{"id":2841,"date":"2023-12-21T09:10:30","date_gmt":"2023-12-21T12:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-oscar-14-a-escravidao-de-todos-a-libertacao-na-rebeldia-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:30","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:30","slug":"o-oscar-14-a-escravidao-de-todos-a-libertacao-na-rebeldia-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-oscar-14-a-escravidao-de-todos-a-libertacao-na-rebeldia-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O OSCAR-14, A ESCRAVID\u00c3O DE TODOS. A LIBERTA\u00c7\u00c3O NA REBELDIA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO cinema n\u00e3o tem fronteiras,<br \/>\nnem limites. \u00c9 um fluxo constante<br \/>\nde sonhos\u201d. Orson Welles, ator e diretor americano (1915-1985).<br \/>\nEscrevo sobre o Oscar-14 com a (des)responsabilidade de cinemeiro. Cinemeiro \u00e9 aquele que vai ao cinema com olhar mais atento, ouvido agu\u00e7ado, mas n\u00e3o possui a cultura focada do cr\u00edtico de cinema. \u00c9 descompromissado, mas \u00e9 olhar sutil, diferente, e se enleva em ver filme em tela grande, sem papo com acompanhante, e fazendo \u201cpsiu\u201d quando h\u00e1 barulho na sala. Pois bem, vi alguns dos indicados e ap\u00f3s ficar intrigado com a s\u00fabita e breve apari\u00e7\u00e3o do Brad Pitt (nas cenas da constru\u00e7\u00e3o de um pavilh\u00e3o agregado \u00e0 Casa Grande) nos \u201c12\u201d, procurei entender. Ele \u00e9 o produtor de \u201c12 Anos de Escravid\u00e3o\u201d, baseado em livro autobiogr\u00e1fico de Solomon Northup, publicado em 1853. Chiwetel Ejiofor, brit\u00e2nico, filho de pais nigerianos, poderia ter ganhado o Oscar de melhor ator, mas seria demais para a vetusta Academia. O meu preferido era Bruce Dern, ator de Nebraska. Esse filme \u00e9 lindo em conte\u00fado e eloquente na aus\u00eancia do recurso moderno das cores. Preto e branco, leg\u00edtimo.<br \/>\nFez-se a abertura e um ingl\u00eas, negro, Steve McQueen (nome hom\u00f4nimo de um velho ator americano de filmes de farwest), diretor de \u201c12\u201d, ganhou o Oscar de melhor diretor. Al\u00e9m disso, a atriz coadjuvante, Lupita Nyong\u2019o, de nacionalidade queniana, mas naturalizada mexicana, ganhou o pr\u00eamio de sua categoria. Por outro lado, a rela\u00e7\u00e3o de amor-\u00f3dio da Calif\u00f3rnia e dos EEUU com o M\u00e9xico decidiu premiar \u201cGravidade\u201d \u2013 com sete indica\u00e7\u00f5es &#8211; como o melhor filme e o Oscar foi para o diretor mexicano Alfonso Cuar\u00f3n. Outro mexicano, Emmanuel Lubezki, ganhou o Oscar de fotografia.<br \/>\nO Brasil, entretanto, teve um pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o. A mulher de Matthew McConaughey, pr\u00eamio de Melhor Ator, por \u201cClube de Compras Dallas\u201d, \u00e9 a modelo brasileira Camila Alves. Fato instigante: um rep\u00f3rter, p\u00f3s-premia\u00e7\u00e3o, perguntou \u00e0 Camila como era Matthew em casa. Ela, s\u00fabito, respondeu: \u201cQuem \u00e9 esse cara (referindo-se \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dele) rom\u00e2ntico, podemos traz\u00ea-lo para casa s\u00f3 um pouquinho?\u201d. Eles t\u00eam tr\u00eas filhos e s\u00e3o casados, de verdade.<br \/>\nSabe-se que os EEUU, especialmente, a quase metade republicana, ainda n\u00e3o absorveu o mundo sem fronteira de cor e religi\u00e3o. Os Wasp (White, branco, anglo-saxon(\u00e3o) e protestant(e)) j\u00e1 deixam de ser a maioria da \u201cterra dos bravos\u201d e resistem em aceitar Obama. Al\u00e9m de negro, foi sido eleito, por ser culto, desenvolto, articulado, e reeleito. Michelle, sua mulher, com seu ar blas\u00e9, na Casa Branca, n\u00e3o foi submissa, como deveriam ser as escravas retratadas no \u201c12\u201d. Ressalve-se que Lupita, ganhadora de melhor atriz coadjuvante, n\u00e3o aceitava ser a \u201cnegra preferida\u201d para saciar os desejos de seu amo branco. Foi essa revolta encenada que a fez ganhadora. Com m\u00e9ritos. Acrescentando-se que no seu discurso de agradecimento ela mostrou cultura e desembara\u00e7o, forjado na mistura de sua origem africana, a op\u00e7\u00e3o pela cidadania mexicana e a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica nos EEUU.<br \/>\nHoje, fala-se muito em igualdade, cotas raciais \u2013contra e a favor &#8211; e os frutos dos movimentos libert\u00e1rios eclodem em todo o mundo. N\u00e3o apenas no orbe ocidental \u2013 que pensamos ser o centro do planeta. Em todos os demais continentes h\u00e1 insatisfeitos, seja por quest\u00f5es de f\u00e9, ra\u00e7a, ideologia, g\u00eanero e cultura.<br \/>\nO mundo dos \u201csabidos\u201d precisa absorver o que o s\u00e9culo 21 vem, atabalhoadamente, mostrando: h\u00e1 outras faces e fases emergindo e n\u00e3o se pode mais pedir que \u201celes\u201d, os outros, fiquem no seu lugar. \u201cEles\u201d fazem parte do n\u00f3s e h\u00e3o que surgir pequenos e grandes estrondos para, depois, reinar a paz entre os homens. Enquanto isso, se briga por fronteiras, migra\u00e7\u00e3o\/imigra\u00e7\u00e3o, cobi\u00e7a, t\u00eanues e j\u00e1 vagas no\u00e7\u00f5es de ideologias que vieram do iluminismo, do s\u00e9culo 19 e percorreram grande parte do \u00faltimo.<br \/>\nVoltando \u00e0 \u201cs\u00e9tima arte\u201d: \u00e9 bom que neste 2014 os membros do \u201cestablishment\u201d tenham acenado para povos, hist\u00f3rias e pa\u00edses diferentes. Esse ponta-p\u00e9 come\u00e7ou, mambembe, em 1914, quando Charles Chaplin com suas met\u00e1foras no cinema mundo, apareceu em \u201cMaking a Living\u201d, traduzido no Brasil como \u201cCarlitos Rep\u00f3rter\u201d. Sobre Chaplin falarei depois.<br \/>\nResumindo e concluindo, sair de casa e ir a um cinema de tela grande, \u00e9 forma l\u00facida de conviver com as diferen\u00e7as, com a loucura dos enredos, aprender alguma coisa que sirva para entender que nenhum de n\u00f3s \u00e9 t\u00e3o importante que n\u00e3o possa ser confundido como escravo, independente da cor de nossa pele. S\u00f3 h\u00e1 uma f\u00f3rmula para isso n\u00e3o acontecer: conhecimento, preparo e rebeldia consciente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07\/03\/2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO cinema n\u00e3o tem fronteiras,<br \/>\nnem limites. \u00c9 um fluxo constante<br \/>\nde sonhos\u201d. Orson Welles, ator e diretor americano (1915-1985).<br \/>\nEscrevo sobre o Oscar-14 com a (des)responsabilidade de cinemeiro. Cinemeiro \u00e9 aquele que vai ao cinema com olhar mais atento, ouvido agu\u00e7ado, mas n\u00e3o possui a cultura focada do cr\u00edtico de cinema. \u00c9 descompromissado, mas \u00e9 olhar sutil, diferente, e se enleva em ver filme em tela grande, sem papo com acompanhante, e fazendo \u201cpsiu\u201d quando h\u00e1 barulho na sala. Pois bem, vi alguns dos indicados e ap\u00f3s ficar intrigado com a s\u00fabita e breve apari\u00e7\u00e3o do Brad Pitt (nas cenas da constru\u00e7\u00e3o de um pavilh\u00e3o agregado \u00e0 Casa Grande) nos \u201c12\u201d, procurei entender. Ele \u00e9 o produtor de \u201c12 Anos de Escravid\u00e3o\u201d, baseado em livro autobiogr\u00e1fico de Solomon Northup, publicado em 1853. Chiwetel Ejiofor, brit\u00e2nico, filho de pais nigerianos, poderia ter ganhado o Oscar de melhor ator, mas seria demais para a vetusta Academia. O meu preferido era Bruce Dern, ator de Nebraska. Esse filme \u00e9 lindo em conte\u00fado e eloquente na aus\u00eancia do recurso moderno das cores. Preto e branco, leg\u00edtimo.<br \/>\nFez-se a abertura e um ingl\u00eas, negro, Steve McQueen (nome hom\u00f4nimo de um velho ator americano de filmes de farwest), diretor de \u201c12\u201d, ganhou o Oscar de melhor diretor. Al\u00e9m disso, a atriz coadjuvante, Lupita Nyong\u2019o, de nacionalidade queniana, mas naturalizada mexicana, ganhou o pr\u00eamio de sua categoria. Por outro lado, a rela\u00e7\u00e3o de amor-\u00f3dio da Calif\u00f3rnia e dos EEUU com o M\u00e9xico decidiu premiar \u201cGravidade\u201d \u2013 com sete indica\u00e7\u00f5es &#8211; como o melhor filme e o Oscar foi para o diretor mexicano Alfonso Cuar\u00f3n. Outro mexicano, Emmanuel Lubezki, ganhou o Oscar de fotografia.<br \/>\nO Brasil, entretanto, teve um pr\u00eamio de consola\u00e7\u00e3o. A mulher de Matthew McConaughey, pr\u00eamio de Melhor Ator, por \u201cClube de Compras Dallas\u201d, \u00e9 a modelo brasileira Camila Alves. Fato instigante: um rep\u00f3rter, p\u00f3s-premia\u00e7\u00e3o, perguntou \u00e0 Camila como era Matthew em casa. Ela, s\u00fabito, respondeu: \u201cQuem \u00e9 esse cara (referindo-se \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dele) rom\u00e2ntico, podemos traz\u00ea-lo para casa s\u00f3 um pouquinho?\u201d. Eles t\u00eam tr\u00eas filhos e s\u00e3o casados, de verdade.<br \/>\nSabe-se que os EEUU, especialmente, a quase metade republicana, ainda n\u00e3o absorveu o mundo sem fronteira de cor e religi\u00e3o. Os Wasp (White, branco, anglo-saxon(\u00e3o) e protestant(e)) j\u00e1 deixam de ser a maioria da \u201cterra dos bravos\u201d e resistem em aceitar Obama. Al\u00e9m de negro, foi sido eleito, por ser culto, desenvolto, articulado, e reeleito. Michelle, sua mulher, com seu ar blas\u00e9, na Casa Branca, n\u00e3o foi submissa, como deveriam ser as escravas retratadas no \u201c12\u201d. Ressalve-se que Lupita, ganhadora de melhor atriz coadjuvante, n\u00e3o aceitava ser a \u201cnegra preferida\u201d para saciar os desejos de seu amo branco. Foi essa revolta encenada que a fez ganhadora. Com m\u00e9ritos. Acrescentando-se que no seu discurso de agradecimento ela mostrou cultura e desembara\u00e7o, forjado na mistura de sua origem africana, a op\u00e7\u00e3o pela cidadania mexicana e a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica nos EEUU.<br \/>\nHoje, fala-se muito em igualdade, cotas raciais \u2013contra e a favor &#8211; e os frutos dos movimentos libert\u00e1rios eclodem em todo o mundo. N\u00e3o apenas no orbe ocidental \u2013 que pensamos ser o centro do planeta. Em todos os demais continentes h\u00e1 insatisfeitos, seja por quest\u00f5es de f\u00e9, ra\u00e7a, ideologia, g\u00eanero e cultura.<br \/>\nO mundo dos \u201csabidos\u201d precisa absorver o que o s\u00e9culo 21 vem, atabalhoadamente, mostrando: h\u00e1 outras faces e fases emergindo e n\u00e3o se pode mais pedir que \u201celes\u201d, os outros, fiquem no seu lugar. \u201cEles\u201d fazem parte do n\u00f3s e h\u00e3o que surgir pequenos e grandes estrondos para, depois, reinar a paz entre os homens. Enquanto isso, se briga por fronteiras, migra\u00e7\u00e3o\/imigra\u00e7\u00e3o, cobi\u00e7a, t\u00eanues e j\u00e1 vagas no\u00e7\u00f5es de ideologias que vieram do iluminismo, do s\u00e9culo 19 e percorreram grande parte do \u00faltimo.<br \/>\nVoltando \u00e0 \u201cs\u00e9tima arte\u201d: \u00e9 bom que neste 2014 os membros do \u201cestablishment\u201d tenham acenado para povos, hist\u00f3rias e pa\u00edses diferentes. Esse ponta-p\u00e9 come\u00e7ou, mambembe, em 1914, quando Charles Chaplin com suas met\u00e1foras no cinema mundo, apareceu em \u201cMaking a Living\u201d, traduzido no Brasil como \u201cCarlitos Rep\u00f3rter\u201d. Sobre Chaplin falarei depois.<br \/>\nResumindo e concluindo, sair de casa e ir a um cinema de tela grande, \u00e9 forma l\u00facida de conviver com as diferen\u00e7as, com a loucura dos enredos, aprender alguma coisa que sirva para entender que nenhum de n\u00f3s \u00e9 t\u00e3o importante que n\u00e3o possa ser confundido como escravo, independente da cor de nossa pele. S\u00f3 h\u00e1 uma f\u00f3rmula para isso n\u00e3o acontecer: conhecimento, preparo e rebeldia consciente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 07\/03\/2014.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2841","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2841","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2841"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2841\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2841"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2841"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2841"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}