{"id":2901,"date":"2023-12-21T09:10:33","date_gmt":"2023-12-21T12:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/manoel-de-barros-e-a-orfandade-da-poesia-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:33","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:33","slug":"manoel-de-barros-e-a-orfandade-da-poesia-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/manoel-de-barros-e-a-orfandade-da-poesia-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"MANOEL DE BARROS E A ORFANDADE DA POESIA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cUm m\u00e9rito ineg\u00e1vel da poesia: ela diz mais e em menor n\u00famero de palavras que a prosa\u201d.<br \/>\nVoltaire.<br \/>\nManoel Wenceslau Leite de Barros nasceu, em 19 de dezembro de 1916, no Mato Grosso. Que, depois, virou dois Estados. Nasceu em Cuiab\u00e1, morreu em Campo Grande. Dois em um. Formou-se em Direito, advogou at\u00e9. Casou-se, teve filhos, cansou de advogar e virou fazendeiro\/poeta. Sofreu. Perdeu filho em desastre aviat\u00f3rio, mas nunca usou a tristeza como mote. H\u00e1 um ano padecia e se finou no dia 13 passado. Quem quiser procurar, ele est\u00e1 em alguns escritos meus. Ora como ep\u00edgrafe, ora com suas frases despidas de ret\u00f3rica, mas po\u00e9ticas. O que escrevo abaixo \u00e9 mera pesquisa\/colagem. Re\u00fano o que falaram sobre Manoel de Barros. Falta-me envergadura para descrev\u00ea-lo. Uso os outros como meio. Eu sou a mensagem. Carlos Drummond de Andrade, em 1986, teve a coragem de dizer que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. N\u00e3o mentia.<br \/>\nA morte de Manuel de Barros nos entristece e mostra uma dura realidade: h\u00e1 poucos bons poetas no Brasil de hoje. H\u00e1 rimadores e metrificadores, mas lhes falta ess\u00eancia na poesia, sobra a n\u00e3o naturalidade. Ele, Manoel, quis apenas dizer o simples, n\u00e3o se prop\u00f4s a voos condoreiros que n\u00e3o mais cabem neste mundo transformado por mudan\u00e7as que o dealbar deste s\u00e9culo nos impuseram. Voou fora de sua pr\u00f3pria asa.<br \/>\nCada \u00e9poca da hist\u00f3ria deu \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o um novo compasso. Ocorre que a inven\u00e7\u00e3o do chip, do computador, da internet, dos DJs, da quebra de fronteiras, dos livros digitais e do surgimento de novas linguagens, incomuns aos renitentes, mostram o atraso que nos persegue.<br \/>\nA \u201cvanguarda primitiva\u201d de Manoel de Barros possui sintaxe pr\u00f3pria, sem o rebuscamento ingl\u00f3rio dos que n\u00e3o sabem ser simples. Alguns se lastimam, outros cantam amores e h\u00e1 apenas os que tartamudeiam. Ele elegeu a singeleza. Vejamos: 1. Gravata de urubu n\u00e3o tem cor; 2.O esplendor da manh\u00e3 n\u00e3o se abre com faca; 3. Mais alto que eu s\u00f3 Deus e os passarinhos. A d\u00favida era saber se Deus tamb\u00e9m avoava. Ou se Ele est\u00e1 em toda parte como a m\u00e3e ensinava. 4. A poesia est\u00e1 guardada nas palavras \u2013 \u00e9 tudo que sei. Meu fado \u00e9 o de n\u00e3o saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. N\u00e3o tenho conex\u00f5es com a realidade. Poderoso para mim n\u00e3o \u00e9 aquele que descobre ouro. Para mim poderoso \u00e9 aquele que descobre as insignific\u00e2ncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena senten\u00e7a me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado de elogios.<br \/>\nEm um especial da televis\u00e3o GNT v\u00ea-se profunda identidade entre Manoel de Barros e o seu simpl\u00f3rio caseiro, ambos felizes. Manoel de Barros poetou, pela primeira vez, em 1937, em plena ditadura Vargas, pouco antes da eclos\u00e3o da Segunda Grande Guerra Mundial. Talvez, quem sabe, optou por ser l\u00edrico ou on\u00edrico. Nada de engajamento, de questionamentos, de dores de amores, de met\u00e1foras buarqueanas, que viriam depois. Era direto ao ponto. No filme document\u00e1rio feito Pedro C\u00e9zar, de 2008: \u201cS\u00f3 Dez por Cento \u00e9 Mentira\u201d, o autor parte de um chiste de Barros: \u201cNoventa por cento do que escrevo \u00e9 inven\u00e7\u00e3o. S\u00f3 dez por cento \u00e9 mentira\u201d. Para Armando Freitas Filho, citado por S\u00e9rgio Rizzo, na Folha de S\u00e3o Paulo, 14.11.2014, Manoel de Barros \u201ccome\u00e7ou como um poeta formal, cl\u00e1ssico, de dic\u00e7\u00e3o nobre, at\u00e9 chegar a uma poesia singular\u201d. Refinou-se. Como ele pr\u00f3prio dizia: \u201cEstilo \u00e9 um modelo anormal de express\u00e3o: \u00e9 estigma\u201d.<br \/>\nBarros teve a sua fase revolucion\u00e1ria, diz Noemi Jaffe, doutora em literatura. Foi comunista e rompeu, sem tecer armas, com Luiz Carlos Prestes, quando o marido de Olga Ben\u00e1rio, deportada para a Alemanha, por ordem de Vargas, aliou-se ao Getulismo, por ser \u00fatil. Como se sabe, Manoel de Barros era a favor da utilidade do in\u00fatil. Mia Couto, escritor mo\u00e7ambicano, enamorado pelo Brasil e que gosta muito de aparecer, por sua fotogenia, n\u00e3o perdeu a oportunidade: \u201cN\u00e3o era apenas um poeta, um recriador de um idioma que, depois dele, tornou-se mais nosso&#8230; Era um fil\u00f3sofo que pensava e repensava o mundo por via da poesia\u201d. \u00d3bvio.<br \/>\nAgora, editados os cadernos liter\u00e1rios por sua morte esperada e as men\u00e7\u00f5es de praxe, Manoel de Barros vai continuar a ser lido por poucos. N\u00e3o era funileiro de palavras. Era poeta, s\u00f3. Cumpriu o seu fado. Poeta n\u00e3o \u00e9 confeiteiro de frases. \u00c9 m\u00fasico sem metr\u00f4nomo que escuta compassos e dissonantes e os transforma em versos melodiosos. Se a poesia \u00e9 uma religi\u00e3o sem esperan\u00e7a, como queria Jean Cocteau, Manoel de Barros ultrapassou esse est\u00e1gio. Viveu de esperan\u00e7a. Sua filha Martha despediu-se do pai com uma frase dele: \u201cDo lugar onde estou, j\u00e1 fui embora\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21\/11\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm m\u00e9rito ineg\u00e1vel da poesia: ela diz mais e em menor n\u00famero de palavras que a prosa\u201d.<br \/>\nVoltaire.<br \/>\nManoel Wenceslau Leite de Barros nasceu, em 19 de dezembro de 1916, no Mato Grosso. Que, depois, virou dois Estados. Nasceu em Cuiab\u00e1, morreu em Campo Grande. Dois em um. Formou-se em Direito, advogou at\u00e9. Casou-se, teve filhos, cansou de advogar e virou fazendeiro\/poeta. Sofreu. Perdeu filho em desastre aviat\u00f3rio, mas nunca usou a tristeza como mote. H\u00e1 um ano padecia e se finou no dia 13 passado. Quem quiser procurar, ele est\u00e1 em alguns escritos meus. Ora como ep\u00edgrafe, ora com suas frases despidas de ret\u00f3rica, mas po\u00e9ticas. O que escrevo abaixo \u00e9 mera pesquisa\/colagem. Re\u00fano o que falaram sobre Manoel de Barros. Falta-me envergadura para descrev\u00ea-lo. Uso os outros como meio. Eu sou a mensagem. Carlos Drummond de Andrade, em 1986, teve a coragem de dizer que Manoel de Barros era o maior poeta brasileiro vivo. N\u00e3o mentia.<br \/>\nA morte de Manuel de Barros nos entristece e mostra uma dura realidade: h\u00e1 poucos bons poetas no Brasil de hoje. H\u00e1 rimadores e metrificadores, mas lhes falta ess\u00eancia na poesia, sobra a n\u00e3o naturalidade. Ele, Manoel, quis apenas dizer o simples, n\u00e3o se prop\u00f4s a voos condoreiros que n\u00e3o mais cabem neste mundo transformado por mudan\u00e7as que o dealbar deste s\u00e9culo nos impuseram. Voou fora de sua pr\u00f3pria asa.<br \/>\nCada \u00e9poca da hist\u00f3ria deu \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o um novo compasso. Ocorre que a inven\u00e7\u00e3o do chip, do computador, da internet, dos DJs, da quebra de fronteiras, dos livros digitais e do surgimento de novas linguagens, incomuns aos renitentes, mostram o atraso que nos persegue.<br \/>\nA \u201cvanguarda primitiva\u201d de Manoel de Barros possui sintaxe pr\u00f3pria, sem o rebuscamento ingl\u00f3rio dos que n\u00e3o sabem ser simples. Alguns se lastimam, outros cantam amores e h\u00e1 apenas os que tartamudeiam. Ele elegeu a singeleza. Vejamos: 1. Gravata de urubu n\u00e3o tem cor; 2.O esplendor da manh\u00e3 n\u00e3o se abre com faca; 3. Mais alto que eu s\u00f3 Deus e os passarinhos. A d\u00favida era saber se Deus tamb\u00e9m avoava. Ou se Ele est\u00e1 em toda parte como a m\u00e3e ensinava. 4. A poesia est\u00e1 guardada nas palavras \u2013 \u00e9 tudo que sei. Meu fado \u00e9 o de n\u00e3o saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades. N\u00e3o tenho conex\u00f5es com a realidade. Poderoso para mim n\u00e3o \u00e9 aquele que descobre ouro. Para mim poderoso \u00e9 aquele que descobre as insignific\u00e2ncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena senten\u00e7a me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado de elogios.<br \/>\nEm um especial da televis\u00e3o GNT v\u00ea-se profunda identidade entre Manoel de Barros e o seu simpl\u00f3rio caseiro, ambos felizes. Manoel de Barros poetou, pela primeira vez, em 1937, em plena ditadura Vargas, pouco antes da eclos\u00e3o da Segunda Grande Guerra Mundial. Talvez, quem sabe, optou por ser l\u00edrico ou on\u00edrico. Nada de engajamento, de questionamentos, de dores de amores, de met\u00e1foras buarqueanas, que viriam depois. Era direto ao ponto. No filme document\u00e1rio feito Pedro C\u00e9zar, de 2008: \u201cS\u00f3 Dez por Cento \u00e9 Mentira\u201d, o autor parte de um chiste de Barros: \u201cNoventa por cento do que escrevo \u00e9 inven\u00e7\u00e3o. S\u00f3 dez por cento \u00e9 mentira\u201d. Para Armando Freitas Filho, citado por S\u00e9rgio Rizzo, na Folha de S\u00e3o Paulo, 14.11.2014, Manoel de Barros \u201ccome\u00e7ou como um poeta formal, cl\u00e1ssico, de dic\u00e7\u00e3o nobre, at\u00e9 chegar a uma poesia singular\u201d. Refinou-se. Como ele pr\u00f3prio dizia: \u201cEstilo \u00e9 um modelo anormal de express\u00e3o: \u00e9 estigma\u201d.<br \/>\nBarros teve a sua fase revolucion\u00e1ria, diz Noemi Jaffe, doutora em literatura. Foi comunista e rompeu, sem tecer armas, com Luiz Carlos Prestes, quando o marido de Olga Ben\u00e1rio, deportada para a Alemanha, por ordem de Vargas, aliou-se ao Getulismo, por ser \u00fatil. Como se sabe, Manoel de Barros era a favor da utilidade do in\u00fatil. Mia Couto, escritor mo\u00e7ambicano, enamorado pelo Brasil e que gosta muito de aparecer, por sua fotogenia, n\u00e3o perdeu a oportunidade: \u201cN\u00e3o era apenas um poeta, um recriador de um idioma que, depois dele, tornou-se mais nosso&#8230; Era um fil\u00f3sofo que pensava e repensava o mundo por via da poesia\u201d. \u00d3bvio.<br \/>\nAgora, editados os cadernos liter\u00e1rios por sua morte esperada e as men\u00e7\u00f5es de praxe, Manoel de Barros vai continuar a ser lido por poucos. N\u00e3o era funileiro de palavras. Era poeta, s\u00f3. Cumpriu o seu fado. Poeta n\u00e3o \u00e9 confeiteiro de frases. \u00c9 m\u00fasico sem metr\u00f4nomo que escuta compassos e dissonantes e os transforma em versos melodiosos. Se a poesia \u00e9 uma religi\u00e3o sem esperan\u00e7a, como queria Jean Cocteau, Manoel de Barros ultrapassou esse est\u00e1gio. Viveu de esperan\u00e7a. Sua filha Martha despediu-se do pai com uma frase dele: \u201cDo lugar onde estou, j\u00e1 fui embora\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21\/11\/2014<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2901","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2901","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2901"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2901\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}