{"id":2850,"date":"2023-12-21T09:10:31","date_gmt":"2023-12-21T12:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/preconceito-rivalidade-e-realidade-cultural-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:31","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:31","slug":"preconceito-rivalidade-e-realidade-cultural-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/preconceito-rivalidade-e-realidade-cultural-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"PRECONCEITO, RIVALIDADE E REALIDADE CULTURAL &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas, do modo mais simples\u201d. Ralph W. Emerson, ensa\u00edsta americano, sec. 19<br \/>\nDuas escritoras cearenses sofreram, recentemente, \u00e1rduas aprecia\u00e7\u00f5es em resenhas feitas por cr\u00edticos da Folha de S\u00e3o Paulo. Uma \u00e9 renomada, premiada, tem densidade e sabe escolher os temas de seus livros, que fogem do trivial, do enredo que se convencionou usar para produzir um \u201cbest seller\u201d. Ela n\u00e3o faz concess\u00e3o, pesquisa caminhos n\u00e3o f\u00e1ceis de recontar hist\u00f3rias e esmiu\u00e7ar a produ\u00e7\u00e3o\/vida de escritores para um p\u00fablico mais exclusivo. \u00c9 o seu jeito.<br \/>\nA outra, mais jovem, j\u00e1 ganhou o pr\u00eamio \u201cJabuti\u201d, por obra que pretende dar alternativas \u00e0s crian\u00e7as que acham densas as est\u00f3rias infantis de Monteiro Lobato. Agora, ela \u201cregionalizou\u201d uma hist\u00f3ria e teve a coragem de falar, de forma solta e at\u00e9 honrada, de inicia\u00e7\u00e3o feita em Cuba com Gabriel Garc\u00eda Marquez. Pois bem, sofreu cr\u00edticas sobre o seu enredo e tessitura. Ela deve perseverar.<br \/>\nAs duas n\u00e3o mereciam esse preconceito. Mesmo apresentadas por editoras seletivas \u2013 e de porte \u2013 sofreram por n\u00e3o participar do c\u00edrculo conc\u00eantrico dos que pretendem ter a primazia de ditar \u201cquem \u00e9 quem\u201d na escrita neste Brasil de t\u00e3o parcos leitores. As grandes livrarias brasileiras, depois da inje\u00e7\u00e3o de capital pelo lan\u00e7amento de a\u00e7\u00f5es na Bolsa de Valores, vendem mais autoajuda, CDs e revistas que livros de verdade.<br \/>\nSabem os escritores de fato que a literatura \u00e9 defesa \u00e0s contund\u00eancias do lugar comum, do \u00f3bvio que deleita os que n\u00e3o t\u00eam vocabul\u00e1rio restrito ou pouca imagina\u00e7\u00e3o para mergulhar no escafandro do conhecimento. Por outro lado, esses mesmos cr\u00edticos do sudeste tecem loas ao refinamento de Cristov\u00e3o Tezza em \u201cO Professor\u201d. \u00c9 claro que \u00e9 um bom livro, mas \u00e9 f\u00f3rmula muito em uso na Europa e Estados Unidos. Heliseu, o personagem, revive no dia em que ser\u00e1 homenageado por sua carreira de professor e fil\u00f3logo, a sua exist\u00eancia. Ele repassa a sua hist\u00f3ria pessoal, as desditas familiares, a morte da mulher, um caso de amor com colega francesa, a dist\u00e2ncia e brigas com o filho, d\u00favidas na escolha da gravata e, por fim, a consci\u00eancia de que a mat\u00e9ria que consumiu a sua vida est\u00e1 em extin\u00e7\u00e3o, enquanto emerge a for\u00e7a da lingu\u00edstica. Veste um palet\u00f3 preto, sem gravata, e sai solit\u00e1rio para o \u00faltimo tributo. A trama urdida tem similar.<br \/>\n\u00c9 quest\u00e3o de gosto, nada contra Tezza. Ele escreveu como quis e o fez bem, mas porque ser\u00e1 que n\u00f3s, desta banda do Brasil, somos t\u00e3o discriminados? O governo de Pernambuco \u2013 n\u00e3o s\u00f3 o atual \u2013, pelo menos, criou a revista \u201cContinente\u201d, que \u00e9 editada pela Imprensa Oficial com primor e d\u00e1 espa\u00e7o aos nomes mais significativos das letras maur\u00edcias. Rachel de Queiroz foi a \u00faltima cearense na Academia Brasileira de Letras. Com um detalhe: ela morava no Rio, desde sempre.<br \/>\nTalvez seja por tal raz\u00e3o que estejamos ilhados em nossas \u201cigrejinhas\u201d e turmas, sem que se formulem ideias para dar realce aos que merecem. N\u00e3o h\u00e1, faz tempo, sintonia fina entre a Secretaria da Cultura e as nossas principais institui\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. A op\u00e7\u00e3o \u2013 e brigas \u2013 por editais e a vinda de nomes pouco celebrados parece ser a constante. E, por favor, n\u00e3o remontem o modelo ultrapassado de bienais do livro, amontoado de encalhes de editoras, palestrantes manjados de um \u201cRoad show\u201d j\u00e1 carcomido pelo tempo e as visitas guiadas de estudantes de escolas p\u00fablicas, estranhos no ninho pela defici\u00eancia end\u00f3gena do tema literatura nas grades curriculares.<br \/>\n\u00c9 hora de desafios. Tirar crian\u00e7as da frente de joguinhos coloridos e sonoros de um computador ou celular \u00e9 desafio para todos os que querem ver o Brasil sair do atoleiro da ignor\u00e2ncia que nos fere a alma.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/04\/2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 prova de alta cultura dizer as coisas mais profundas, do modo mais simples\u201d. Ralph W. Emerson, ensa\u00edsta americano, sec. 19<br \/>\nDuas escritoras cearenses sofreram, recentemente, \u00e1rduas aprecia\u00e7\u00f5es em resenhas feitas por cr\u00edticos da Folha de S\u00e3o Paulo. Uma \u00e9 renomada, premiada, tem densidade e sabe escolher os temas de seus livros, que fogem do trivial, do enredo que se convencionou usar para produzir um \u201cbest seller\u201d. Ela n\u00e3o faz concess\u00e3o, pesquisa caminhos n\u00e3o f\u00e1ceis de recontar hist\u00f3rias e esmiu\u00e7ar a produ\u00e7\u00e3o\/vida de escritores para um p\u00fablico mais exclusivo. \u00c9 o seu jeito.<br \/>\nA outra, mais jovem, j\u00e1 ganhou o pr\u00eamio \u201cJabuti\u201d, por obra que pretende dar alternativas \u00e0s crian\u00e7as que acham densas as est\u00f3rias infantis de Monteiro Lobato. Agora, ela \u201cregionalizou\u201d uma hist\u00f3ria e teve a coragem de falar, de forma solta e at\u00e9 honrada, de inicia\u00e7\u00e3o feita em Cuba com Gabriel Garc\u00eda Marquez. Pois bem, sofreu cr\u00edticas sobre o seu enredo e tessitura. Ela deve perseverar.<br \/>\nAs duas n\u00e3o mereciam esse preconceito. Mesmo apresentadas por editoras seletivas \u2013 e de porte \u2013 sofreram por n\u00e3o participar do c\u00edrculo conc\u00eantrico dos que pretendem ter a primazia de ditar \u201cquem \u00e9 quem\u201d na escrita neste Brasil de t\u00e3o parcos leitores. As grandes livrarias brasileiras, depois da inje\u00e7\u00e3o de capital pelo lan\u00e7amento de a\u00e7\u00f5es na Bolsa de Valores, vendem mais autoajuda, CDs e revistas que livros de verdade.<br \/>\nSabem os escritores de fato que a literatura \u00e9 defesa \u00e0s contund\u00eancias do lugar comum, do \u00f3bvio que deleita os que n\u00e3o t\u00eam vocabul\u00e1rio restrito ou pouca imagina\u00e7\u00e3o para mergulhar no escafandro do conhecimento. Por outro lado, esses mesmos cr\u00edticos do sudeste tecem loas ao refinamento de Cristov\u00e3o Tezza em \u201cO Professor\u201d. \u00c9 claro que \u00e9 um bom livro, mas \u00e9 f\u00f3rmula muito em uso na Europa e Estados Unidos. Heliseu, o personagem, revive no dia em que ser\u00e1 homenageado por sua carreira de professor e fil\u00f3logo, a sua exist\u00eancia. Ele repassa a sua hist\u00f3ria pessoal, as desditas familiares, a morte da mulher, um caso de amor com colega francesa, a dist\u00e2ncia e brigas com o filho, d\u00favidas na escolha da gravata e, por fim, a consci\u00eancia de que a mat\u00e9ria que consumiu a sua vida est\u00e1 em extin\u00e7\u00e3o, enquanto emerge a for\u00e7a da lingu\u00edstica. Veste um palet\u00f3 preto, sem gravata, e sai solit\u00e1rio para o \u00faltimo tributo. A trama urdida tem similar.<br \/>\n\u00c9 quest\u00e3o de gosto, nada contra Tezza. Ele escreveu como quis e o fez bem, mas porque ser\u00e1 que n\u00f3s, desta banda do Brasil, somos t\u00e3o discriminados? O governo de Pernambuco \u2013 n\u00e3o s\u00f3 o atual \u2013, pelo menos, criou a revista \u201cContinente\u201d, que \u00e9 editada pela Imprensa Oficial com primor e d\u00e1 espa\u00e7o aos nomes mais significativos das letras maur\u00edcias. Rachel de Queiroz foi a \u00faltima cearense na Academia Brasileira de Letras. Com um detalhe: ela morava no Rio, desde sempre.<br \/>\nTalvez seja por tal raz\u00e3o que estejamos ilhados em nossas \u201cigrejinhas\u201d e turmas, sem que se formulem ideias para dar realce aos que merecem. N\u00e3o h\u00e1, faz tempo, sintonia fina entre a Secretaria da Cultura e as nossas principais institui\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias. A op\u00e7\u00e3o \u2013 e brigas \u2013 por editais e a vinda de nomes pouco celebrados parece ser a constante. E, por favor, n\u00e3o remontem o modelo ultrapassado de bienais do livro, amontoado de encalhes de editoras, palestrantes manjados de um \u201cRoad show\u201d j\u00e1 carcomido pelo tempo e as visitas guiadas de estudantes de escolas p\u00fablicas, estranhos no ninho pela defici\u00eancia end\u00f3gena do tema literatura nas grades curriculares.<br \/>\n\u00c9 hora de desafios. Tirar crian\u00e7as da frente de joguinhos coloridos e sonoros de um computador ou celular \u00e9 desafio para todos os que querem ver o Brasil sair do atoleiro da ignor\u00e2ncia que nos fere a alma.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/04\/2014.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2850","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2850"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2850\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}