{"id":2888,"date":"2023-12-21T09:10:31","date_gmt":"2023-12-21T12:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/proust-a-busca-do-tempo-e-a-era-do-instante-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:31","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:31","slug":"proust-a-busca-do-tempo-e-a-era-do-instante-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/proust-a-busca-do-tempo-e-a-era-do-instante-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"PROUST: A BUSCA DO TEMPO E A ERA DO INSTANTE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cQuem n\u00e3o conhece a verdade n\u00e3o passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira \u00e9 um criminoso!\u201d \u2013 Bertold Brecht (1898-1956), escritor alem\u00e3o.<br \/>\nO escritor franc\u00eas Marcel Proust (1871-1922) foi sempre mais comentado que lido. Consideravam-no, \u00e0 sua \u00e9poca, diletante e presun\u00e7oso. Antes da chegada do s\u00e9culo XXI, exato no ano 2000, citada pelo jornalista brasileiro Francisco Quinteiro Pires, surge a resenha \u201cMarcel Proust: A Life\u201d, escrita por William C. Carter, professor da Universidade Yale, EEUU. Nessa hist\u00f3ria consta que o jornal franc\u00eas \u201cLe Temps\u201d, em novembro de 1913, entrevistou Proust sobre a sua obra \u2018\u2019No Caminho de Swan\u201d. Em resposta, Proust teria dito: \u201cMinha obra est\u00e1 dominada pela distin\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria volunt\u00e1ria e a mem\u00f3ria involunt\u00e1ria\u201d. Segundo ele, a volunt\u00e1ria \u201c\u00e9 uma mem\u00f3ria da intelig\u00eancia e dos olhos\u201d. Por outro lado, a involunt\u00e1ria pretende ser o objetivo da preocupa\u00e7\u00e3o, pois foge \u00e0 raz\u00e3o e possui \u201ca marca da autenticidade\u201d.<br \/>\nCarter, o resenhador, acrescenta que Proust cresceu em mundo sem energia el\u00e9trica, telefone ou autom\u00f3vel, mas \u201cat\u00e9 1910 ele testemunhou a inven\u00e7\u00e3o da energia el\u00e9trica, do telefone, do autom\u00f3vel, do cinema, do avi\u00e3o e do metr\u00f4 de Paris\u201d. Um choque. A esse conjunto de inven\u00e7\u00f5es, Proust chamou de \u201cera da velocidade\u201d.<br \/>\nAgora, 2014, estamos vivendo uma era em que as m\u00faltiplas faces da Internet, por suas ditas m\u00eddias sociais, falam a verdade e\/ou propagam mentiras, ila\u00e7\u00f5es, opini\u00f5es desencontradas, dados, filmetes e imagens que s\u00e3o repetidos \u201cad nauseam\u201d. \u00c9 dif\u00edcil para muitos fazer a distin\u00e7\u00e3o entre a realidade, o mito e as inser\u00e7\u00f5es com objetivo de fantasiar, louvar ou denegrir. Vencem, nesse p\u00e1reo, os que forem mais enf\u00e1ticos, tiverem mais seguidores ou propagadores do que seja verdade, mentira, cria\u00e7\u00e3o ou mera especula\u00e7\u00e3o. O que escrevi acima se lastreia \u2013 em parte &#8211; em observa\u00e7\u00f5es do jornalista Quinteiro Pires, hoje, residente nos EEUU, para o \u201cEu&#038;Cultura\u201d.<br \/>\nPara ele: \u201cPensadores contempor\u00e2neos come\u00e7aram a questionar, entre os efeitos de uma personalidade constru\u00edda em sites como Facebook, Twitter e Instagram, estaria uma suposta amea\u00e7a \u00e0 espontaneidade das rela\u00e7\u00f5es humanas\u201d. Dessa forma, as pessoas passariam a agir como \u201cpersonas\u201d, livres para criarem uma identidade que as projetam para os outros como dessemelhantes de suas pr\u00f3prias naturezas e viveriam em um mundo paralelo ao mundo real que rejeitam, pretendem esquecer, desprezam ou que as angustiam.<br \/>\nNestes tempos que nos aproximam das elei\u00e7\u00f5es de 05 de outubro, \u00e9 bom ficar atento ao que o controverso Marcel Proust classificou como os dois tipos de mem\u00f3rias que usamos para formar um ju\u00edzo de valor: a volunt\u00e1ria (a da Intelig\u00eancia) e a involunt\u00e1ria, a que foge da raz\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o vivemos mais na \u201cera da velocidade\u201d, mas, ao meu pensar, na \u201cera do instante\u201d, aquela a se sobrepor, segundo a segundo, nas diversas m\u00eddias sociais e plataformas, aos fatos anteriores e a (des) focar o que pode ser passado como plaus\u00edvel e aceito pelos que n\u00e3o fazem da intelig\u00eancia e da raz\u00e3o os seus guias. Refletir d\u00e1 trabalho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/09\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuem n\u00e3o conhece a verdade n\u00e3o passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira \u00e9 um criminoso!\u201d \u2013 Bertold Brecht (1898-1956), escritor alem\u00e3o.<br \/>\nO escritor franc\u00eas Marcel Proust (1871-1922) foi sempre mais comentado que lido. Consideravam-no, \u00e0 sua \u00e9poca, diletante e presun\u00e7oso. Antes da chegada do s\u00e9culo XXI, exato no ano 2000, citada pelo jornalista brasileiro Francisco Quinteiro Pires, surge a resenha \u201cMarcel Proust: A Life\u201d, escrita por William C. Carter, professor da Universidade Yale, EEUU. Nessa hist\u00f3ria consta que o jornal franc\u00eas \u201cLe Temps\u201d, em novembro de 1913, entrevistou Proust sobre a sua obra \u2018\u2019No Caminho de Swan\u201d. Em resposta, Proust teria dito: \u201cMinha obra est\u00e1 dominada pela distin\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria volunt\u00e1ria e a mem\u00f3ria involunt\u00e1ria\u201d. Segundo ele, a volunt\u00e1ria \u201c\u00e9 uma mem\u00f3ria da intelig\u00eancia e dos olhos\u201d. Por outro lado, a involunt\u00e1ria pretende ser o objetivo da preocupa\u00e7\u00e3o, pois foge \u00e0 raz\u00e3o e possui \u201ca marca da autenticidade\u201d.<br \/>\nCarter, o resenhador, acrescenta que Proust cresceu em mundo sem energia el\u00e9trica, telefone ou autom\u00f3vel, mas \u201cat\u00e9 1910 ele testemunhou a inven\u00e7\u00e3o da energia el\u00e9trica, do telefone, do autom\u00f3vel, do cinema, do avi\u00e3o e do metr\u00f4 de Paris\u201d. Um choque. A esse conjunto de inven\u00e7\u00f5es, Proust chamou de \u201cera da velocidade\u201d.<br \/>\nAgora, 2014, estamos vivendo uma era em que as m\u00faltiplas faces da Internet, por suas ditas m\u00eddias sociais, falam a verdade e\/ou propagam mentiras, ila\u00e7\u00f5es, opini\u00f5es desencontradas, dados, filmetes e imagens que s\u00e3o repetidos \u201cad nauseam\u201d. \u00c9 dif\u00edcil para muitos fazer a distin\u00e7\u00e3o entre a realidade, o mito e as inser\u00e7\u00f5es com objetivo de fantasiar, louvar ou denegrir. Vencem, nesse p\u00e1reo, os que forem mais enf\u00e1ticos, tiverem mais seguidores ou propagadores do que seja verdade, mentira, cria\u00e7\u00e3o ou mera especula\u00e7\u00e3o. O que escrevi acima se lastreia \u2013 em parte &#8211; em observa\u00e7\u00f5es do jornalista Quinteiro Pires, hoje, residente nos EEUU, para o \u201cEu&#038;Cultura\u201d.<br \/>\nPara ele: \u201cPensadores contempor\u00e2neos come\u00e7aram a questionar, entre os efeitos de uma personalidade constru\u00edda em sites como Facebook, Twitter e Instagram, estaria uma suposta amea\u00e7a \u00e0 espontaneidade das rela\u00e7\u00f5es humanas\u201d. Dessa forma, as pessoas passariam a agir como \u201cpersonas\u201d, livres para criarem uma identidade que as projetam para os outros como dessemelhantes de suas pr\u00f3prias naturezas e viveriam em um mundo paralelo ao mundo real que rejeitam, pretendem esquecer, desprezam ou que as angustiam.<br \/>\nNestes tempos que nos aproximam das elei\u00e7\u00f5es de 05 de outubro, \u00e9 bom ficar atento ao que o controverso Marcel Proust classificou como os dois tipos de mem\u00f3rias que usamos para formar um ju\u00edzo de valor: a volunt\u00e1ria (a da Intelig\u00eancia) e a involunt\u00e1ria, a que foge da raz\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o vivemos mais na \u201cera da velocidade\u201d, mas, ao meu pensar, na \u201cera do instante\u201d, aquela a se sobrepor, segundo a segundo, nas diversas m\u00eddias sociais e plataformas, aos fatos anteriores e a (des) focar o que pode ser passado como plaus\u00edvel e aceito pelos que n\u00e3o fazem da intelig\u00eancia e da raz\u00e3o os seus guias. Refletir d\u00e1 trabalho.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/09\/2014<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2888","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2888","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2888"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2888\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}