{"id":2879,"date":"2023-12-21T09:10:31","date_gmt":"2023-12-21T12:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/juca-fontenelle-vicosalianas-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:31","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:31","slug":"juca-fontenelle-vicosalianas-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/juca-fontenelle-vicosalianas-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"JUCA FONTENELLE, VI\u00c7OSALIANAS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA felicidade do escritor \u00e9 o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, \u00e9 o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento\u201d.<br \/>\nThomas Mann, escrito<br \/>\nalem\u00e3o, 1875-1955.<br \/>\nTenho uma pilha de livros, mais ou menos ordenada, para leitura e posteriores coment\u00e1rios. Entre esses figurava a pend\u00eancia, n\u00e3o da leitura j\u00e1 feita, mas de um simples esc\u00f3lio, sobre a atividade liter\u00e1ria de Juca Fontenelle, cidad\u00e3o, chefe de fam\u00edlia e professor na cidade de Vi\u00e7osa, terra de Cl\u00f3vis Bevil\u00e1qua, na benfazeja Serra Grande. Sobre \u201cVi\u00e7osalianas\u201d muito j\u00e1 foi dito, mas destaco o que o advogado Jos\u00e9 Feliciano de Carvalho, admirador e primo do criador, escreveu na Apresenta\u00e7\u00e3o do livro: \u201c &#8230;considerando o profundo apre\u00e7o que sempre tive \u00e0 moral e ao intelecto do encomiado autor, que foi inesquec\u00edvel professor e, por isso, respons\u00e1vel pela minha forma\u00e7\u00e3o cultural, nos primeiros tempos de minha vida. Neste comenos, atentei para a acuidade do autor, tanto hist\u00f3rica como estil\u00edstica, nas cr\u00f4nicas e nos discursos que compunham a obra, ressaltando a pureza da linguagem e o dom\u00ednio do idioma\u201d.<br \/>\nFeliciano de Carvalho, por sua personalidade e bagagem cultural, tem estofo para fazer ju\u00edzo de valor sobre a obra de Juca Fontenelle. Mas, nas orelhas da publica\u00e7\u00e3o editada pela Express\u00e3o Gr\u00e1fica, 2010, h\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es outras que endossam as palavras do apresentador. Na cr\u00f4nica \u201cQuatro de Mar\u00e7o\u201d, Juca Fontenelle mostra, de sobejo, conhecimento da sua cidade, da hist\u00f3ria do Cear\u00e1 e narra com maestria o acontecido, para os tempos de hoje, no long\u00ednquo 1935: \u201cFoi algo t\u00e3o inusitado na hist\u00f3ria de Vi\u00e7osa, que passou a ser denominado simplesmente de \u2018quatro de mar\u00e7o\u201d. E, quando se referia a isso, havia duas hip\u00f3teses, realizando-se fatalmente uma das duas, sen\u00e3o ambas: Uns fechavam o cenho, num ato de mal disfar\u00e7ado desagrado, enquanto outros apenas dissimulavam um sorriso sarc\u00e1stico. Antes que a poeira do tempo encubra tudo, vamos registrar neste livreto, um resumo dos acontecimentos desse dia. Na pacatez de Vi\u00e7osa de ent\u00e3o, corria tranquilo o Ano da Gra\u00e7a de 1935. Nem t\u00e3o tranquilo assim, se considerarmos que era um ano eleitoral. Era ent\u00e3o o que se costuma chamar de paz dos p\u00e2ntanos, isto \u00e9, pac\u00edfica \u00e9 apenas a superf\u00edcie, porque abaixo dela qualquer coisa, h\u00e1 um oceano de agita\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nBastaria o trecho acima para se notar a narrativa escorreita da escrita de Juca Fontenelle, mas fa\u00e7o quest\u00e3o de quase completar o fato: \u201cSalvo engano, governava o Estado do Cear\u00e1, o Interventor Federal Felipe Moreira Lima, Oficial do Ex\u00e9rcito nomeado pelo ditador Get\u00falio Vargas em sucess\u00e3o ao dr. Fernandes T\u00e1vora, que renunciara, ante a avalanche de paix\u00f5es demonstrada por correligion\u00e1rios que na Oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o haviam manifestado tamanha voracidade por cargos e posi\u00e7\u00f5es (algo como o que ocorre hoje, n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia alguma&#8230;)\u201d.<br \/>\nPoderia ir mais longe para destrinchar a hist\u00f3ria, que fica inconclusa, mas j\u00e1 deu para o leitor perceber o atilado descortino do escritor e o seu conhecimento da realidade factual de um tempo pouco lembrado pelos historiadores locais. Outro ponto que me alegrou foi a tentativa de dar ao leitor comum a oportunidade de conhecer a etimologia de algumas palavras n\u00e3o t\u00e3o usuais na linguagem coloquial do povo. Al\u00e9m disso, deliciei-me com o \u201cDialeto Vi\u00e7osaliano\u201d em que destrincha o palavreado coloquial da terra com deforma\u00e7\u00f5es de forma, pr\u00f3pria dos poucos iniciados no vern\u00e1culo como alguns que Juca Fontenelle encontrou em sua longa e prof\u00edcua vida. Escrever \u00e9 uma arte e isso fica demonstrado nos escritos que comp\u00f5em essa obra p\u00f3stuma. Tomo de Pedro Nava a frase: \u201cA mem\u00f3ria dos que envelhecem \u00e9 o elemento b\u00e1sico na constru\u00e7\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o familiar\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15\/08\/2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA felicidade do escritor \u00e9 o pensamento que consegue transformar-se completamente em sentimento, \u00e9 o sentimento que consegue transformar-se completamente em pensamento\u201d.<br \/>\nThomas Mann, escrito<br \/>\nalem\u00e3o, 1875-1955.<br \/>\nTenho uma pilha de livros, mais ou menos ordenada, para leitura e posteriores coment\u00e1rios. Entre esses figurava a pend\u00eancia, n\u00e3o da leitura j\u00e1 feita, mas de um simples esc\u00f3lio, sobre a atividade liter\u00e1ria de Juca Fontenelle, cidad\u00e3o, chefe de fam\u00edlia e professor na cidade de Vi\u00e7osa, terra de Cl\u00f3vis Bevil\u00e1qua, na benfazeja Serra Grande. 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Na cr\u00f4nica \u201cQuatro de Mar\u00e7o\u201d, Juca Fontenelle mostra, de sobejo, conhecimento da sua cidade, da hist\u00f3ria do Cear\u00e1 e narra com maestria o acontecido, para os tempos de hoje, no long\u00ednquo 1935: \u201cFoi algo t\u00e3o inusitado na hist\u00f3ria de Vi\u00e7osa, que passou a ser denominado simplesmente de \u2018quatro de mar\u00e7o\u201d. E, quando se referia a isso, havia duas hip\u00f3teses, realizando-se fatalmente uma das duas, sen\u00e3o ambas: Uns fechavam o cenho, num ato de mal disfar\u00e7ado desagrado, enquanto outros apenas dissimulavam um sorriso sarc\u00e1stico. Antes que a poeira do tempo encubra tudo, vamos registrar neste livreto, um resumo dos acontecimentos desse dia. Na pacatez de Vi\u00e7osa de ent\u00e3o, corria tranquilo o Ano da Gra\u00e7a de 1935. Nem t\u00e3o tranquilo assim, se considerarmos que era um ano eleitoral. 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