{"id":2840,"date":"2023-12-21T09:10:30","date_gmt":"2023-12-21T12:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/d-margarida-cidada-mulher-mae-e-mestra-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:30","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:30","slug":"d-margarida-cidada-mulher-mae-e-mestra-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/d-margarida-cidada-mulher-mae-e-mestra-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"D. MARGARIDA: CIDAD\u00c3, MULHER, M\u00c3E E MESTRA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Imagine Fortaleza no come\u00e7o dos anos quarenta. 180.000 habitantes, pacata e brejeira apesar da guerra que se iniciara no mundo e s\u00f3 terminaria em 1945. Havia festa na cidade. No adro de uma igreja, novena e singela quermesse aproximaram, pelas artes sutis do encontro, dois jovens bem apessoados. Olharam-se de forma extremada. Esqueceram os demais. Ali come\u00e7ava, sem que soubessem, uma hist\u00f3ria que eclodiria em muitas outras vidas. Ele, rec\u00e9m-fugido \u2013 a p\u00e9- do Semin\u00e1rio de Canind\u00e9, dos Capuchinhos Alem\u00e3es de S\u00e3o Francisco, seu onom\u00e1stico. Ela trabalhava no laborat\u00f3rio do Dion\u00edsio Torres, seu padrinho de batismo, onde se fazia perfumes. De certo, ela cheirava bem. Enla\u00e7aram-se com a coragem e a garra dos que, nada tendo, disp\u00f5em-se a selar pactos de amor e luta. Pois foi assim. Ele, Francisco Bezerra de Oliveira, ainda sem profiss\u00e3o definida, disse ao pai que iria casar e pediu sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. O pai, Jo\u00e3o Soares de Oliveira, at\u00f4nito, teve que aceitar a decis\u00e3o do quase menino que iria desposar a jovem Margarida. Casaram-se e, para amansar o desencanto do pai, prometeram que dariam ao primeiro filho, se homem, o seu nome. E a\u00ed nasce Jo\u00e3o Soares Neto, o primeiro filho desse casal destemido.<br \/>\nHoje, neste 25 de fevereiro de 2014, morreu Margarida Caminha de Oliveira, a jovem que tornou-se mulher, m\u00e3e, av\u00f3 e bisav\u00f3. Meu pai faleceu, de infarto, em 21 de novembro de 1991. Da\u00ed para c\u00e1, ela reinava soberana nos jardins e na casa da fam\u00edlia, curtindo \u2013 pelo resto da vida \u2013 o casamento que durou 51 anos. E dessa uni\u00e3o nasceram Jo\u00e3o, Jos\u00e9, Francisco, Maria C\u00e9lia, Maria Simone, Lidu\u00edna, Luiza Helena, Ricardo e Pedro Henrique. Todos estudaram em escolas privadas, alcan\u00e7aram forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, viraram independentes, t\u00eam fam\u00edlias constitu\u00eddas com filhos, e filhos dos filhos, netos e bisnetos de d. Margarida. Ela nunca deixou de impor limites a todos, puxar as orelhas de cada um, nos tempos e ocasi\u00f5es devidas. N\u00e3o era \u201cmelosa\u201d, tinha um jeito sincero de abrir sua alma e n\u00e3o queria depender de ningu\u00e9m. Apenas da d. Zilmar, servidora e amiga, com quem conviveu por d\u00e9cadas.<br \/>\nAgora, ela \u00e9 saudade, a lembran\u00e7a entranhada de ensinamentos e sabedoria. Certa vez, em anivers\u00e1rio dela, j\u00e1 vi\u00fava, pediram que desse a primeira fatia de bolo a quem mais amasse. Virou as costas, faca em punho e, minutos depois, eis que aparece com v\u00e1rias partes do bolo em um grande prato, servindo a todos. Postura retil\u00ednea, sobranceira e digna no seu modo crist\u00e3o e simples de viver. Leitora atenta de jornais, rejubilava-se por n\u00e3o precisar, financeiramente, de nenhum filho para viver. Havia amealhado para o futuro, este que sempre chega.<br \/>\nNesta hora, meio confuso, ainda sentindo o calor de suas m\u00e3os no corpo inerte ao meu lado, rendo homenagens \u00e0 sua dignidade, inteireza, lideran\u00e7a aquietada, caridade, religiosidade provada e sentida. As li\u00e7\u00f5es que recebemos deram asas para que nos torn\u00e1ssemos cidad\u00e3os do mundo, sem medo de atravessar fronteiras rumo ao desconhecido. Seu sangue corre em veias por outros pa\u00edses.<br \/>\nMais n\u00e3o digo, pois o que escrevo talvez s\u00f3 interesse a mim e \u00e0 nossa fam\u00edlia, mas sintetizo na frase de F. von Schelegel, escritor alem\u00e3o, o meu olhar sobre d. Margarida, em seus 94 anos de vida: \u201cApenas em torno de uma mulher que ama pode formar-se uma fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28\/02\/2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine Fortaleza no come\u00e7o dos anos quarenta. 180.000 habitantes, pacata e brejeira apesar da guerra que se iniciara no mundo e s\u00f3 terminaria em 1945. Havia festa na cidade. No adro de uma igreja, novena e singela quermesse aproximaram, pelas artes sutis do encontro, dois jovens bem apessoados. Olharam-se de forma extremada. Esqueceram os demais. Ali come\u00e7ava, sem que soubessem, uma hist\u00f3ria que eclodiria em muitas outras vidas. Ele, rec\u00e9m-fugido \u2013 a p\u00e9- do Semin\u00e1rio de Canind\u00e9, dos Capuchinhos Alem\u00e3es de S\u00e3o Francisco, seu onom\u00e1stico. Ela trabalhava no laborat\u00f3rio do Dion\u00edsio Torres, seu padrinho de batismo, onde se fazia perfumes. De certo, ela cheirava bem. Enla\u00e7aram-se com a coragem e a garra dos que, nada tendo, disp\u00f5em-se a selar pactos de amor e luta. Pois foi assim. Ele, Francisco Bezerra de Oliveira, ainda sem profiss\u00e3o definida, disse ao pai que iria casar e pediu sua b\u00ean\u00e7\u00e3o. O pai, Jo\u00e3o Soares de Oliveira, at\u00f4nito, teve que aceitar a decis\u00e3o do quase menino que iria desposar a jovem Margarida. Casaram-se e, para amansar o desencanto do pai, prometeram que dariam ao primeiro filho, se homem, o seu nome. E a\u00ed nasce Jo\u00e3o Soares Neto, o primeiro filho desse casal destemido.<br \/>\nHoje, neste 25 de fevereiro de 2014, morreu Margarida Caminha de Oliveira, a jovem que tornou-se mulher, m\u00e3e, av\u00f3 e bisav\u00f3. Meu pai faleceu, de infarto, em 21 de novembro de 1991. Da\u00ed para c\u00e1, ela reinava soberana nos jardins e na casa da fam\u00edlia, curtindo \u2013 pelo resto da vida \u2013 o casamento que durou 51 anos. E dessa uni\u00e3o nasceram Jo\u00e3o, Jos\u00e9, Francisco, Maria C\u00e9lia, Maria Simone, Lidu\u00edna, Luiza Helena, Ricardo e Pedro Henrique. Todos estudaram em escolas privadas, alcan\u00e7aram forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria, viraram independentes, t\u00eam fam\u00edlias constitu\u00eddas com filhos, e filhos dos filhos, netos e bisnetos de d. Margarida. Ela nunca deixou de impor limites a todos, puxar as orelhas de cada um, nos tempos e ocasi\u00f5es devidas. N\u00e3o era \u201cmelosa\u201d, tinha um jeito sincero de abrir sua alma e n\u00e3o queria depender de ningu\u00e9m. Apenas da d. Zilmar, servidora e amiga, com quem conviveu por d\u00e9cadas.<br \/>\nAgora, ela \u00e9 saudade, a lembran\u00e7a entranhada de ensinamentos e sabedoria. Certa vez, em anivers\u00e1rio dela, j\u00e1 vi\u00fava, pediram que desse a primeira fatia de bolo a quem mais amasse. Virou as costas, faca em punho e, minutos depois, eis que aparece com v\u00e1rias partes do bolo em um grande prato, servindo a todos. Postura retil\u00ednea, sobranceira e digna no seu modo crist\u00e3o e simples de viver. Leitora atenta de jornais, rejubilava-se por n\u00e3o precisar, financeiramente, de nenhum filho para viver. Havia amealhado para o futuro, este que sempre chega.<br \/>\nNesta hora, meio confuso, ainda sentindo o calor de suas m\u00e3os no corpo inerte ao meu lado, rendo homenagens \u00e0 sua dignidade, inteireza, lideran\u00e7a aquietada, caridade, religiosidade provada e sentida. As li\u00e7\u00f5es que recebemos deram asas para que nos torn\u00e1ssemos cidad\u00e3os do mundo, sem medo de atravessar fronteiras rumo ao desconhecido. Seu sangue corre em veias por outros pa\u00edses.<br \/>\nMais n\u00e3o digo, pois o que escrevo talvez s\u00f3 interesse a mim e \u00e0 nossa fam\u00edlia, mas sintetizo na frase de F. von Schelegel, escritor alem\u00e3o, o meu olhar sobre d. Margarida, em seus 94 anos de vida: \u201cApenas em torno de uma mulher que ama pode formar-se uma fam\u00edlia\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 28\/02\/2014.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2840","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2840"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2840\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}