{"id":2829,"date":"2023-12-21T09:10:30","date_gmt":"2023-12-21T12:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/va-filosofia-e-o-doce-pais-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:30","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:30","slug":"va-filosofia-e-o-doce-pais-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/va-filosofia-e-o-doce-pais-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"V\u00c3 FILOSOFIA E O DOCE PA\u00cdS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cBrincar \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para ser s\u00e9rio\u201d. Arquimedes, fil\u00f3sofo, matem\u00e1tico e inventor grego, sec.3 A.C.<br \/>\nVez em quando me descubro ignorante. Sem ci\u00eancia, conhecimento parvo e mal distribu\u00eddo nos meus escritos. N\u00e3o precisa ningu\u00e9m falar mal de mim. Eu mesmo cuido disso. Ao estudar filosofia pura, na mat\u00e9ria Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Ci\u00eancia do Direito, dei-me bem, mas tudo chegava de rold\u00e3o em uma mente jovem ocupada por outros interesses. Agora, d\u00e9cadas passadas, deparo-me com um ensaio did\u00e1tico e profundo de C\u00e9sar Benjamim sobre Edmund Husserl. Explico.<br \/>\nC\u00e9sar Benjamin \u00e9 um cientista pol\u00edtico, editor e jornalista, nascido uma d\u00e9cada depois da minha. Filiou-se e desligou-se do PT e do PSOL. Isso mostra o seu engajamento e a capacidade de n\u00e3o aceitar no n\u00e3o mais acreditado, na vis\u00e3o dele. Nesse ensaio \u201cA ess\u00eancia das coisas\u201d ele analisa a posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de Edmund Husserl, amadurecida no princ\u00edpio do s\u00e9culo 20. Ele pretendeu uma forma nova de ver a filosofia: a fenomenologia \u201cbuscou um conhecimento cuja validade n\u00e3o dependesse da psicologia, dos fatos emp\u00edricos, da esp\u00e9cie humana e nem mesmo da exist\u00eancia do mundo\u201d.<br \/>\nVejam onde estou me metendo. Segundo Benjamin: \u201cHusserl viu que para \u2018alcan\u00e7ar as coisas\u2019 precisamos partir de uma intui\u00e7\u00e3o na qual elas se revelem diretamente \u00e0 consci\u00eancia, sem distor\u00e7\u00f5es. Tal intui\u00e7\u00e3o precisa cumprir duas condi\u00e7\u00f5es: a) ser independente de um \u2018eu\u2019 particular; b) n\u00e3o se ater a fatos contingentes, mas buscar verdades universais, revelando suas conex\u00f5es necess\u00e1rias\u201d. Ora, amigo leitor, se tiver alguma d\u00favida, releia este par\u00e1grafo. N\u00e3o parece simples entender, mesmo com o didatismo de Benjamin.<br \/>\nFalo agora um pouco de Husserl, matem\u00e1tico e fil\u00f3sofo alem\u00e3o de origem judaica, falecido em 1938, um pouco antes do in\u00edcio da Segunda Guerra mundial deflagrada por Adolf Hitler. Imagine, s\u00f3 de passagem, se vencida pelo nazismo, teria mudado a face da segunda metade do \u00faltimo s\u00e9culo. Foi preciso meio mundo se aliar para derrot\u00e1-lo, depois de seis anos de desvarios e estragos por toda a Europa, \u00c1frica e Jap\u00e3o. Como o mundo seria hoje se tivesse acontecido o contr\u00e1rio?<br \/>\nAprendi pouco, em filosofia. Ali\u00e1s, quase n\u00e3o sei nada. Mas ficou sedimentada a ideia de n\u00e3o existir verdade absoluta. Na Teoria do Conhecimento, que me foi ensinada pelo s\u00e1bio professor Eribaldo Costa, tudo era relativo. Era a Ontognosiologia. Para Husserl, a fenomenologia pregava a verdade absoluta. Rendo-me a Benjamin quando, analisando o livro \u201cA Crise das Ci\u00eancias Europeias e a Fenomenologia\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o de Diogo Falc\u00e3o F\u00e9rrer, cita o pr\u00f3prio autor, Husserl: \u201cA exclusividade com que na segunda metade do s\u00e9culo 19, a vis\u00e3o de mundo do homem moderno se deixou determinar pelas ci\u00eancias positivas e com que se deixou deslumbrar pela \u2018prosperidade\u2019 que decorria da\u00ed significou o afastamento dos problemas decisivos para a humanidade. Meras ci\u00eancias de fato criam meros homens de fato\u201d.<br \/>\nEsses \u201chomens de fato\u201d s\u00e3o os doutrinadores de hoje em suas prega\u00e7\u00f5es, convic\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sem sequer uma verdade relativa. S\u00e3o tamb\u00e9m os messi\u00e2nicos criadores de vers\u00f5es novas do cristianismo pentecostal, do fundamentalismo isl\u00e2mico e empres\u00e1rios megaloman\u00edacos do mundo disputando o estrelato e o \u201cranking\u201d em revistas, blogs e sites. Eles os exp\u00f5em como chefes de conglomerados em onde tudo \u00e9 poss\u00edvel. At\u00e9 algum pode ser honesto.<br \/>\nA leitura deste texto n\u00e3o \u00e9 uma linha azul, mas \u00e9 uma reflex\u00e3o, simples ou simpl\u00f3ria, feita no come\u00e7o no \u201cano \u00e9pico\u201d de 2014 para o Brasil. Nele poderemos \u2013 ou n\u00e3o \u2013 ganhar uma Copa do Mundo de Futebol e decidir quem escolheremos para presidir este pa\u00eds localizado do lado norte do mundo ocidental e mais longe ainda do oriental. Este pa\u00eds a viver, sem astrol\u00e1bio, b\u00fassola ou google em busca do seu norte magn\u00e9tico ou do seu significado e significante. Um pa\u00eds a n\u00e3o competir no mundo das letras e das ci\u00eancias.<br \/>\nContenta-se em exportar mercadorias e uns poucos bens manufaturados e se v\u00ea, at\u00e9 hoje, \u00f3rf\u00e3o de uma digna premia\u00e7\u00e3o internacional tal como, por exemplo, o Nobel. Olhamos para a vizinhan\u00e7a da Am\u00e9rica do Sul e vemos premiados. Por que ser\u00e1 assim? Ser\u00e1 por n\u00e3o sermos verdadeiros e nos fingimos alegres em meio a uma esp\u00e9cie de guerrilha urbana a nos acossar todos os dias com a face mais cruel da juventude sem rumo? Entretanto, fiquemos alegres, Fernanda Montenegro, a Fernandona, 84, ganhou um \u201cEmmy\u201d por sua interpreta\u00e7\u00e3o no telefilme \u201cDoce de m\u00e3e\u201d. Doce pa\u00eds. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10\/01\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBrincar \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundamental para ser s\u00e9rio\u201d. 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Nesse ensaio \u201cA ess\u00eancia das coisas\u201d ele analisa a posi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de Edmund Husserl, amadurecida no princ\u00edpio do s\u00e9culo 20. Ele pretendeu uma forma nova de ver a filosofia: a fenomenologia \u201cbuscou um conhecimento cuja validade n\u00e3o dependesse da psicologia, dos fatos emp\u00edricos, da esp\u00e9cie humana e nem mesmo da exist\u00eancia do mundo\u201d.<br \/>\nVejam onde estou me metendo. Segundo Benjamin: \u201cHusserl viu que para \u2018alcan\u00e7ar as coisas\u2019 precisamos partir de uma intui\u00e7\u00e3o na qual elas se revelem diretamente \u00e0 consci\u00eancia, sem distor\u00e7\u00f5es. Tal intui\u00e7\u00e3o precisa cumprir duas condi\u00e7\u00f5es: a) ser independente de um \u2018eu\u2019 particular; b) n\u00e3o se ater a fatos contingentes, mas buscar verdades universais, revelando suas conex\u00f5es necess\u00e1rias\u201d. Ora, amigo leitor, se tiver alguma d\u00favida, releia este par\u00e1grafo. N\u00e3o parece simples entender, mesmo com o didatismo de Benjamin.<br \/>\nFalo agora um pouco de Husserl, matem\u00e1tico e fil\u00f3sofo alem\u00e3o de origem judaica, falecido em 1938, um pouco antes do in\u00edcio da Segunda Guerra mundial deflagrada por Adolf Hitler. Imagine, s\u00f3 de passagem, se vencida pelo nazismo, teria mudado a face da segunda metade do \u00faltimo s\u00e9culo. Foi preciso meio mundo se aliar para derrot\u00e1-lo, depois de seis anos de desvarios e estragos por toda a Europa, \u00c1frica e Jap\u00e3o. Como o mundo seria hoje se tivesse acontecido o contr\u00e1rio?<br \/>\nAprendi pouco, em filosofia. Ali\u00e1s, quase n\u00e3o sei nada. Mas ficou sedimentada a ideia de n\u00e3o existir verdade absoluta. Na Teoria do Conhecimento, que me foi ensinada pelo s\u00e1bio professor Eribaldo Costa, tudo era relativo. Era a Ontognosiologia. Para Husserl, a fenomenologia pregava a verdade absoluta. Rendo-me a Benjamin quando, analisando o livro \u201cA Crise das Ci\u00eancias Europeias e a Fenomenologia\u201d, em tradu\u00e7\u00e3o de Diogo Falc\u00e3o F\u00e9rrer, cita o pr\u00f3prio autor, Husserl: \u201cA exclusividade com que na segunda metade do s\u00e9culo 19, a vis\u00e3o de mundo do homem moderno se deixou determinar pelas ci\u00eancias positivas e com que se deixou deslumbrar pela \u2018prosperidade\u2019 que decorria da\u00ed significou o afastamento dos problemas decisivos para a humanidade. Meras ci\u00eancias de fato criam meros homens de fato\u201d.<br \/>\nEsses \u201chomens de fato\u201d s\u00e3o os doutrinadores de hoje em suas prega\u00e7\u00f5es, convic\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sem sequer uma verdade relativa. S\u00e3o tamb\u00e9m os messi\u00e2nicos criadores de vers\u00f5es novas do cristianismo pentecostal, do fundamentalismo isl\u00e2mico e empres\u00e1rios megaloman\u00edacos do mundo disputando o estrelato e o \u201cranking\u201d em revistas, blogs e sites. Eles os exp\u00f5em como chefes de conglomerados em onde tudo \u00e9 poss\u00edvel. At\u00e9 algum pode ser honesto.<br \/>\nA leitura deste texto n\u00e3o \u00e9 uma linha azul, mas \u00e9 uma reflex\u00e3o, simples ou simpl\u00f3ria, feita no come\u00e7o no \u201cano \u00e9pico\u201d de 2014 para o Brasil. Nele poderemos \u2013 ou n\u00e3o \u2013 ganhar uma Copa do Mundo de Futebol e decidir quem escolheremos para presidir este pa\u00eds localizado do lado norte do mundo ocidental e mais longe ainda do oriental. Este pa\u00eds a viver, sem astrol\u00e1bio, b\u00fassola ou google em busca do seu norte magn\u00e9tico ou do seu significado e significante. Um pa\u00eds a n\u00e3o competir no mundo das letras e das ci\u00eancias.<br \/>\nContenta-se em exportar mercadorias e uns poucos bens manufaturados e se v\u00ea, at\u00e9 hoje, \u00f3rf\u00e3o de uma digna premia\u00e7\u00e3o internacional tal como, por exemplo, o Nobel. Olhamos para a vizinhan\u00e7a da Am\u00e9rica do Sul e vemos premiados. Por que ser\u00e1 assim? Ser\u00e1 por n\u00e3o sermos verdadeiros e nos fingimos alegres em meio a uma esp\u00e9cie de guerrilha urbana a nos acossar todos os dias com a face mais cruel da juventude sem rumo? Entretanto, fiquemos alegres, Fernanda Montenegro, a Fernandona, 84, ganhou um \u201cEmmy\u201d por sua interpreta\u00e7\u00e3o no telefilme \u201cDoce de m\u00e3e\u201d. Doce pa\u00eds. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10\/01\/2014<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2829","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2829","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2829"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2829\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2829"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2829"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2829"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}