{"id":2898,"date":"2023-12-21T09:10:33","date_gmt":"2023-12-21T12:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-estetica-revolucionaria-do-grafitismo-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:33","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:33","slug":"a-estetica-revolucionaria-do-grafitismo-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-estetica-revolucionaria-do-grafitismo-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A EST\u00c9TICA REVOLUCION\u00c1RIA DO GRAFITISMO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Seriam, como admitem alguns, certas inscri\u00e7\u00f5es rupestres, embri\u00e3o ou esp\u00e9cie de grafite? Pelo sim, pelo n\u00e3o, h\u00e1 uma corrente que associa o atual \u201cgrafitismo\u201d a uma evolu\u00e7\u00e3o de certas pinturas rupestres \u00e0s garatujas e aos desenhos nos espa\u00e7os da cidade de Nova Iorque do in\u00edcio dos anos 1970, quando a guerra do Vietn\u00e3 trazia m\u00e1s not\u00edcias para familiares dos soldados americanos mortos. A maioria, descendente de latinos e negros. Detalhe: os caix\u00f5es mortu\u00e1rios vinham lacrados, cobertos pela bandeira americana- posteriormente entregue \u00e0s fam\u00edlias-, saudados por tropas e salvas de fuzis no cemit\u00e9rio nacional de Arlington, que n\u00e3o fica em Washington D.C., mas no Estado da Virg\u00ednia.<br \/>\nO crescimento incomum dessa grei de pintores-pichadores(?) chocou. Eles o fizeram em todos os tipos de espa\u00e7os urbanos encontrados(metr\u00f4s, pr\u00e9dios abandonados, paredes, outdoors) p\u00fablico ou privado, para assustar ou afirmar, atrav\u00e9s dessa linguagem pintada, que precisavam ser vistos como iguais, aceitos em uma sociedade apartada que deveria se voltar para a igualdade de direitos e oportunidades para as minorias a que eles pertencem.<br \/>\nAo mesmo tempo, engajaram-se com o hip-hop, essa forma musical diversa do que os ouvidos tidos como cultos estavam acostumados a escutar. Era a nova \u201carte\u201d em meio ao caos. Kitsch? Talvez. Andr\u00e9 Malraux, escritor e pol\u00edtico franc\u00eas (1901-1976), ao responder \u00e0 quest\u00e3o \u201cO que \u00e9 arte?\u201d, disse: \u201cAquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo\u201d. Neste sentido, o grafitismo, por j\u00e1 ter estilo definido, quer se aceite ou n\u00e3o, \u00e9 arte.<br \/>\nNo Brasil n\u00e3o seria diferente, e se fez notar a partir do fim dos anos 1970, consolidando-se de l\u00e1 para c\u00e1, a ponto de alguns cr\u00edticos enxergarem um estado da arte ou de est\u00e9tica nos grandes murais que foram sendo grafitados por todo o Pa\u00eds. Essa express\u00e3o visual tem c\u00f3digos e linguagem pr\u00f3prios. Um \u201cbite\u201d, por exemplo, \u00e9 imitar o estilo de outro grafiteiro. Uma \u201ccrew\u201d \u00e9 uma tribo ou conjunto de pessoas a se expressar por essas formas coloridas e sinuosas que procuram so-le-trar a indigna\u00e7\u00e3o \u2013 ou a arte &#8211; em uma est\u00e9tica questionada, por\u00e9m sedimentada. Abriguem ou n\u00e3o.<br \/>\nA assinatura deles \u00e9 um \u201ctag\u201d, um sinal ou marca. N\u00e3o os comportados nomes dos pintores cl\u00e1ssicos, tradicionais ou vanguardistas, firmados ao p\u00e9 das telas. O grafiteiro iniciante \u00e9 um \u201ctoy\u201d (brinquedo). O espa\u00e7o, o lugar onde se inscreve o grafite \u00e9 um \u201cspot\u201d. Vejo no grafitismo a influ\u00eancia dos afrodescendentes dos distritos nova-iorquinos do Bronx e do Harlem. Depois, espargido e enriquecido por todo o planeta.<br \/>\nAqui, nesta Fortaleza, de tantas artes e inc\u00f4modos nas camadas mais simples da popula\u00e7\u00e3o, foi sendo cultivada o \u201cgraffitti\u201d, como arte rip\u00e1ria. Agora, a Galeria BenficArte nos seus 15 anos, abre o seu novo espa\u00e7o para 14 grafiteiros: Ana Rachel Lopes (Kel), Bruno Ribeiro (Spoteink), Cassius do Vale (K-Sim), Eduardo Santos (Edu), Gabriel Rodrigues (Qroz.VDM), Israel F\u00e9lix, \u00cdtalo Soares, Leandro da Silva (Filtro de Papel), Louren\u00e7o Pinto (Rayki), Moacir J\u00fanior (Jr. Animal), Narc\u00e9lio Dantas (Narc\u00e9lioGrud), Pedro Henrique Lemos (Pedrim Moicano), Pedro Lopes (NOIA) e Ruy Bezerra, que aceitaram participar de um desafio, sob a forma de concurso, com consequentes premia\u00e7\u00f5es.0 15\u00ba. part\u00edcipe \u00e9 cada visitante.<br \/>\nA \u201cExposi\u00e7\u00e3o Grafitart\u201d mostra e finca as tintas acr\u00edlicas\/sprays em telas que n\u00e3o se enquadram na conven\u00e7\u00e3o da arte tradicional e, mesmo sendo rebeldes \u2013 com causa &#8211; se submeter\u00e3o ao julgamento de uma comiss\u00e3o, constitu\u00edda por artistas pl\u00e1sticos, colecionadores, galeristas, professores de arte, comunicadores.<br \/>\nNo vanguardismo que caracteriza a Galeria BenficArte (Carapinima, 2200 &#8211; 2\u00ba piso) nestes seus 15 anos de vida, essa exposi\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 a certeza de que n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para o preconceito. Aceite-se, ent\u00e3o, a criatividade diferente das ideias e formas consagradas. O assentimento maior vai depender do olhar, da intui\u00e7\u00e3o, do saber e da imagem fixada na retina de cada visitante, o 15\u00ba. participante dessa mostra que ficar\u00e1 exposta, de forma gratuita, at\u00e9 o dia 16 de novembro de 2014. Cada pessoa poder\u00e1 dar o seu veredito, o voto popular, que, somado ao da comiss\u00e3o julgadora, dir\u00e1 quem ser\u00e3o os premiados vencedores. Esperemos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/10\/2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Seriam, como admitem alguns, certas inscri\u00e7\u00f5es rupestres, embri\u00e3o ou esp\u00e9cie de grafite? Pelo sim, pelo n\u00e3o, h\u00e1 uma corrente que associa o atual \u201cgrafitismo\u201d a uma evolu\u00e7\u00e3o de certas pinturas rupestres \u00e0s garatujas e aos desenhos nos espa\u00e7os da cidade de Nova Iorque do in\u00edcio dos anos 1970, quando a guerra do Vietn\u00e3 trazia m\u00e1s not\u00edcias para familiares dos soldados americanos mortos. A maioria, descendente de latinos e negros. Detalhe: os caix\u00f5es mortu\u00e1rios vinham lacrados, cobertos pela bandeira americana- posteriormente entregue \u00e0s fam\u00edlias-, saudados por tropas e salvas de fuzis no cemit\u00e9rio nacional de Arlington, que n\u00e3o fica em Washington D.C., mas no Estado da Virg\u00ednia.<br \/>\nO crescimento incomum dessa grei de pintores-pichadores(?) chocou. Eles o fizeram em todos os tipos de espa\u00e7os urbanos encontrados(metr\u00f4s, pr\u00e9dios abandonados, paredes, outdoors) p\u00fablico ou privado, para assustar ou afirmar, atrav\u00e9s dessa linguagem pintada, que precisavam ser vistos como iguais, aceitos em uma sociedade apartada que deveria se voltar para a igualdade de direitos e oportunidades para as minorias a que eles pertencem.<br \/>\nAo mesmo tempo, engajaram-se com o hip-hop, essa forma musical diversa do que os ouvidos tidos como cultos estavam acostumados a escutar. Era a nova \u201carte\u201d em meio ao caos. Kitsch? Talvez. Andr\u00e9 Malraux, escritor e pol\u00edtico franc\u00eas (1901-1976), ao responder \u00e0 quest\u00e3o \u201cO que \u00e9 arte?\u201d, disse: \u201cAquilo por meio do qual as formas tornam-se estilo\u201d. Neste sentido, o grafitismo, por j\u00e1 ter estilo definido, quer se aceite ou n\u00e3o, \u00e9 arte.<br \/>\nNo Brasil n\u00e3o seria diferente, e se fez notar a partir do fim dos anos 1970, consolidando-se de l\u00e1 para c\u00e1, a ponto de alguns cr\u00edticos enxergarem um estado da arte ou de est\u00e9tica nos grandes murais que foram sendo grafitados por todo o Pa\u00eds. Essa express\u00e3o visual tem c\u00f3digos e linguagem pr\u00f3prios. Um \u201cbite\u201d, por exemplo, \u00e9 imitar o estilo de outro grafiteiro. Uma \u201ccrew\u201d \u00e9 uma tribo ou conjunto de pessoas a se expressar por essas formas coloridas e sinuosas que procuram so-le-trar a indigna\u00e7\u00e3o \u2013 ou a arte &#8211; em uma est\u00e9tica questionada, por\u00e9m sedimentada. Abriguem ou n\u00e3o.<br \/>\nA assinatura deles \u00e9 um \u201ctag\u201d, um sinal ou marca. N\u00e3o os comportados nomes dos pintores cl\u00e1ssicos, tradicionais ou vanguardistas, firmados ao p\u00e9 das telas. O grafiteiro iniciante \u00e9 um \u201ctoy\u201d (brinquedo). O espa\u00e7o, o lugar onde se inscreve o grafite \u00e9 um \u201cspot\u201d. Vejo no grafitismo a influ\u00eancia dos afrodescendentes dos distritos nova-iorquinos do Bronx e do Harlem. Depois, espargido e enriquecido por todo o planeta.<br \/>\nAqui, nesta Fortaleza, de tantas artes e inc\u00f4modos nas camadas mais simples da popula\u00e7\u00e3o, foi sendo cultivada o \u201cgraffitti\u201d, como arte rip\u00e1ria. Agora, a Galeria BenficArte nos seus 15 anos, abre o seu novo espa\u00e7o para 14 grafiteiros: Ana Rachel Lopes (Kel), Bruno Ribeiro (Spoteink), Cassius do Vale (K-Sim), Eduardo Santos (Edu), Gabriel Rodrigues (Qroz.VDM), Israel F\u00e9lix, \u00cdtalo Soares, Leandro da Silva (Filtro de Papel), Louren\u00e7o Pinto (Rayki), Moacir J\u00fanior (Jr. Animal), Narc\u00e9lio Dantas (Narc\u00e9lioGrud), Pedro Henrique Lemos (Pedrim Moicano), Pedro Lopes (NOIA) e Ruy Bezerra, que aceitaram participar de um desafio, sob a forma de concurso, com consequentes premia\u00e7\u00f5es.0 15\u00ba. part\u00edcipe \u00e9 cada visitante.<br \/>\nA \u201cExposi\u00e7\u00e3o Grafitart\u201d mostra e finca as tintas acr\u00edlicas\/sprays em telas que n\u00e3o se enquadram na conven\u00e7\u00e3o da arte tradicional e, mesmo sendo rebeldes \u2013 com causa &#8211; se submeter\u00e3o ao julgamento de uma comiss\u00e3o, constitu\u00edda por artistas pl\u00e1sticos, colecionadores, galeristas, professores de arte, comunicadores.<br \/>\nNo vanguardismo que caracteriza a Galeria BenficArte (Carapinima, 2200 &#8211; 2\u00ba piso) nestes seus 15 anos de vida, essa exposi\u00e7\u00e3o nos d\u00e1 a certeza de que n\u00e3o h\u00e1 mais lugar para o preconceito. Aceite-se, ent\u00e3o, a criatividade diferente das ideias e formas consagradas. O assentimento maior vai depender do olhar, da intui\u00e7\u00e3o, do saber e da imagem fixada na retina de cada visitante, o 15\u00ba. participante dessa mostra que ficar\u00e1 exposta, de forma gratuita, at\u00e9 o dia 16 de novembro de 2014. Cada pessoa poder\u00e1 dar o seu veredito, o voto popular, que, somado ao da comiss\u00e3o julgadora, dir\u00e1 quem ser\u00e3o os premiados vencedores. Esperemos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/10\/2014.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2898","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2898","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2898"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2898\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2898"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2898"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2898"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}