{"id":2902,"date":"2023-12-21T09:10:33","date_gmt":"2023-12-21T12:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-historia-do-futuro-das-cidades-e-a-consciencia-urbana-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:33","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:33","slug":"a-historia-do-futuro-das-cidades-e-a-consciencia-urbana-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-historia-do-futuro-das-cidades-e-a-consciencia-urbana-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A HIST\u00d3RIA DO FUTURO DAS CIDADES E A CONSCI\u00caNCIA URBANA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cNo interior da grande cidade de todos est\u00e1 a cidade pequena em que realmente vivemos\u201d.<br \/>\nJos\u00e9 Saramago<br \/>\nComo j\u00e1 mexi em diferentes \u00e1reas do conhecimento, por oportunidade, ousadia, descortino, curiosidade e necessidade, ouso dizer que passei anos coordenando e dirigindo equipes de planejamento urbano em cidades do Nordeste, especialmente, na regi\u00e3o semi\u00e1rida. Do Maranh\u00e3o \u00e0 Bahia vasculhamos urbes e, com arquitetos, economistas, engenheiros, ge\u00f3grafos, historiadores, advogados, soci\u00f3logos e outros mais fomos aprendendo, planejando e ensinando a fazer. O que foi dif\u00edcil.<br \/>\nOrgulho-me, por exemplo, do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, de Mossor\u00f3, Rio Grande do Norte. Mossor\u00f3, ent\u00e3o dirigida por Dix-Huit Rosado Maia, come\u00e7ou a implanta\u00e7\u00e3o do que planejamos na d\u00e9cada de 1970 e, hoje, \u00e9 uma das mais promissoras cidades da Regi\u00e3o. Tenho, em algum arquivo perdido, texto de jornal quando da entrega ao ent\u00e3o prefeito de Sobral, Euclides Gomes, do Plano Estrat\u00e9gico daquela cidade da zona norte do Cear\u00e1.<br \/>\nAgora, neste 2014, vemos o \u00f3bvio: as cidades est\u00e3o sufocadas em suas estruturas urbanas pela aus\u00eancia de planejamento de longo curso, pelo fomento \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos em face dos impostos e empregos que geram. Esses ve\u00edculos sejam bicicletas, motos, carros, caminh\u00f5es e \u00f4nibus precisam de rodovias para a sua livre circula\u00e7\u00e3o. Os avi\u00f5es carecem de bons aeroportos ou meras pistas de pouso onde taxiam Brasil adentro. Em pleno s\u00e9culo 21 o Brasil tem baixa navega\u00e7\u00e3o fluvial e mar\u00edtima. A grande rede ferrovi\u00e1ria nacional foi sucateada sob, entre outras alegativas, das diferen\u00e7as de bitolas que recebem as rodas dos trens. H\u00e1 promessas de melhoras. Para quando?<br \/>\nFoi na d\u00e9cada de 1960 que come\u00e7ou o cerco \u00e0s car\u00eancias de \u00e1reas urbanas para habita\u00e7\u00e3o e lazer. Adensam-se as favelas iniciadas, no s\u00e9culo 19, pelos soldados vindos das guerras do Paraguai e de Canudos. A eles, em nome das \u201cvit\u00f3rias\u201d foram prometidas moradias, nunca dadas pelo Governo. A prop\u00f3sito, o nome Favela (cnidoscolus phillanthus) tem a ver com o mundo ideal e ut\u00f3pico do messi\u00e2nico cearense Antonio Conselheiro nos sert\u00f5es da Bahia. Ela \u00e9 planta espinhenta que servia de barricada contra as descomunais for\u00e7as militares que, ap\u00f3s sucessivos embates, dizimaram Canudos. Euclides da Cunha, um duplo, pois observador militar e escritor. O Autor de \u201cOs sert\u00f5es\u201d exp\u00f5e sua vis\u00e3o como engenheiro, antrop\u00f3logo, escritor e homem fr\u00e1gil em crise pessoal permanente.<br \/>\nEm meio ao s\u00e9culo 20, o grande Brasil rural passou a ser urbano com a velocidade do sonho de JK, e da atra\u00e7\u00e3o capilar exercida pelas cidades-polo de crescimento sobre migrantes do sert\u00e3o brabo em busca, de in\u00edcio, da sobreviv\u00eancia. Ap\u00f3s a sobreviv\u00eancia, eclode o natural desejo de inser\u00e7\u00e3o na cidadania que cobra casa com \u00e1gua, esgoto, energia el\u00e9trica e ruas pavimentadas, assist\u00eancia m\u00e9dica, educa\u00e7\u00e3o para a descend\u00eancia, seguran\u00e7a p\u00fablica e, por fim, o tal do consumo consp\u00edcuo que os atrai com lampejos, apelos, ve\u00edculos vendidos com cr\u00e9dito a perder de vista, cart\u00f5es de cr\u00e9ditos a juros absurdos e o fasc\u00ednio do embuste que \u00e9 o cr\u00e9dito consignado.<br \/>\nEstava formada a equa\u00e7\u00e3o complexa para o caos que \u00e9 hoje o Brasil urbano. Deixo, por aus\u00eancia de conhecimento, de falar na economia e na produ\u00e7\u00e3o rural que parecem ser pilar nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de \u201ccommodities\u201d. Entretanto, quem exporta commodities \u00e9 porque n\u00e3o alcan\u00e7ou ainda os patamares da industrializa\u00e7\u00e3o competitiva no mundo sem confins e ap\u00e1trida do mercado internacional.<br \/>\nAs lutas de ecologistas s\u00e9rios para a preserva\u00e7\u00e3o da natureza n\u00e3o pode coibir as transforma\u00e7\u00f5es que a mobilidade urbana est\u00e1 a exigir, sob pena de asfixia coletiva que coloca os guiadores em estado de suspense com medos de assalto pela lentid\u00e3o do tr\u00e2nsito e do exagerado n\u00famero de sem\u00e1foros. Por outra parte, a cria\u00e7\u00e3o recente de ciclovias e de faixas exclusivas de coletivos n\u00e3o deve apenas acelerar a quantidade de multas de tr\u00e2nsito, pois, na verdade, h\u00e1 ainda pouco uso dessas estreitas faixas fora dos hor\u00e1rios de pico e os outros ve\u00edculos precisam fazer convers\u00f5es. A educa\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito \u00e9 mais benfazeja que a aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es pecuni\u00e1rias a guiadores que ainda se consideram \u201cdonos da rua\u201d. O di\u00e1logo democr\u00e1tico permite a confronta\u00e7\u00e3o das ideias, mas, infelizmente, as cidades n\u00e3o param de crescer.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14\/11\/2014<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNo interior da grande cidade de todos est\u00e1 a cidade pequena em que realmente vivemos\u201d.<br \/>\nJos\u00e9 Saramago<br \/>\nComo j\u00e1 mexi em diferentes \u00e1reas do conhecimento, por oportunidade, ousadia, descortino, curiosidade e necessidade, ouso dizer que passei anos coordenando e dirigindo equipes de planejamento urbano em cidades do Nordeste, especialmente, na regi\u00e3o semi\u00e1rida. Do Maranh\u00e3o \u00e0 Bahia vasculhamos urbes e, com arquitetos, economistas, engenheiros, ge\u00f3grafos, historiadores, advogados, soci\u00f3logos e outros mais fomos aprendendo, planejando e ensinando a fazer. O que foi dif\u00edcil.<br \/>\nOrgulho-me, por exemplo, do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, de Mossor\u00f3, Rio Grande do Norte. Mossor\u00f3, ent\u00e3o dirigida por Dix-Huit Rosado Maia, come\u00e7ou a implanta\u00e7\u00e3o do que planejamos na d\u00e9cada de 1970 e, hoje, \u00e9 uma das mais promissoras cidades da Regi\u00e3o. Tenho, em algum arquivo perdido, texto de jornal quando da entrega ao ent\u00e3o prefeito de Sobral, Euclides Gomes, do Plano Estrat\u00e9gico daquela cidade da zona norte do Cear\u00e1.<br \/>\nAgora, neste 2014, vemos o \u00f3bvio: as cidades est\u00e3o sufocadas em suas estruturas urbanas pela aus\u00eancia de planejamento de longo curso, pelo fomento \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos em face dos impostos e empregos que geram. Esses ve\u00edculos sejam bicicletas, motos, carros, caminh\u00f5es e \u00f4nibus precisam de rodovias para a sua livre circula\u00e7\u00e3o. Os avi\u00f5es carecem de bons aeroportos ou meras pistas de pouso onde taxiam Brasil adentro. Em pleno s\u00e9culo 21 o Brasil tem baixa navega\u00e7\u00e3o fluvial e mar\u00edtima. A grande rede ferrovi\u00e1ria nacional foi sucateada sob, entre outras alegativas, das diferen\u00e7as de bitolas que recebem as rodas dos trens. H\u00e1 promessas de melhoras. Para quando?<br \/>\nFoi na d\u00e9cada de 1960 que come\u00e7ou o cerco \u00e0s car\u00eancias de \u00e1reas urbanas para habita\u00e7\u00e3o e lazer. Adensam-se as favelas iniciadas, no s\u00e9culo 19, pelos soldados vindos das guerras do Paraguai e de Canudos. A eles, em nome das \u201cvit\u00f3rias\u201d foram prometidas moradias, nunca dadas pelo Governo. A prop\u00f3sito, o nome Favela (cnidoscolus phillanthus) tem a ver com o mundo ideal e ut\u00f3pico do messi\u00e2nico cearense Antonio Conselheiro nos sert\u00f5es da Bahia. Ela \u00e9 planta espinhenta que servia de barricada contra as descomunais for\u00e7as militares que, ap\u00f3s sucessivos embates, dizimaram Canudos. Euclides da Cunha, um duplo, pois observador militar e escritor. O Autor de \u201cOs sert\u00f5es\u201d exp\u00f5e sua vis\u00e3o como engenheiro, antrop\u00f3logo, escritor e homem fr\u00e1gil em crise pessoal permanente.<br \/>\nEm meio ao s\u00e9culo 20, o grande Brasil rural passou a ser urbano com a velocidade do sonho de JK, e da atra\u00e7\u00e3o capilar exercida pelas cidades-polo de crescimento sobre migrantes do sert\u00e3o brabo em busca, de in\u00edcio, da sobreviv\u00eancia. Ap\u00f3s a sobreviv\u00eancia, eclode o natural desejo de inser\u00e7\u00e3o na cidadania que cobra casa com \u00e1gua, esgoto, energia el\u00e9trica e ruas pavimentadas, assist\u00eancia m\u00e9dica, educa\u00e7\u00e3o para a descend\u00eancia, seguran\u00e7a p\u00fablica e, por fim, o tal do consumo consp\u00edcuo que os atrai com lampejos, apelos, ve\u00edculos vendidos com cr\u00e9dito a perder de vista, cart\u00f5es de cr\u00e9ditos a juros absurdos e o fasc\u00ednio do embuste que \u00e9 o cr\u00e9dito consignado.<br \/>\nEstava formada a equa\u00e7\u00e3o complexa para o caos que \u00e9 hoje o Brasil urbano. Deixo, por aus\u00eancia de conhecimento, de falar na economia e na produ\u00e7\u00e3o rural que parecem ser pilar nas exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de \u201ccommodities\u201d. Entretanto, quem exporta commodities \u00e9 porque n\u00e3o alcan\u00e7ou ainda os patamares da industrializa\u00e7\u00e3o competitiva no mundo sem confins e ap\u00e1trida do mercado internacional.<br \/>\nAs lutas de ecologistas s\u00e9rios para a preserva\u00e7\u00e3o da natureza n\u00e3o pode coibir as transforma\u00e7\u00f5es que a mobilidade urbana est\u00e1 a exigir, sob pena de asfixia coletiva que coloca os guiadores em estado de suspense com medos de assalto pela lentid\u00e3o do tr\u00e2nsito e do exagerado n\u00famero de sem\u00e1foros. Por outra parte, a cria\u00e7\u00e3o recente de ciclovias e de faixas exclusivas de coletivos n\u00e3o deve apenas acelerar a quantidade de multas de tr\u00e2nsito, pois, na verdade, h\u00e1 ainda pouco uso dessas estreitas faixas fora dos hor\u00e1rios de pico e os outros ve\u00edculos precisam fazer convers\u00f5es. A educa\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito \u00e9 mais benfazeja que a aplica\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es pecuni\u00e1rias a guiadores que ainda se consideram \u201cdonos da rua\u201d. O di\u00e1logo democr\u00e1tico permite a confronta\u00e7\u00e3o das ideias, mas, infelizmente, as cidades n\u00e3o param de crescer.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14\/11\/2014<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2902","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2902"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2902\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}