed para a elei\u00e7\u00e3o foi um passeio. FHC vai reeleito, a custa de barganhas.<br \/>\nEm meio a procelas e ajustes, o Plano Real se mant\u00e9m h\u00e1 21 anos e o povo, cheio de promessas, permitiu a aprova\u00e7\u00e3o da reelei\u00e7\u00e3o, deixando para depois as reformas fiscal, administrativa e previdenci\u00e1ria. Temos tempo. O brasileiro estava alegre, at\u00e9 frango comia.<br \/>\nSaiu FHC, entrou Lula, o metal\u00fargico do ABC, falando a linguagem que a maioria do povo queria ouvir. Os empres\u00e1rios torceram os narizes. Em seguida, houve a aproxima\u00e7\u00e3o que virou amizade. Lula vai reeleito, viaja pelo mundo, propaga um Brasil crescente, resolvido, cheio de orgulho e zera as contas com o FMI.<br \/>\nElege Dilma Rousseff, oriunda do Brizolismo, economista, descasada, mineira aclimatada no Rio Grande do Sul e ex-guerrilheira. Emerge o sonho da mulher descrito, entre outras, por Simone de Beauvoir, Rosa de Luxemburgo e Bertha Lutz. As mulheres vibram e Dilma vai eleita com discurso imprevis\u00edvel. Passam-se quatro anos, o mundo perde o g\u00e1s econ\u00f4mico, mas, Dilma vai reeleita por estreita margem. O pa\u00eds entra em 2015 nitidamente dividido, come\u00e7a o segundo mandato. Empreiteiros, cambistas, ex-diretores da Petrobr\u00e1s e integrantes de diversos partidos, s\u00e3o chamados \u00e0 ordem por um juiz com sobrenome parecido com Thomas Morus-o fil\u00f3sofo da utopia-, que principia a deslindar a enorme teia como no \u201cO Labirinto\u201d de Jorge Luis Borges. 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