{"id":2910,"date":"2023-12-21T09:10:33","date_gmt":"2023-12-21T12:10:33","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-vespera-do-natal-e-a-vida-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:33","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:33","slug":"a-vespera-do-natal-e-a-vida-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-vespera-do-natal-e-a-vida-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"A V\u00c9SPERA DO NATAL E A VIDA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Quando chega a segunda quinzena de dezembro, come\u00e7amos a matutar sobre o que fizemos no ano que est\u00e1 a terminar e o que nos espera no que chega em uma quinta-feira e, de cara, nos d\u00e1 quatro dias de feriados. Em fevereiro deste ano perdi a minha m\u00e3e, viga mestra da fam\u00edlia, ombro e conselheira de uma r\u00e9cua de filhos e parentes. Agora, exato no dia 8 de dezembro ganhei uma nova neta. Tristeza e alegria.<br \/>\nAo olh\u00e1-la no ber\u00e7\u00e1rio gerei um filme em flashback em que eu era o escritor, o autor do roteiro, o diretor e o protagonista. E conclui nesse filme imagin\u00e1rio, sem cortes e sem mudan\u00e7as de di\u00e1logos verdadeiros, que muita gente fez parte do \u201cscript\u201d n\u00e3o linear que \u00e9 a \u00b4vida minha e a dos outros (cr\u00e9dito para Beatriz Alc\u00e2ntara) com quem fui contracenando no grande teatro greco-romano que \u00e9 o viver. O que conclui est\u00e1 escrito abaixo. \u00c9 como se fosse uma sinopse.<br \/>\nEstou no caminho sem volta que \u00e9 o viver. Ou voc\u00ea avan\u00e7a, passo a passo, mesmo que isso lhe custe a perda e a aus\u00eancia de pessoas essenciais, ou se deixa invadir pela lassid\u00e3o, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Isso o tornar\u00e1, eventualmente, triste.<br \/>\nConfesso, j\u00e1 me senti combalido por poucas vezes, duas foram duras. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o objeto desta minha conversa com voc\u00ea, quem quer que seja. Alegro-me, hoje, com pequenas e bobas coisas. N\u00e3o preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso p\u00fablico e provar roupa em alfaiate presumido. Quero andar de sapatos sem meias, sair de qualquer reuni\u00e3o antes da meia-noite, n\u00e3o conversar com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas.<br \/>\nQue certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho que me d\u00e1 prazer de criar e ser \u00fatil. Sou um art\u00edfice que construiu um gib\u00e3o imagin\u00e1rio para proteger as minhas fraquezas contra os sabidos que se acreditam eternos e poderosos.<br \/>\nSimpatia n\u00e3o \u00e9, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como um menino em parque de divers\u00f5es. A vida \u00e9. N\u00e3o se idealiza, n\u00e3o \u00e9 nada rom\u00e2ntica, tampouco f\u00e1cil, pois \u201cf\u00e1cil \u00e9 o comum\u201d, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos. Agora, neste plat\u00f4, com escarpas ao redor, n\u00e3o deixei de amar, mas o ceticismo me acompanha. Fui, apesar de me acharem arguto, presa f\u00e1cil para pessoas embusteiras.<br \/>\nOs embusteiros s\u00e3o como pacotes bem produzidos. Os la\u00e7os que os adornam s\u00e3o cegos e s\u00f3 com o tempo, quando desfeitos, aparecem a podrid\u00e3o, o malfeito e o mau car\u00e1ter escondidos na apar\u00eancia. A apar\u00eancia que muitos pensam ser tudo e n\u00e3o \u00e9 nada. Todos pagam um pre\u00e7o, o dos embusteiros \u00e9 a ignom\u00ednia.<br \/>\nFaz tempos estudei Sociologia, mas hoje n\u00e3o sei mais nada. Sei apenas que este foi um ano dif\u00edcil para o pa\u00eds l\u00fadico do futebol e para o pa\u00eds real que enfrenta uma tormenta que n\u00e3o se sabe quando e nem quando vai parar. Alegro-me, por outro lado, em saber que os Estados Unidos e Cuba v\u00e3o reatar rela\u00e7\u00f5es, depois de cinco d\u00e9cadas. Dizem que este s\u00e9culo vai mudar o mundo, como todos os outros acreditam que o fizeram.<br \/>\nDescobri que h\u00e1 um velho soci\u00f3logo e escritor judeu, Zygmunt Bauman, que fala da \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d. Conheci-o por Marcos Flam\u00ednio Peres, doutor em teoria liter\u00e1ria e literatura, que o entrevistou em 2012. Assim, a modernidade l\u00edquida, assevera Bauman, nos faz perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos.<br \/>\nBauman escreve livros, tais como \u201cO amor l\u00edquido\u201d,\u201d A vida l\u00edquida\u201d e o \u201cMedo L\u00edquido\u201d. Segundo Peres, em consequ\u00eancia dessas sociedades \u2018leves\u2019 e \u2018l\u00edquidas\u2019 \u201co ser humano tornou-se mais aut\u00f4nomo, o que \u00e9 um ganho, mas passou a conviver com a incerteza\u201d. Pois \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 autonomia sem perda. A incerteza \u00e9 e ser\u00e1 constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei l\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo. Feliz Natal!<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/12\/2014.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando chega a segunda quinzena de dezembro, come\u00e7amos a matutar sobre o que fizemos no ano que est\u00e1 a terminar e o que nos espera no que chega em uma quinta-feira e, de cara, nos d\u00e1 quatro dias de feriados. Em fevereiro deste ano perdi a minha m\u00e3e, viga mestra da fam\u00edlia, ombro e conselheira de uma r\u00e9cua de filhos e parentes. Agora, exato no dia 8 de dezembro ganhei uma nova neta. Tristeza e alegria.<br \/>\nAo olh\u00e1-la no ber\u00e7\u00e1rio gerei um filme em flashback em que eu era o escritor, o autor do roteiro, o diretor e o protagonista. E conclui nesse filme imagin\u00e1rio, sem cortes e sem mudan\u00e7as de di\u00e1logos verdadeiros, que muita gente fez parte do \u201cscript\u201d n\u00e3o linear que \u00e9 a \u00b4vida minha e a dos outros (cr\u00e9dito para Beatriz Alc\u00e2ntara) com quem fui contracenando no grande teatro greco-romano que \u00e9 o viver. O que conclui est\u00e1 escrito abaixo. \u00c9 como se fosse uma sinopse.<br \/>\nEstou no caminho sem volta que \u00e9 o viver. Ou voc\u00ea avan\u00e7a, passo a passo, mesmo que isso lhe custe a perda e a aus\u00eancia de pessoas essenciais, ou se deixa invadir pela lassid\u00e3o, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Isso o tornar\u00e1, eventualmente, triste.<br \/>\nConfesso, j\u00e1 me senti combalido por poucas vezes, duas foram duras. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o objeto desta minha conversa com voc\u00ea, quem quer que seja. Alegro-me, hoje, com pequenas e bobas coisas. N\u00e3o preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso p\u00fablico e provar roupa em alfaiate presumido. Quero andar de sapatos sem meias, sair de qualquer reuni\u00e3o antes da meia-noite, n\u00e3o conversar com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas.<br \/>\nQue certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho que me d\u00e1 prazer de criar e ser \u00fatil. Sou um art\u00edfice que construiu um gib\u00e3o imagin\u00e1rio para proteger as minhas fraquezas contra os sabidos que se acreditam eternos e poderosos.<br \/>\nSimpatia n\u00e3o \u00e9, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como um menino em parque de divers\u00f5es. A vida \u00e9. N\u00e3o se idealiza, n\u00e3o \u00e9 nada rom\u00e2ntica, tampouco f\u00e1cil, pois \u201cf\u00e1cil \u00e9 o comum\u201d, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos. Agora, neste plat\u00f4, com escarpas ao redor, n\u00e3o deixei de amar, mas o ceticismo me acompanha. Fui, apesar de me acharem arguto, presa f\u00e1cil para pessoas embusteiras.<br \/>\nOs embusteiros s\u00e3o como pacotes bem produzidos. Os la\u00e7os que os adornam s\u00e3o cegos e s\u00f3 com o tempo, quando desfeitos, aparecem a podrid\u00e3o, o malfeito e o mau car\u00e1ter escondidos na apar\u00eancia. A apar\u00eancia que muitos pensam ser tudo e n\u00e3o \u00e9 nada. Todos pagam um pre\u00e7o, o dos embusteiros \u00e9 a ignom\u00ednia.<br \/>\nFaz tempos estudei Sociologia, mas hoje n\u00e3o sei mais nada. Sei apenas que este foi um ano dif\u00edcil para o pa\u00eds l\u00fadico do futebol e para o pa\u00eds real que enfrenta uma tormenta que n\u00e3o se sabe quando e nem quando vai parar. Alegro-me, por outro lado, em saber que os Estados Unidos e Cuba v\u00e3o reatar rela\u00e7\u00f5es, depois de cinco d\u00e9cadas. Dizem que este s\u00e9culo vai mudar o mundo, como todos os outros acreditam que o fizeram.<br \/>\nDescobri que h\u00e1 um velho soci\u00f3logo e escritor judeu, Zygmunt Bauman, que fala da \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d. Conheci-o por Marcos Flam\u00ednio Peres, doutor em teoria liter\u00e1ria e literatura, que o entrevistou em 2012. Assim, a modernidade l\u00edquida, assevera Bauman, nos faz perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos.<br \/>\nBauman escreve livros, tais como \u201cO amor l\u00edquido\u201d,\u201d A vida l\u00edquida\u201d e o \u201cMedo L\u00edquido\u201d. Segundo Peres, em consequ\u00eancia dessas sociedades \u2018leves\u2019 e \u2018l\u00edquidas\u2019 \u201co ser humano tornou-se mais aut\u00f4nomo, o que \u00e9 um ganho, mas passou a conviver com a incerteza\u201d. Pois \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 autonomia sem perda. A incerteza \u00e9 e ser\u00e1 constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei l\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo. Feliz Natal!<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/12\/2014.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2910","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2910","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2910"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2910\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2910"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2910"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2910"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}