{"id":2848,"date":"2023-12-21T09:10:30","date_gmt":"2023-12-21T12:10:30","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/um-rio-de-recordacoes-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:30","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:30","slug":"um-rio-de-recordacoes-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/um-rio-de-recordacoes-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"UM RIO DE RECORDA\u00c7\u00d5ES &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cO tempo n\u00e3o existe. S\u00f3 existe o passar do tempo\u201d. Mill\u00f4r Fernandes nasceu e morreu no Rio.<br \/>\nEstou no Rio de Janeiro, esta cidade que descobri na juventude e a ela me afei\u00e7oei. Cheguei ao \u201cSantos Dumont\u201d e n\u00e3o havia ningu\u00e9m esperando. O telegrama atrasara e a tia n\u00e3o estava l\u00e1. T\u00e1xi, mala na m\u00e3o, fui ter ao Hotel Mem de S\u00e1, Lapa, por indica\u00e7\u00e3o do motorista. Defronte, o Instituto M\u00e9dico Legal, com o som das sirenes das camionetas chegando e saindo, me causava medo. Era noite e tudo me parecia estranho. Olhei, tomei as refer\u00eancias da localiza\u00e7\u00e3o do hotel e me aventurei pelas vizinhan\u00e7as. N\u00e3o sabia que estava em \u00e1rea perigosa, e o novo, tal como ainda hoje, me fascinava. Vi os arcos da Lapa, mo\u00e7as da noite, circulei e recolhi-me. Porta cal\u00e7ada por um m\u00f3vel.<br \/>\nDepois, dei com a tia e fui me empanturrando das belezas, das cores e dos cheiros do Rio, essa cidade de tantas faces e de faceiras mulheres, em toda a sua grandeza, desde os confins das zonas norte e oeste, para onde me levavam a curiosidade, os \u00f4nibus e os trens, a partir da Central do Brasil, na Av. Presidente Vargas. Copacabana era mais brejeira; a Av. Atl\u00e2ntica n\u00e3o havia sido alargada e o bondinho do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar ganhou mais um passageiro. Meus olhos eram bin\u00f3culos perscrutadores da mata, do mar e da enseada de Botafogo. Desci e de p\u00e9, na Praia Vermelha, sai deambulando pela avenida sombreada que mostrava, de um lado, os pr\u00e9dios de diversos cursos da antiga Universidade do Brasil e, do outro, a opul\u00eancia do Iate Clube do Rio de Janeiro.<br \/>\nEra a primeira vez. Foram tantas, depois. Cheguei, j\u00e1 profissional, at\u00e9 a cogitar morar por l\u00e1 nos anos 1970; tive sala, trabalhava, mas o umbigo e a fam\u00edlia me chamavam de volta. Fazia do trajeto Fortaleza \u2013 Rio uma constante ponte a\u00e9rea. Eu me embrenhava pelas avenidas Rio Branco e Pres.Wilson, ruas 1o. de Mar\u00e7o e M\u00e9xico e outras mais, no centro, para provar que sabia estudar e fazer r planos e projetos. Vaidade boba. Assim foi. Assim n\u00e3o \u00e9 mais.<br \/>\nHoje, d\u00e9cadas depois, ainda resta sentimento de perten\u00e7a, essa liga invis\u00edvel e indiz\u00edvel, que me faz andar por sua orla, ver os castelos feitos de areia e a est\u00e1tua de Carlos Drummond de Andrade (\u201cN\u00e3o h\u00e1 vivos, h\u00e1 os que morreram e os que esperam a vez\u201d). Certa vez, encontrei um grupo de contracultura \u201cRatos di Versos\u201d e a\u00ed me quedei a ouvir poesias, divaga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e o pulsar da ingenuidade dos que ainda acreditam que a cultura pode transformar o mundo. No posto Seis, onde sempre me quedo, vejo aposentados jogando damas e gam\u00e3o, enquanto alguns raros pescadores fundeiam seus barcos aos p\u00e9s da Fortaleza militar que separa Copacabana de Ipanema.<br \/>\nE me repito ao falar que tantas vezes vi Oscar Niemeyer &#8211; que n\u00e3o usava o Soares do seu pai, embora assim registrado &#8211; descer do carro Dodge que o trazia, na esquina da J\u00falio de Castilhos com a Atl\u00e2ntica, para dar algumas passadas, com seu blazer marinho, sapatos com saltos mais altos que o normal &#8211; sem atentar que era grande n\u00e3o em estatura, mas por sua obra universal &#8211; e chegar ao seu escrit\u00f3rio na cobertura de um velho pr\u00e9dio com varandas em semi-c\u00edrculo, a metros dali.<br \/>\nFa\u00e7o-me passadista, e isso n\u00e3o fica bem para quem imagina ter muito ainda o que fazer e, n\u00e3o sei por que, vem a lembran\u00e7a da morte do Jos\u00e9 Wilker, na madrugada do s\u00e1bado passado, esse artista completo que a cidade de Juazeiro do Padre C\u00edcero presenteou ao Brasil. A mim, n\u00e3o vidente de novelas, Wilker causava-me bem quando, em canais n\u00e3o t\u00e3o comerciais, fazia cr\u00edticas de filmes com aquela voz perform\u00e1tica que dele se apoderou. Pois \u00e9, sexta passada, fazia planos para o anivers\u00e1rio da filha no dia seguinte. Dormiu e a nefanda o levou. Ela desfaz planos, sorrateira e enigm\u00e1tica.<br \/>\nAgora, estou aqui neste Rio de todos os meses, entrando em botecos, misturando-me ao povo, essa gente que faz essa cidade de tantas caras e almas sofridas ainda conseguir ser alegre e acolhedora, mesmo que a viol\u00eancia n\u00e3o conceda a liberdade para sermos mais abertos, simples e comunicativos. A viol\u00eancia e a nefanda est\u00e3o soltas, n\u00e3o s\u00f3 nesta terra em que o governador atende pelo nome estranho de \u201cPez\u00e3o\u201d, mas em todas as partes deste Brasil ainda varonil, mas nem tanto.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11\/04\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO tempo n\u00e3o existe. S\u00f3 existe o passar do tempo\u201d. Mill\u00f4r Fernandes nasceu e morreu no Rio.<br \/>\nEstou no Rio de Janeiro, esta cidade que descobri na juventude e a ela me afei\u00e7oei. Cheguei ao \u201cSantos Dumont\u201d e n\u00e3o havia ningu\u00e9m esperando. O telegrama atrasara e a tia n\u00e3o estava l\u00e1. T\u00e1xi, mala na m\u00e3o, fui ter ao Hotel Mem de S\u00e1, Lapa, por indica\u00e7\u00e3o do motorista. Defronte, o Instituto M\u00e9dico Legal, com o som das sirenes das camionetas chegando e saindo, me causava medo. Era noite e tudo me parecia estranho. Olhei, tomei as refer\u00eancias da localiza\u00e7\u00e3o do hotel e me aventurei pelas vizinhan\u00e7as. N\u00e3o sabia que estava em \u00e1rea perigosa, e o novo, tal como ainda hoje, me fascinava. Vi os arcos da Lapa, mo\u00e7as da noite, circulei e recolhi-me. Porta cal\u00e7ada por um m\u00f3vel.<br \/>\nDepois, dei com a tia e fui me empanturrando das belezas, das cores e dos cheiros do Rio, essa cidade de tantas faces e de faceiras mulheres, em toda a sua grandeza, desde os confins das zonas norte e oeste, para onde me levavam a curiosidade, os \u00f4nibus e os trens, a partir da Central do Brasil, na Av. Presidente Vargas. Copacabana era mais brejeira; a Av. Atl\u00e2ntica n\u00e3o havia sido alargada e o bondinho do P\u00e3o de A\u00e7\u00facar ganhou mais um passageiro. Meus olhos eram bin\u00f3culos perscrutadores da mata, do mar e da enseada de Botafogo. Desci e de p\u00e9, na Praia Vermelha, sai deambulando pela avenida sombreada que mostrava, de um lado, os pr\u00e9dios de diversos cursos da antiga Universidade do Brasil e, do outro, a opul\u00eancia do Iate Clube do Rio de Janeiro.<br \/>\nEra a primeira vez. Foram tantas, depois. Cheguei, j\u00e1 profissional, at\u00e9 a cogitar morar por l\u00e1 nos anos 1970; tive sala, trabalhava, mas o umbigo e a fam\u00edlia me chamavam de volta. Fazia do trajeto Fortaleza \u2013 Rio uma constante ponte a\u00e9rea. Eu me embrenhava pelas avenidas Rio Branco e Pres.Wilson, ruas 1o. de Mar\u00e7o e M\u00e9xico e outras mais, no centro, para provar que sabia estudar e fazer r planos e projetos. Vaidade boba. Assim foi. Assim n\u00e3o \u00e9 mais.<br \/>\nHoje, d\u00e9cadas depois, ainda resta sentimento de perten\u00e7a, essa liga invis\u00edvel e indiz\u00edvel, que me faz andar por sua orla, ver os castelos feitos de areia e a est\u00e1tua de Carlos Drummond de Andrade (\u201cN\u00e3o h\u00e1 vivos, h\u00e1 os que morreram e os que esperam a vez\u201d). Certa vez, encontrei um grupo de contracultura \u201cRatos di Versos\u201d e a\u00ed me quedei a ouvir poesias, divaga\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas e o pulsar da ingenuidade dos que ainda acreditam que a cultura pode transformar o mundo. No posto Seis, onde sempre me quedo, vejo aposentados jogando damas e gam\u00e3o, enquanto alguns raros pescadores fundeiam seus barcos aos p\u00e9s da Fortaleza militar que separa Copacabana de Ipanema.<br \/>\nE me repito ao falar que tantas vezes vi Oscar Niemeyer &#8211; que n\u00e3o usava o Soares do seu pai, embora assim registrado &#8211; descer do carro Dodge que o trazia, na esquina da J\u00falio de Castilhos com a Atl\u00e2ntica, para dar algumas passadas, com seu blazer marinho, sapatos com saltos mais altos que o normal &#8211; sem atentar que era grande n\u00e3o em estatura, mas por sua obra universal &#8211; e chegar ao seu escrit\u00f3rio na cobertura de um velho pr\u00e9dio com varandas em semi-c\u00edrculo, a metros dali.<br \/>\nFa\u00e7o-me passadista, e isso n\u00e3o fica bem para quem imagina ter muito ainda o que fazer e, n\u00e3o sei por que, vem a lembran\u00e7a da morte do Jos\u00e9 Wilker, na madrugada do s\u00e1bado passado, esse artista completo que a cidade de Juazeiro do Padre C\u00edcero presenteou ao Brasil. A mim, n\u00e3o vidente de novelas, Wilker causava-me bem quando, em canais n\u00e3o t\u00e3o comerciais, fazia cr\u00edticas de filmes com aquela voz perform\u00e1tica que dele se apoderou. Pois \u00e9, sexta passada, fazia planos para o anivers\u00e1rio da filha no dia seguinte. Dormiu e a nefanda o levou. Ela desfaz planos, sorrateira e enigm\u00e1tica.<br \/>\nAgora, estou aqui neste Rio de todos os meses, entrando em botecos, misturando-me ao povo, essa gente que faz essa cidade de tantas caras e almas sofridas ainda conseguir ser alegre e acolhedora, mesmo que a viol\u00eancia n\u00e3o conceda a liberdade para sermos mais abertos, simples e comunicativos. A viol\u00eancia e a nefanda est\u00e3o soltas, n\u00e3o s\u00f3 nesta terra em que o governador atende pelo nome estranho de \u201cPez\u00e3o\u201d, mas em todas as partes deste Brasil ainda varonil, mas nem tanto.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11\/04\/2014<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2848","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2848"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2848\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}