{"id":2875,"date":"2023-12-21T09:10:31","date_gmt":"2023-12-21T12:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-inveja-mais-uma-versao-e-alguns-palpites-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:31","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:31","slug":"a-inveja-mais-uma-versao-e-alguns-palpites-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-inveja-mais-uma-versao-e-alguns-palpites-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A INVEJA, MAIS UMA VERS\u00c3O E ALGUNS PALPITES &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>A psicanalista Anna Veronica Mautner, em artigo publicado semana passada na Folha, sob o nome \u201cInveja, um pecado capital\u201d diz: \u2018Hoje a inveja funciona quase como um motor da a\u00e7\u00e3o.\u2019 \u201cPor que n\u00e3o tenho? N\u00e3o tenho por que n\u00e3o quero o suficiente, com a for\u00e7a necess\u00e1ria\u201d. E fala mais: \u201cQuem inveja \u00e9 porque quer o que n\u00e3o tem. Por que uns e outros, n\u00e3o? O mundo \u00e9 assim.\u201d<br \/>\nVoc\u00ea, caro(a) leitor(a) como se sente? A inveja passa longe de voc\u00ea? Vivemos em um mundo em que os valores das pessoas podem deixar crer que s\u00e3o os bens que elas possuem que as fazem invejadas. Se forem esses os seus \u00fanicos valores, pobres delas, mesmo que muito tenham e alardeiem para deixar bem claro quem s\u00e3o no mundo da apar\u00eancia ou do interesse. O pintor Salvador Dali, no auge da fama, por ele pr\u00f3prio estimulada, com sua vida t\u00e3o surreal quanto suas pinturas, ousou dizer: \u201cO term\u00f4metro do sucesso \u00e9 apenas a inveja dos descontentes\u201d. Ele parecia ter ouvido o que falava o escritor Oscar Wilde, t\u00e3o sofrido com sua vida pessoal exposta e julgada: \u201cO n\u00famero dos que nos invejam confirma as nossas capacidades\u201d.<br \/>\nMautner insiste: \u201cE por que ser\u00e1 que falamos t\u00e3o pouco da inveja quando ela ocupa tanto espa\u00e7o na nossa vida? Uma resposta plaus\u00edvel \u00e9 que a gente prefere n\u00e3o pensar na nossa rela\u00e7\u00e3o com os pecados que cometemos frequentemente\u201d. Estranho que uma psicanalista fale de pecado como sentimento de culpa por algo que desejamos e n\u00e3o temos. Eu substituiria a palavra pecado por erro ou falha de car\u00e1ter. O pecado pressup\u00f5e a cren\u00e7a em uma divindade maior que absolve ou culpa. Enfim, julga. O erro faz parte da humanidade e \u00e9, algumas vezes, desenho do aprendizado. Erro porque sou humano, e essa foi a forma que encontrei para aprender e n\u00e3o para invejar o outro.<br \/>\nModerna, Anna fala que \u201ca tecnologia parece atender a vontade infinita que temos de ser invejados. Estou em uma festa, em um restaurante e espalho isso para o meu mundo virtual. Basta ser meu amigo no Facebook para eu alcan\u00e7\u00e1-lo\u201d. Ser\u00e1 que estaremos felizes apenas por mostrar as nossas companhias, os lugares que frequentamos, a est\u00e9tica das mesas de que participamos?<br \/>\nCreio que admitir que algu\u00e9m tenha inveja de outro a partir de registro fotogr\u00e1fico ou de uma grava\u00e7\u00e3o amadora \u00e9 presun\u00e7\u00e3o ego\u00edsta e de efeito rel\u00e2mpago. Apaga-se o flash, desliga-se a c\u00e2mera e o ambiente charmoso fica a espera do olho do outro, daquele que n\u00e3o est\u00e1 a participar do festim que tornou algu\u00e9m exposto de forma infantil e nada sutil.<br \/>\nAriano Suassuna, no jeito peculiar dele, fala sobre a morte \u2013 como o fim da inveja &#8211; no \u201cAuto da Compadecida\u201d e mostra que invejosos e invejados morrem. Leiam-no: \u201cCumpriu sua senten\u00e7a. Encontrou-se com o \u00fanico mal irremedi\u00e1vel, aquilo que \u00e9 a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explica\u00e7\u00e3o que iguala tudo o que \u00e9 vivo num s\u00f3 rebanho de condenados, porque tudo que \u00e9 vivo, morre\u201d.<br \/>\nA pr\u00f3pria B\u00edblia d\u00e1 muita aten\u00e7\u00e3o ao tema inveja. Dois exemplos. G\u00e1latas 5:26: \u201cN\u00e3o sejamos cobi\u00e7osos de vangl\u00f3rias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros\u201d. Por sua vez, em Tiago 3:15 est\u00e1 dito: \u201cMas se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa n\u00e3o \u00e9 a sabedoria que vem do alto, mas \u00e9 terrena, animal e diab\u00f3lica\u201d.<br \/>\nNessa hist\u00f3ria ou est\u00f3ria de inveja \u00e9 preciso saber a quantas anda a autoestima das pessoas. Essa que oscila como os mares e as fases da lua e n\u00e3o nos assegura que o olho do outro fique de acordo com o que a nossa vaidade quer que ele enxergue, perceba, veja e, enfim, inveje. Mas, se algu\u00e9m precisa da inveja do outro para se afirmar como um ser maior, estar\u00e1, a cada passo, diminuindo a sua estatura como ref\u00e9m do olhar de outrem, muitas vezes perdido em suas pr\u00f3prias ang\u00fastias e incapaz de, sequer, notar o outro. Algu\u00e9m que n\u00e3o seja ele.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01\/08\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A psicanalista Anna Veronica Mautner, em artigo publicado semana passada na Folha, sob o nome \u201cInveja, um pecado capital\u201d diz: \u2018Hoje a inveja funciona quase como um motor da a\u00e7\u00e3o.\u2019 \u201cPor que n\u00e3o tenho? N\u00e3o tenho por que n\u00e3o quero o suficiente, com a for\u00e7a necess\u00e1ria\u201d. E fala mais: \u201cQuem inveja \u00e9 porque quer o que n\u00e3o tem. Por que uns e outros, n\u00e3o? O mundo \u00e9 assim.\u201d<br \/>\nVoc\u00ea, caro(a) leitor(a) como se sente? A inveja passa longe de voc\u00ea? Vivemos em um mundo em que os valores das pessoas podem deixar crer que s\u00e3o os bens que elas possuem que as fazem invejadas. Se forem esses os seus \u00fanicos valores, pobres delas, mesmo que muito tenham e alardeiem para deixar bem claro quem s\u00e3o no mundo da apar\u00eancia ou do interesse. O pintor Salvador Dali, no auge da fama, por ele pr\u00f3prio estimulada, com sua vida t\u00e3o surreal quanto suas pinturas, ousou dizer: \u201cO term\u00f4metro do sucesso \u00e9 apenas a inveja dos descontentes\u201d. Ele parecia ter ouvido o que falava o escritor Oscar Wilde, t\u00e3o sofrido com sua vida pessoal exposta e julgada: \u201cO n\u00famero dos que nos invejam confirma as nossas capacidades\u201d.<br \/>\nMautner insiste: \u201cE por que ser\u00e1 que falamos t\u00e3o pouco da inveja quando ela ocupa tanto espa\u00e7o na nossa vida? Uma resposta plaus\u00edvel \u00e9 que a gente prefere n\u00e3o pensar na nossa rela\u00e7\u00e3o com os pecados que cometemos frequentemente\u201d. Estranho que uma psicanalista fale de pecado como sentimento de culpa por algo que desejamos e n\u00e3o temos. Eu substituiria a palavra pecado por erro ou falha de car\u00e1ter. O pecado pressup\u00f5e a cren\u00e7a em uma divindade maior que absolve ou culpa. Enfim, julga. O erro faz parte da humanidade e \u00e9, algumas vezes, desenho do aprendizado. Erro porque sou humano, e essa foi a forma que encontrei para aprender e n\u00e3o para invejar o outro.<br \/>\nModerna, Anna fala que \u201ca tecnologia parece atender a vontade infinita que temos de ser invejados. Estou em uma festa, em um restaurante e espalho isso para o meu mundo virtual. Basta ser meu amigo no Facebook para eu alcan\u00e7\u00e1-lo\u201d. Ser\u00e1 que estaremos felizes apenas por mostrar as nossas companhias, os lugares que frequentamos, a est\u00e9tica das mesas de que participamos?<br \/>\nCreio que admitir que algu\u00e9m tenha inveja de outro a partir de registro fotogr\u00e1fico ou de uma grava\u00e7\u00e3o amadora \u00e9 presun\u00e7\u00e3o ego\u00edsta e de efeito rel\u00e2mpago. Apaga-se o flash, desliga-se a c\u00e2mera e o ambiente charmoso fica a espera do olho do outro, daquele que n\u00e3o est\u00e1 a participar do festim que tornou algu\u00e9m exposto de forma infantil e nada sutil.<br \/>\nAriano Suassuna, no jeito peculiar dele, fala sobre a morte \u2013 como o fim da inveja &#8211; no \u201cAuto da Compadecida\u201d e mostra que invejosos e invejados morrem. Leiam-no: \u201cCumpriu sua senten\u00e7a. Encontrou-se com o \u00fanico mal irremedi\u00e1vel, aquilo que \u00e9 a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explica\u00e7\u00e3o que iguala tudo o que \u00e9 vivo num s\u00f3 rebanho de condenados, porque tudo que \u00e9 vivo, morre\u201d.<br \/>\nA pr\u00f3pria B\u00edblia d\u00e1 muita aten\u00e7\u00e3o ao tema inveja. Dois exemplos. G\u00e1latas 5:26: \u201cN\u00e3o sejamos cobi\u00e7osos de vangl\u00f3rias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros\u201d. Por sua vez, em Tiago 3:15 est\u00e1 dito: \u201cMas se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vos glorieis, nem mintais contra a verdade. Essa n\u00e3o \u00e9 a sabedoria que vem do alto, mas \u00e9 terrena, animal e diab\u00f3lica\u201d.<br \/>\nNessa hist\u00f3ria ou est\u00f3ria de inveja \u00e9 preciso saber a quantas anda a autoestima das pessoas. Essa que oscila como os mares e as fases da lua e n\u00e3o nos assegura que o olho do outro fique de acordo com o que a nossa vaidade quer que ele enxergue, perceba, veja e, enfim, inveje. Mas, se algu\u00e9m precisa da inveja do outro para se afirmar como um ser maior, estar\u00e1, a cada passo, diminuindo a sua estatura como ref\u00e9m do olhar de outrem, muitas vezes perdido em suas pr\u00f3prias ang\u00fastias e incapaz de, sequer, notar o outro. Algu\u00e9m que n\u00e3o seja ele.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 01\/08\/2014<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2875","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2875","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2875"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2875\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2875"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2875"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2875"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}