{"id":2802,"date":"2023-12-21T09:10:29","date_gmt":"2023-12-21T12:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-invasao-do-enxame-dos-ex-colonizados-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:29","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:29","slug":"a-invasao-do-enxame-dos-ex-colonizados-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-invasao-do-enxame-dos-ex-colonizados-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A INVAS\u00c3O DO &#8220;ENXAME&#8221; DOS EX-COLONIZADOS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto n\u00f3s, brasileiros, acreditamos estar no pior dos mundos, \u00e9 preciso abrir os olhos para o que est\u00e1 ocorrendo por a\u00ed. A Europa, constitu\u00edda por pa\u00edses que t\u00eam nas suas hist\u00f3rias a adjetiva\u00e7\u00e3o pejorativa de colonizadores, sofre, desde 2011, com a migra\u00e7\u00e3o constante de africanos e \u00e1rabes.<br \/>\nH\u00e1 oito dias, exato em 30 de julho, o Premi\u00ea da Inglaterra, David Cameron, disse o seguinte: \u201cH\u00e1 um enxame de pessoas vindo pelo Mediterr\u00e2neo em busca de uma vida melhor, porque o Reino Unido tem bons empregos, a economia est\u00e1 crescendo, mas precisamos proteger nossas fronteiras\u201d. E arrematou: \u201cDevemos proteger as fronteiras para ter certeza de que os turistas brit\u00e2nicos poder\u00e3o ir para as suas f\u00e9rias\u201d. \u00c9 ver\u00e3o na Europa. Seu pronunciamento n\u00e3o foi bem recebido por alguns. O Eurot\u00fanel agora \u00e9 foco de ataques.<br \/>\nUm pouquinho de hist\u00f3ria. Quando a escravatura foi abolida, na primeira metade do s\u00e9culo XIX, os europeus, que detiveram o com\u00e9rcio de seres humanos, resolveram repensar o que inventar para que as riquezas continuassem a fluir e a nutrir o progresso em curso face \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o industrial, levariam<br \/>\nHouve, em setembro de 1884, o \u201cstartup\u201d &#8211; palavra da moda atual &#8211; de uma grande reuni\u00e3o na Alemanha que viria a ser conhecida como \u201cConfer\u00eancia de Berlim\u201d. Desse conclave, encerrado em fevereiro de 1885, participaram, al\u00e9m do pa\u00eds sede, Reino Unido, Fran\u00e7a, B\u00e9lgica, Holanda, \u00c1ustria\/Hungria, Dinamarca, It\u00e1lia, Espanha, Portugal e os Estados Unidos, o \u00fanico n\u00e3o europeu.<br \/>\nEsses pa\u00edses dividiram a \u00c1frica segundo os seus interesses pr\u00f3prios, desrespeitando etnias, cren\u00e7as e geografias. Atinaram que, al\u00e9m de m\u00e3o-de-obra barata, teriam os virgens subsolos africanos para extrair as riquezas minerais poss\u00edveis. Do ouro ao ferro, do chumbo ao diamante. Admite-se que 90% do territ\u00f3rio da \u00c1frica foi dominado at\u00e9 grande parte do s\u00e9culo passado. Encerrada a domina\u00e7\u00e3o colonial \u2013 e mesmo na sua const\u00e2ncia \u2013 come\u00e7a o \u00eaxodo e o desejo dos ex-colonizados de habitarem os melhores ares dos pa\u00edses que os dominaram de forma n\u00e3o muito gentil.<br \/>\nN\u00e3o muito diferente do que aconteceu na \u00c1frica, quase a mesma constela\u00e7\u00e3o de pa\u00edses, a partir dos grandes descobrimentos, com a chegada do portugu\u00eas Vasco da Gama \u00e0 \u00c1sia, invadiu o sudeste asi\u00e1tico e o Oriente M\u00e9dio. Sem precisar de Confer\u00eancia, houve o que se convencionou chamar de \u201cPartilha da \u00c1sia\u201d.<br \/>\nFoi o \u201cenxame\u201d da voracidade europeia de expans\u00e3o comercial e a introdu\u00e7\u00e3o, por exemplo, de \u201cplantations\u201d para o cultivo de arroz, pelos franceses; da seringueira, pela Gr\u00e3 Bretanha; e da cana-de-a\u00e7\u00facar pelos holandeses.<br \/>\nO continente asi\u00e1tico, depois do fim da domina\u00e7\u00e3o europeia, tendo a China, o Jap\u00e3o e a \u00cdndia como refer\u00eancias, est\u00e1 em not\u00e1vel ritmo de crescimento. O mesmo, entretanto, n\u00e3o acontece com o Oriente M\u00e9dio, onde crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, especialmente os xiitas, os curdos e os sunitas, parecem ter despertado ap\u00f3s as invas\u00f5es do Afeganist\u00e3o, da S\u00edria e do Iraque, e do recente acordo com o Ir\u00e3 para a n\u00e3o fabrica\u00e7\u00e3o de armas nucleares. H\u00e1 muitos lados em luta, desde o surgimento e a posterior morte de Osama Bin-Laden. Estima-se que existam hoje cerca de quatro milh\u00f5es de refugiados no Oriente M\u00e9dio.<br \/>\nPor tudo isso, muitos jovens \u00e1rabes sa\u00edram e continuar\u00e3o a tentar sair de seus pa\u00edses, ou do que resta deles. O caminho natural da fuga, a p\u00e9 ou por ve\u00edculo, passa, entre outros, pela Turquia. Os turcos j\u00e1 prometem construir um alto muro que impe\u00e7a ou dificulte a invas\u00e3o de seu territ\u00f3rio, uma das rotas para o norte da Europa. Por outro meio, o mar Mediterr\u00e2neo \u00e9 o cemit\u00e9rio e o estu\u00e1rio dos africanos que fogem de problemas similares e t\u00eam morrido, aos milhares, nas travessias em velhos navios mercantes, cargueiros e at\u00e9 batel\u00f5es improvisados.<br \/>\nH\u00e1 campos para atendimentos a refugiados, em especial na It\u00e1lia e na Fran\u00e7a, trens e ve\u00edculos sofrem ataques. Tudo leva a desdobramentos que ainda n\u00e3o sabemos onde ir\u00e3o parar.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07\/08\/2015<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto n\u00f3s, brasileiros, acreditamos estar no pior dos mundos, \u00e9 preciso abrir os olhos para o que est\u00e1 ocorrendo por a\u00ed. A Europa, constitu\u00edda por pa\u00edses que t\u00eam nas suas hist\u00f3rias a adjetiva\u00e7\u00e3o pejorativa de colonizadores, sofre, desde 2011, com a migra\u00e7\u00e3o constante de africanos e \u00e1rabes.<br \/>\nH\u00e1 oito dias, exato em 30 de julho, o Premi\u00ea da Inglaterra, David Cameron, disse o seguinte: \u201cH\u00e1 um enxame de pessoas vindo pelo Mediterr\u00e2neo em busca de uma vida melhor, porque o Reino Unido tem bons empregos, a economia est\u00e1 crescendo, mas precisamos proteger nossas fronteiras\u201d. E arrematou: \u201cDevemos proteger as fronteiras para ter certeza de que os turistas brit\u00e2nicos poder\u00e3o ir para as suas f\u00e9rias\u201d. \u00c9 ver\u00e3o na Europa. Seu pronunciamento n\u00e3o foi bem recebido por alguns. O Eurot\u00fanel agora \u00e9 foco de ataques.<br \/>\nUm pouquinho de hist\u00f3ria. Quando a escravatura foi abolida, na primeira metade do s\u00e9culo XIX, os europeus, que detiveram o com\u00e9rcio de seres humanos, resolveram repensar o que inventar para que as riquezas continuassem a fluir e a nutrir o progresso em curso face \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o industrial, levariam<br \/>\nHouve, em setembro de 1884, o \u201cstartup\u201d &#8211; palavra da moda atual &#8211; de uma grande reuni\u00e3o na Alemanha que viria a ser conhecida como \u201cConfer\u00eancia de Berlim\u201d. Desse conclave, encerrado em fevereiro de 1885, participaram, al\u00e9m do pa\u00eds sede, Reino Unido, Fran\u00e7a, B\u00e9lgica, Holanda, \u00c1ustria\/Hungria, Dinamarca, It\u00e1lia, Espanha, Portugal e os Estados Unidos, o \u00fanico n\u00e3o europeu.<br \/>\nEsses pa\u00edses dividiram a \u00c1frica segundo os seus interesses pr\u00f3prios, desrespeitando etnias, cren\u00e7as e geografias. Atinaram que, al\u00e9m de m\u00e3o-de-obra barata, teriam os virgens subsolos africanos para extrair as riquezas minerais poss\u00edveis. Do ouro ao ferro, do chumbo ao diamante. Admite-se que 90% do territ\u00f3rio da \u00c1frica foi dominado at\u00e9 grande parte do s\u00e9culo passado. Encerrada a domina\u00e7\u00e3o colonial \u2013 e mesmo na sua const\u00e2ncia \u2013 come\u00e7a o \u00eaxodo e o desejo dos ex-colonizados de habitarem os melhores ares dos pa\u00edses que os dominaram de forma n\u00e3o muito gentil.<br \/>\nN\u00e3o muito diferente do que aconteceu na \u00c1frica, quase a mesma constela\u00e7\u00e3o de pa\u00edses, a partir dos grandes descobrimentos, com a chegada do portugu\u00eas Vasco da Gama \u00e0 \u00c1sia, invadiu o sudeste asi\u00e1tico e o Oriente M\u00e9dio. Sem precisar de Confer\u00eancia, houve o que se convencionou chamar de \u201cPartilha da \u00c1sia\u201d.<br \/>\nFoi o \u201cenxame\u201d da voracidade europeia de expans\u00e3o comercial e a introdu\u00e7\u00e3o, por exemplo, de \u201cplantations\u201d para o cultivo de arroz, pelos franceses; da seringueira, pela Gr\u00e3 Bretanha; e da cana-de-a\u00e7\u00facar pelos holandeses.<br \/>\nO continente asi\u00e1tico, depois do fim da domina\u00e7\u00e3o europeia, tendo a China, o Jap\u00e3o e a \u00cdndia como refer\u00eancias, est\u00e1 em not\u00e1vel ritmo de crescimento. O mesmo, entretanto, n\u00e3o acontece com o Oriente M\u00e9dio, onde crist\u00e3os e mu\u00e7ulmanos, especialmente os xiitas, os curdos e os sunitas, parecem ter despertado ap\u00f3s as invas\u00f5es do Afeganist\u00e3o, da S\u00edria e do Iraque, e do recente acordo com o Ir\u00e3 para a n\u00e3o fabrica\u00e7\u00e3o de armas nucleares. H\u00e1 muitos lados em luta, desde o surgimento e a posterior morte de Osama Bin-Laden. Estima-se que existam hoje cerca de quatro milh\u00f5es de refugiados no Oriente M\u00e9dio.<br \/>\nPor tudo isso, muitos jovens \u00e1rabes sa\u00edram e continuar\u00e3o a tentar sair de seus pa\u00edses, ou do que resta deles. O caminho natural da fuga, a p\u00e9 ou por ve\u00edculo, passa, entre outros, pela Turquia. Os turcos j\u00e1 prometem construir um alto muro que impe\u00e7a ou dificulte a invas\u00e3o de seu territ\u00f3rio, uma das rotas para o norte da Europa. Por outro meio, o mar Mediterr\u00e2neo \u00e9 o cemit\u00e9rio e o estu\u00e1rio dos africanos que fogem de problemas similares e t\u00eam morrido, aos milhares, nas travessias em velhos navios mercantes, cargueiros e at\u00e9 batel\u00f5es improvisados.<br \/>\nH\u00e1 campos para atendimentos a refugiados, em especial na It\u00e1lia e na Fran\u00e7a, trens e ve\u00edculos sofrem ataques. 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