{"id":2886,"date":"2023-12-21T09:10:31","date_gmt":"2023-12-21T12:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/11-de-setembro-13-anos-depois-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:31","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:31","slug":"11-de-setembro-13-anos-depois-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/11-de-setembro-13-anos-depois-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"11 DE SETEMBRO, 13 ANOS DEPOIS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Ontem, 11 de setembro. H\u00e1 13 anos aconteceram os ataques aos EEUU. \u00c0 \u00e9poca, escrevi o livro \u201cSobre a G\u00eanese e o Caos\u201d. Na parte do Caos, criei 11 contos breves. Agora, neste 2014, h\u00e1 novas amea\u00e7as de toda natureza no cadinho da \u00e1rea que abriga pa\u00edses como Iraque, Ir\u00e3, Afeganist\u00e3o, S\u00edria e outros. Isto sem falar na quest\u00e3o Russa e Ucr\u00e2nia. Tudo conspira contra a paz. A Uni\u00e3o Europeia e os EEUU se re\u00fanem. Da\u00ed, resolvi mostrar, de forma aleat\u00f3ria, dois(retirar um dos 3) dos contos escritos. Vejam:<br \/>\nA FESTA DO SACRIF\u00cdCIO -T\u00e1rik nasceu em Jalalabad no Afeganist\u00e3o, quase fronteira com o Paquist\u00e3o. Criou-se dentro da f\u00e9 isl\u00e2mica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a m\u00e3e resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de ves\u00edcula e foi removido para Cabul, capital do seu pa\u00eds. Cicatrizado, viu-se em meio a multid\u00f5es que andavam em grupos pelas ruas destro\u00e7adas. Tomara consci\u00eancia de que eram vencedores da guerra contra os sovi\u00e9ticos, mas s\u00f3 via mis\u00e9ria. Era o m\u00eas do Ramad\u00e3, a \u00e9poca sagrada em que se comemorava a primeira revela\u00e7\u00e3o de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Naquele dia, seria a terceira vez que orava e pedira ilumina\u00e7\u00e3o. O que fazer de sua vida vazia? Voltar para Jalalabad? Ficar em Cabul?<br \/>\nOrou com esperan\u00e7a e teve a sensa\u00e7\u00e3o de que uma f\u00e9 mais forte tomava conta de seu corpo esguio de adolescente. Olhou a multid\u00e3o que se formara defronte \u00e0 mesquita e para l\u00e1 se dirigiu. Um homem alto, bem mais alto que os demais, de fei\u00e7\u00f5es graves, arma a tiracolo, falava manso para pessoas extasiadas. Dizia que Allah, o \u00fanico Deus, pedia a todos os mu\u00e7ulmanos que se unissem para acabar com a fome e a injusti\u00e7a de Sat\u00e3. Terminada a ora\u00e7\u00e3o o homem alto foi seguido por dezenas de pessoas que tomaram um caminh\u00e3o. Sem saber como e nem porque correu a tempo de subir na carroceria cheia de pessoas armadas, mas tranq\u00fcilas. O caminh\u00e3o deixou Cabul e dirigiu-se \u00e0s montanhas. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento que era encoberto por grandes pedras e \u00e1rvores ressequidas. Todos desceram e foi a\u00ed que notaram sua presen\u00e7a. Era um estranho e um estranho muito jovem em meio \u00e0queles homens obstinados. Foi detido e levado \u00e0 presen\u00e7a do homem alto. Este ouviu a sua hist\u00f3ria, deu-lhe um Alcor\u00e3o surrado de presente e perguntou se seria, a partir daquele dia, submisso a Deus. T\u00e1rik respondeu que sim, a sua vida teria um sentido. Tudo era novo para ele.<br \/>\nO homem alto deu-lhe muitos livros para ler e cobrava. Fazia perguntas e testava. T\u00e1rik foi descobrindo, fascinado, a gl\u00f3ria da informa\u00e7\u00e3o e do conhecimento. Anos mais tarde, o homem alto lhe disse: \u00e9 preciso que voc\u00ea leve a for\u00e7a de Allah para lugares profanos. V\u00e1, misture-se a eles, mas nunca perca a sua f\u00e9. Irm\u00e3os o acolher\u00e3o. Aprenda a l\u00edngua dos \u00edmpios e tente viver como um deles. De tempos em tempos, n\u00f3s manteremos contato. Agora, T\u00e1rik estava ali naquele aeroporto, de barba raspada, cal\u00e7a, camiseta e uma prosaica mochila aonde levava o velho Alcor\u00e3o e quatro agulhas de tric\u00f4 enfiadas num novelo de linha. Aprendera a manuse\u00e1-las de uma forma diferente. Com um ar descuidado repousou a mochila na m\u00e1quina de raio-x e a recebeu com indiferen\u00e7a no outro lado da esteira. N\u00e3o olhava para os lados, mas n\u00e3o estava s\u00f3. Tinham todos os mesmos pares de t\u00eanis, novos, pretos com cadar\u00e7os vermelhos. Esta era a senha. O avi\u00e3o taxiava e ele sabia que, em breve, participaria da \u201cEid al adha\u201d, a festa do sacrif\u00edcio, e receberia o perd\u00e3o divino. Era preciso que fizesse. O homem alto assim o determinara.<br \/>\nO GRANDE DIA &#8211; Nascera negro, pobre e paral\u00edtico. \u00c9 bem verdade que n\u00e3o era mais paral\u00edtico, mas ainda tinha sequelas de uma poliomielite. Sua m\u00e3e, por mera ignor\u00e2ncia, n\u00e3o o imunizara com a vacina salvadora. Tamb\u00e9m, desculpava-se ele, sua m\u00e3e dedicou o resto da vida a proteg\u00ea-lo, a prepar\u00e1-lo para o mundo que ela n\u00e3o entendia e achava cruel. Fora abandonada pelo marido, um plantador de amendoim dos arredores de Atlanta, na Ge\u00f3rgia, que a trocara por uma loura oxigenada do Texas e se mandara para Sausalito. Perdera seu homem, mas n\u00e3o a vida. Seu trabalho, noite e dia, como atendente de um hospital p\u00fablico, deu-lhe sustento, uma pequena casa na regi\u00e3o sul da cidade, onde os negros viviam e procriavam muito.<br \/>\nGeorge foi cedo para a escola. Teve a assist\u00eancia de um pastor luterano que providenciou a pr\u00f3tese que o faria se locomover sem a tosca muleta que o acompanhara por anos. Aplicado, respons\u00e1vel e temente a Deus, dedicou-se a estudar com afinco, varando madrugadas e fazendo a si mesmo a promessa de retribuir, um dia, a dedica\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Formara-se em economia e, por conta das suas notas A, entrara direto no mestrado de Yale com uma salvadora bolsa de estudos. Continuou a colecionar As e n\u00e3o conteve o choro quando sua m\u00e3e, j\u00e1 alquebrada mas vistosa em seu vestido escarlate, entregara o seu pr\u00eamio de melhor da turma. Amava seu pa\u00eds, acreditava na ascens\u00e3o social e j\u00e1 n\u00e3o do\u00eda tanto a lembran\u00e7a dos av\u00f3s escravos que n\u00e3o conhecera. Ainda n\u00e3o encontrara a mulher de sua vida. Tinha uma boa amiga, descendente de judeus poloneses com quem ouvia m\u00fasicas de Cole Porter e comia tacos. Nada de s\u00e9rio e na sua \u00e9tica luterana se culpava das poucas vezes em que, solit\u00e1rio, chegava ao prazer. Um dia, casaria, teria filhos, moraria bem, mas nunca no sul, pois conseguira polir o sotaque arrastado que herdara de sua m\u00e3e.<br \/>\nAcreditava nas ideias da democracia, votara em George W. Bush e estava pronto para o milagre americano. Chegara a Nova Iorque h\u00e1 uma semana para uma entrevista de trabalho. Um ca\u00e7ador de talentos o convocara por seu curr\u00edculo. Comprara uma roupa nova na Saks e se viu no espelho. \u00d3culos de aros finos, cabelos cortados rente que disfar\u00e7avam a carapinha, camisa branca, gravata listrada e o novo terno azul com riscas de giz que lhe dava um ar distinto.<br \/>\nSubiu receoso ao elevad\u00edssimo andar daquele pr\u00e9dio t\u00e3o famoso. Confiava em Deus, no seu talento e na Am\u00e9rica. Seu entrevistador era s\u00f3 um pouco mais velho que ele e o recebeu com aten\u00e7\u00e3o, mas sem calor. Notou que usava um reluzente brilhante solit\u00e1rio no dedo m\u00ednimo da m\u00e3o esquerda. Um dia compraria um mais bonito ainda. Falaram sobre sua vida acad\u00eamica e n\u00e3o disfar\u00e7ou a alegria quando perguntado sobre George Soros e seu modo de ver o mundo. Saiu contratado. Come\u00e7aria a trabalhar no dia 11 de setembro, data do anivers\u00e1rio de sua m\u00e3e, que sorte.<br \/>\nHoje era o grande dia. Vestiu a mesma roupa e deixou, bem cedo, o apartamento que alugara no Bronx. Misturou-se a tantas outras pessoas no metr\u00f4 que liam jornais ou ouviam m\u00fasicas em seus fones de ouvido. Era um deles, afinal. Chegara aonde se propusera. Telefonaria para a m\u00e3e mais tarde. \u00c0s 8.40 horas identificou-se na portaria com seu crach\u00e1 eletr\u00f4nico e alegrou-se de estar naquele elevador t\u00e3o grande com gente bem vestida, olhares confiantes e pastas \u00e0 m\u00e3o. Descera no andar certo, sentiu a energia do sol radiante, divisou uma barca\u00e7a que singrava pachorrenta o Rio Hudson e, at\u00f4nito, num lampejo, viu o avi\u00e3o.<br \/>\nOS N\u00daMEROS &#8211; Ao ser libertado do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Dachau fez tr\u00eas juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma s\u00f3 palavra de alem\u00e3o. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os n\u00fameros marcados em seu bra\u00e7o, as atrocidades sofridas.<br \/>\nEsqu\u00e1lido, esgueirou-se por entre os soldados aliados e conseguiu esconder-se em um caminh\u00e3o carregado de mantimentos. Viu-se, ap\u00f3s algum tempo, no porto de Hamburgo. Esperou a noite escura se fazer e, apurando a vista, divisou o grande navio americano ancorado. Cauteloso, mas decidido, aguardou o sentinela abra\u00e7ar a loura junto ao poste. Subiu com o resto das for\u00e7as possu\u00eddas e descansou sob o bote emborcado no tombadilho.<br \/>\nAgora, era 2001. Conseguira a cidadania americana. Tinha filhos, netos e uma bisneta mesti\u00e7a que puxara \u00e0 gra\u00e7a de sua mulher, uma bonita negra do Harlem com quem aprendera os segredos da vida e a falar ingl\u00eas. N\u00e3o fizera fortuna, mas seu emprego de mec\u00e2nico dera o sustento a todos e ainda tinha uma boa reserva no banco.<br \/>\nHoje, cansado, n\u00e3o deixava de olhar por tr\u00e1s de suas grossas lentes, os n\u00fameros tatuados em seu bra\u00e7o: 9112001. Sabia-os de cor, sonhara com eles tantas vezes e ainda lembrava o dia em que havia sido marcado, como se fora gado.<br \/>\nDe repente, um pressentimento estranho veio \u00e0 sua mente. Aqueles n\u00fameros pareciam estar formando uma data pr\u00f3xima: 11 de setembro de 2001. O que isto significaria? N\u00e3o poderia ser coisa boa, pois aquelas marcas nunca lhe deram alegria e o obrigaram sempre a usar camisas de mangas longas. No seu quarto de vi\u00favo solit\u00e1rio, pensou \u00e0 exaust\u00e3o. Alguma coisa ruim iria acontecer no dia 11 de setembro de 2001, concluiu. Resolveu tudo s\u00f3: marcou uma reuni\u00e3o de fam\u00edlia para a manh\u00e3 do dia 11 de setembro, todos deveriam comparecer, ainda sabia a for\u00e7a que tinha. Houve resmungos, pois seria uma ter\u00e7a-feira, dia normal de trabalho, mas concordaram com o capricho estranho do velho e querido chefe da fam\u00edlia. O que seria?<br \/>\nChegaram todos. At\u00e9 o neto prod\u00edgio que trabalhava arduamente naquela corretora judia no pr\u00e9dio mais famoso da cidade. Outro neto, bombeiro municipal, chegou fardado trazendo nos bra\u00e7os a bisneta querida. Eram 9.00 horas da manh\u00e3 e a farta mesa estava disposta no jardim do quintal onde tantos churrascos aconteceram. Parecia a festa do Dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, mas n\u00e3o era.<br \/>\nO velho chefe da fam\u00edlia olhou para todos com os olhos cheios de l\u00e1grimas. Estava alegre por t\u00ea-los a seu lado, mas triste, por n\u00e3o saber explicar a raz\u00e3o daquele encontro na velha casa do Harlem. Ria e chorava. Ria e chorava, enquanto lembrava o que intuiu ser uma data fat\u00eddica em seu bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12\/09\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem, 11 de setembro. H\u00e1 13 anos aconteceram os ataques aos EEUU. \u00c0 \u00e9poca, escrevi o livro \u201cSobre a G\u00eanese e o Caos\u201d. Na parte do Caos, criei 11 contos breves. Agora, neste 2014, h\u00e1 novas amea\u00e7as de toda natureza no cadinho da \u00e1rea que abriga pa\u00edses como Iraque, Ir\u00e3, Afeganist\u00e3o, S\u00edria e outros. Isto sem falar na quest\u00e3o Russa e Ucr\u00e2nia. Tudo conspira contra a paz. A Uni\u00e3o Europeia e os EEUU se re\u00fanem. Da\u00ed, resolvi mostrar, de forma aleat\u00f3ria, dois(retirar um dos 3) dos contos escritos. Vejam:<br \/>\nA FESTA DO SACRIF\u00cdCIO -T\u00e1rik nasceu em Jalalabad no Afeganist\u00e3o, quase fronteira com o Paquist\u00e3o. Criou-se dentro da f\u00e9 isl\u00e2mica e isolado do mundo. Seu pai morrera na guerra contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a m\u00e3e resignara-se em ficar cozinhando e orando em casa. Aos 14 anos teve uma crise forte de ves\u00edcula e foi removido para Cabul, capital do seu pa\u00eds. Cicatrizado, viu-se em meio a multid\u00f5es que andavam em grupos pelas ruas destro\u00e7adas. Tomara consci\u00eancia de que eram vencedores da guerra contra os sovi\u00e9ticos, mas s\u00f3 via mis\u00e9ria. Era o m\u00eas do Ramad\u00e3, a \u00e9poca sagrada em que se comemorava a primeira revela\u00e7\u00e3o de Allah ao mensageiro de Deus, Muhammad. Naquele dia, seria a terceira vez que orava e pedira ilumina\u00e7\u00e3o. O que fazer de sua vida vazia? Voltar para Jalalabad? Ficar em Cabul?<br \/>\nOrou com esperan\u00e7a e teve a sensa\u00e7\u00e3o de que uma f\u00e9 mais forte tomava conta de seu corpo esguio de adolescente. Olhou a multid\u00e3o que se formara defronte \u00e0 mesquita e para l\u00e1 se dirigiu. Um homem alto, bem mais alto que os demais, de fei\u00e7\u00f5es graves, arma a tiracolo, falava manso para pessoas extasiadas. Dizia que Allah, o \u00fanico Deus, pedia a todos os mu\u00e7ulmanos que se unissem para acabar com a fome e a injusti\u00e7a de Sat\u00e3. Terminada a ora\u00e7\u00e3o o homem alto foi seguido por dezenas de pessoas que tomaram um caminh\u00e3o. Sem saber como e nem porque correu a tempo de subir na carroceria cheia de pessoas armadas, mas tranq\u00fcilas. O caminh\u00e3o deixou Cabul e dirigiu-se \u00e0s montanhas. Em pouco tempo, chegaram a um acampamento que era encoberto por grandes pedras e \u00e1rvores ressequidas. Todos desceram e foi a\u00ed que notaram sua presen\u00e7a. Era um estranho e um estranho muito jovem em meio \u00e0queles homens obstinados. Foi detido e levado \u00e0 presen\u00e7a do homem alto. Este ouviu a sua hist\u00f3ria, deu-lhe um Alcor\u00e3o surrado de presente e perguntou se seria, a partir daquele dia, submisso a Deus. T\u00e1rik respondeu que sim, a sua vida teria um sentido. Tudo era novo para ele.<br \/>\nO homem alto deu-lhe muitos livros para ler e cobrava. Fazia perguntas e testava. T\u00e1rik foi descobrindo, fascinado, a gl\u00f3ria da informa\u00e7\u00e3o e do conhecimento. Anos mais tarde, o homem alto lhe disse: \u00e9 preciso que voc\u00ea leve a for\u00e7a de Allah para lugares profanos. V\u00e1, misture-se a eles, mas nunca perca a sua f\u00e9. Irm\u00e3os o acolher\u00e3o. Aprenda a l\u00edngua dos \u00edmpios e tente viver como um deles. De tempos em tempos, n\u00f3s manteremos contato. Agora, T\u00e1rik estava ali naquele aeroporto, de barba raspada, cal\u00e7a, camiseta e uma prosaica mochila aonde levava o velho Alcor\u00e3o e quatro agulhas de tric\u00f4 enfiadas num novelo de linha. Aprendera a manuse\u00e1-las de uma forma diferente. Com um ar descuidado repousou a mochila na m\u00e1quina de raio-x e a recebeu com indiferen\u00e7a no outro lado da esteira. N\u00e3o olhava para os lados, mas n\u00e3o estava s\u00f3. Tinham todos os mesmos pares de t\u00eanis, novos, pretos com cadar\u00e7os vermelhos. Esta era a senha. O avi\u00e3o taxiava e ele sabia que, em breve, participaria da \u201cEid al adha\u201d, a festa do sacrif\u00edcio, e receberia o perd\u00e3o divino. Era preciso que fizesse. O homem alto assim o determinara.<br \/>\nO GRANDE DIA &#8211; Nascera negro, pobre e paral\u00edtico. \u00c9 bem verdade que n\u00e3o era mais paral\u00edtico, mas ainda tinha sequelas de uma poliomielite. Sua m\u00e3e, por mera ignor\u00e2ncia, n\u00e3o o imunizara com a vacina salvadora. Tamb\u00e9m, desculpava-se ele, sua m\u00e3e dedicou o resto da vida a proteg\u00ea-lo, a prepar\u00e1-lo para o mundo que ela n\u00e3o entendia e achava cruel. Fora abandonada pelo marido, um plantador de amendoim dos arredores de Atlanta, na Ge\u00f3rgia, que a trocara por uma loura oxigenada do Texas e se mandara para Sausalito. Perdera seu homem, mas n\u00e3o a vida. Seu trabalho, noite e dia, como atendente de um hospital p\u00fablico, deu-lhe sustento, uma pequena casa na regi\u00e3o sul da cidade, onde os negros viviam e procriavam muito.<br \/>\nGeorge foi cedo para a escola. Teve a assist\u00eancia de um pastor luterano que providenciou a pr\u00f3tese que o faria se locomover sem a tosca muleta que o acompanhara por anos. Aplicado, respons\u00e1vel e temente a Deus, dedicou-se a estudar com afinco, varando madrugadas e fazendo a si mesmo a promessa de retribuir, um dia, a dedica\u00e7\u00e3o da m\u00e3e. Formara-se em economia e, por conta das suas notas A, entrara direto no mestrado de Yale com uma salvadora bolsa de estudos. Continuou a colecionar As e n\u00e3o conteve o choro quando sua m\u00e3e, j\u00e1 alquebrada mas vistosa em seu vestido escarlate, entregara o seu pr\u00eamio de melhor da turma. Amava seu pa\u00eds, acreditava na ascens\u00e3o social e j\u00e1 n\u00e3o do\u00eda tanto a lembran\u00e7a dos av\u00f3s escravos que n\u00e3o conhecera. Ainda n\u00e3o encontrara a mulher de sua vida. Tinha uma boa amiga, descendente de judeus poloneses com quem ouvia m\u00fasicas de Cole Porter e comia tacos. Nada de s\u00e9rio e na sua \u00e9tica luterana se culpava das poucas vezes em que, solit\u00e1rio, chegava ao prazer. Um dia, casaria, teria filhos, moraria bem, mas nunca no sul, pois conseguira polir o sotaque arrastado que herdara de sua m\u00e3e.<br \/>\nAcreditava nas ideias da democracia, votara em George W. Bush e estava pronto para o milagre americano. Chegara a Nova Iorque h\u00e1 uma semana para uma entrevista de trabalho. Um ca\u00e7ador de talentos o convocara por seu curr\u00edculo. Comprara uma roupa nova na Saks e se viu no espelho. \u00d3culos de aros finos, cabelos cortados rente que disfar\u00e7avam a carapinha, camisa branca, gravata listrada e o novo terno azul com riscas de giz que lhe dava um ar distinto.<br \/>\nSubiu receoso ao elevad\u00edssimo andar daquele pr\u00e9dio t\u00e3o famoso. Confiava em Deus, no seu talento e na Am\u00e9rica. Seu entrevistador era s\u00f3 um pouco mais velho que ele e o recebeu com aten\u00e7\u00e3o, mas sem calor. Notou que usava um reluzente brilhante solit\u00e1rio no dedo m\u00ednimo da m\u00e3o esquerda. Um dia compraria um mais bonito ainda. Falaram sobre sua vida acad\u00eamica e n\u00e3o disfar\u00e7ou a alegria quando perguntado sobre George Soros e seu modo de ver o mundo. Saiu contratado. Come\u00e7aria a trabalhar no dia 11 de setembro, data do anivers\u00e1rio de sua m\u00e3e, que sorte.<br \/>\nHoje era o grande dia. Vestiu a mesma roupa e deixou, bem cedo, o apartamento que alugara no Bronx. Misturou-se a tantas outras pessoas no metr\u00f4 que liam jornais ou ouviam m\u00fasicas em seus fones de ouvido. Era um deles, afinal. Chegara aonde se propusera. Telefonaria para a m\u00e3e mais tarde. \u00c0s 8.40 horas identificou-se na portaria com seu crach\u00e1 eletr\u00f4nico e alegrou-se de estar naquele elevador t\u00e3o grande com gente bem vestida, olhares confiantes e pastas \u00e0 m\u00e3o. Descera no andar certo, sentiu a energia do sol radiante, divisou uma barca\u00e7a que singrava pachorrenta o Rio Hudson e, at\u00f4nito, num lampejo, viu o avi\u00e3o.<br \/>\nOS N\u00daMEROS &#8211; Ao ser libertado do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Dachau fez tr\u00eas juras a si mesmo. A primeira: nunca mais falaria uma s\u00f3 palavra de alem\u00e3o. A segunda: sairia o mais rapidamente da Alemanha. A terceira: nunca esqueceria, ao ler os n\u00fameros marcados em seu bra\u00e7o, as atrocidades sofridas.<br \/>\nEsqu\u00e1lido, esgueirou-se por entre os soldados aliados e conseguiu esconder-se em um caminh\u00e3o carregado de mantimentos. Viu-se, ap\u00f3s algum tempo, no porto de Hamburgo. Esperou a noite escura se fazer e, apurando a vista, divisou o grande navio americano ancorado. Cauteloso, mas decidido, aguardou o sentinela abra\u00e7ar a loura junto ao poste. Subiu com o resto das for\u00e7as possu\u00eddas e descansou sob o bote emborcado no tombadilho.<br \/>\nAgora, era 2001. Conseguira a cidadania americana. Tinha filhos, netos e uma bisneta mesti\u00e7a que puxara \u00e0 gra\u00e7a de sua mulher, uma bonita negra do Harlem com quem aprendera os segredos da vida e a falar ingl\u00eas. N\u00e3o fizera fortuna, mas seu emprego de mec\u00e2nico dera o sustento a todos e ainda tinha uma boa reserva no banco.<br \/>\nHoje, cansado, n\u00e3o deixava de olhar por tr\u00e1s de suas grossas lentes, os n\u00fameros tatuados em seu bra\u00e7o: 9112001. Sabia-os de cor, sonhara com eles tantas vezes e ainda lembrava o dia em que havia sido marcado, como se fora gado.<br \/>\nDe repente, um pressentimento estranho veio \u00e0 sua mente. Aqueles n\u00fameros pareciam estar formando uma data pr\u00f3xima: 11 de setembro de 2001. O que isto significaria? N\u00e3o poderia ser coisa boa, pois aquelas marcas nunca lhe deram alegria e o obrigaram sempre a usar camisas de mangas longas. No seu quarto de vi\u00favo solit\u00e1rio, pensou \u00e0 exaust\u00e3o. Alguma coisa ruim iria acontecer no dia 11 de setembro de 2001, concluiu. Resolveu tudo s\u00f3: marcou uma reuni\u00e3o de fam\u00edlia para a manh\u00e3 do dia 11 de setembro, todos deveriam comparecer, ainda sabia a for\u00e7a que tinha. Houve resmungos, pois seria uma ter\u00e7a-feira, dia normal de trabalho, mas concordaram com o capricho estranho do velho e querido chefe da fam\u00edlia. O que seria?<br \/>\nChegaram todos. At\u00e9 o neto prod\u00edgio que trabalhava arduamente naquela corretora judia no pr\u00e9dio mais famoso da cidade. Outro neto, bombeiro municipal, chegou fardado trazendo nos bra\u00e7os a bisneta querida. Eram 9.00 horas da manh\u00e3 e a farta mesa estava disposta no jardim do quintal onde tantos churrascos aconteceram. Parecia a festa do Dia de A\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as, mas n\u00e3o era.<br \/>\nO velho chefe da fam\u00edlia olhou para todos com os olhos cheios de l\u00e1grimas. Estava alegre por t\u00ea-los a seu lado, mas triste, por n\u00e3o saber explicar a raz\u00e3o daquele encontro na velha casa do Harlem. Ria e chorava. Ria e chorava, enquanto lembrava o que intuiu ser uma data fat\u00eddica em seu bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12\/09\/2014<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2886","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2886","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2886"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2886\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2886"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2886"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2886"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}