{"id":2939,"date":"2023-12-21T09:10:34","date_gmt":"2023-12-21T12:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/rua-da-madonna-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:34","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:34","slug":"rua-da-madonna-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/rua-da-madonna-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"RUA DA MADONNA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Frio forte, desejo de jantar, tomar vinho tinto, e as pedras centen\u00e1rias da Via della Madonna dei Monti n\u00e3o refletiam a luz dos postes. Do lado direito, 94, confundi um est\u00fadio com um bistr\u00f4. Entrei. Era, na verdade, um \u201chappening\u201d com acepipes do pintor Emiliano. Cercado de amigos e sem clientes. Quadros grandes, alegres, cores fortes resguardadas por vidros e uma t\u00e9cnica exposta sem reserva. Pinta em pexiglass, aquele tipo de pl\u00e1stico transparente que cobre comidas, n\u00e3o o laminado. Depois, fixa o pexiglass no vidro. Fica bonito e quem quiser olhar pode ver no info@emilianoesposto.com. Nada \u00e9 mais segredo neste mundo de ruas tortas que desvelam ao seu final, al\u00e9m da Igreja da Madonna com mendigo \u00e0 porta, o ajuntamento de jovens e adultos no largo onde se v\u00ea m\u00fasica, restaurantes e a presen\u00e7a discreta dos carabineiros, cada qual na sua na noite invernosa. As pessoas parecem alegres e obedecem \u00e0 preced\u00eancia na frente do toldo do restaurante que avan\u00e7a na pra\u00e7a. Ali assento.<br \/>\nNa volta, porta quase cerrada da igreja, ainda dou uma olhada furtiva e vejo santos nos altares central e laterais. Cem passadas depois, o que me deixou os parcos cabelos arrepiados foi o Ice Club, todo branco, na noite fria e carregada. Era, de fato, um bar gelad\u00e3o. Um iceberg. Paredes, tetos , bancos e copos de gelo. Quarenta toneladas de gelo, imagine. Na portaria h\u00e1 grossos capotes para a entrada no frigor\u00edfico humano, a menos cinco graus Celsius, com m\u00fasica e bebidas, vodca, especialmente. Coisa de esquim\u00f3. Logo chego ao princ\u00edpio da rua, a desnudar o Coliseu iluminado, logo \u00e0 frente. Do lado direito, ao fundo, o Arco de Constantino (s\u00e9culo IV) e o Monumento &#8211; pela unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia &#8211; a Vittorio Emanuelle II, do s\u00e9culo passado, tamb\u00e9m conhecido por \u201cbolo de noiva\u201d, por ser todo branco, constru\u00eddo em m\u00e1rmore. Isso \u00e9 o que vislumbro, olhando para a esquerda e a direita, da entrada da Via della Madonna, do teto de um velho\/antigo hotel onde fico. N\u00e3o tenho jeito para guia tur\u00edstico.<br \/>\nNo Coliseu, todos sabem, ap\u00f3s a morte de Jesus, crist\u00e3os passaram a ser sacrificados. Francisco vai mergulhando na hist\u00f3ria romana e resolve conhec\u00ea-lo de perto. Sabe do local do holocausto. Viu-o, agora, com vagar, e ficou chocado. As multid\u00f5es, italianos e turistas, o protegem e o aplaudem. A It\u00e1lia, vide Roma, recebeu de Dante Alighieri, em sua obra \u201cPurgat\u00f3rio, escrita h\u00e1 setecentos anos, o seguinte coment\u00e1rio: \u201cAh, It\u00e1lia, escrava, abrigo de dor,\/ nau sem timoneiro em grande tempestade,\/ n\u00e3o senhora de prov\u00edncias, mas de bordel!\u201d.<br \/>\nHoje, na cont\u00ednua e profunda crise de governan\u00e7a, a It\u00e1lia alegra-se com os curiosos turistas cat\u00f3licos a aplaudir Francisco, um Papa solit\u00e1rio e at\u00f4nito, depois da conversa com Ratzinger e das not\u00f3rias divis\u00f5es internas da burocracia do Vaticano. Ela, a tudo governa. Saber a l\u00edngua da terra n\u00e3o o torna nativo. Ter sido eleito &#8211; com sua idade &#8211; em meio a tantos arranjos, o faz achegar-se ao povo. Socorre-se dos peregrinos, mais a cerc\u00e1-lo por curiosidade, que ouvi-lo nas pr\u00e9dicas nas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Teme os C\u00e9sares de sotainas vermelhas. A Madonna do Monte fica de olho. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCRONISTA<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05\/04\/2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Frio forte, desejo de jantar, tomar vinho tinto, e as pedras centen\u00e1rias da Via della Madonna dei Monti n\u00e3o refletiam a luz dos postes. Do lado direito, 94, confundi um est\u00fadio com um bistr\u00f4. Entrei. Era, na verdade, um \u201chappening\u201d com acepipes do pintor Emiliano. Cercado de amigos e sem clientes. Quadros grandes, alegres, cores fortes resguardadas por vidros e uma t\u00e9cnica exposta sem reserva. Pinta em pexiglass, aquele tipo de pl\u00e1stico transparente que cobre comidas, n\u00e3o o laminado. Depois, fixa o pexiglass no vidro. Fica bonito e quem quiser olhar pode ver no info@emilianoesposto.com. Nada \u00e9 mais segredo neste mundo de ruas tortas que desvelam ao seu final, al\u00e9m da Igreja da Madonna com mendigo \u00e0 porta, o ajuntamento de jovens e adultos no largo onde se v\u00ea m\u00fasica, restaurantes e a presen\u00e7a discreta dos carabineiros, cada qual na sua na noite invernosa. As pessoas parecem alegres e obedecem \u00e0 preced\u00eancia na frente do toldo do restaurante que avan\u00e7a na pra\u00e7a. Ali assento.<br \/>\nNa volta, porta quase cerrada da igreja, ainda dou uma olhada furtiva e vejo santos nos altares central e laterais. Cem passadas depois, o que me deixou os parcos cabelos arrepiados foi o Ice Club, todo branco, na noite fria e carregada. Era, de fato, um bar gelad\u00e3o. Um iceberg. Paredes, tetos , bancos e copos de gelo. Quarenta toneladas de gelo, imagine. Na portaria h\u00e1 grossos capotes para a entrada no frigor\u00edfico humano, a menos cinco graus Celsius, com m\u00fasica e bebidas, vodca, especialmente. Coisa de esquim\u00f3. Logo chego ao princ\u00edpio da rua, a desnudar o Coliseu iluminado, logo \u00e0 frente. Do lado direito, ao fundo, o Arco de Constantino (s\u00e9culo IV) e o Monumento &#8211; pela unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia &#8211; a Vittorio Emanuelle II, do s\u00e9culo passado, tamb\u00e9m conhecido por \u201cbolo de noiva\u201d, por ser todo branco, constru\u00eddo em m\u00e1rmore. Isso \u00e9 o que vislumbro, olhando para a esquerda e a direita, da entrada da Via della Madonna, do teto de um velho\/antigo hotel onde fico. N\u00e3o tenho jeito para guia tur\u00edstico.<br \/>\nNo Coliseu, todos sabem, ap\u00f3s a morte de Jesus, crist\u00e3os passaram a ser sacrificados. Francisco vai mergulhando na hist\u00f3ria romana e resolve conhec\u00ea-lo de perto. Sabe do local do holocausto. Viu-o, agora, com vagar, e ficou chocado. As multid\u00f5es, italianos e turistas, o protegem e o aplaudem. A It\u00e1lia, vide Roma, recebeu de Dante Alighieri, em sua obra \u201cPurgat\u00f3rio, escrita h\u00e1 setecentos anos, o seguinte coment\u00e1rio: \u201cAh, It\u00e1lia, escrava, abrigo de dor,\/ nau sem timoneiro em grande tempestade,\/ n\u00e3o senhora de prov\u00edncias, mas de bordel!\u201d.<br \/>\nHoje, na cont\u00ednua e profunda crise de governan\u00e7a, a It\u00e1lia alegra-se com os curiosos turistas cat\u00f3licos a aplaudir Francisco, um Papa solit\u00e1rio e at\u00f4nito, depois da conversa com Ratzinger e das not\u00f3rias divis\u00f5es internas da burocracia do Vaticano. Ela, a tudo governa. Saber a l\u00edngua da terra n\u00e3o o torna nativo. Ter sido eleito &#8211; com sua idade &#8211; em meio a tantos arranjos, o faz achegar-se ao povo. 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A Madonna do Monte fica de olho. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCRONISTA<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05\/04\/2013.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2939","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2939","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2939"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2939\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2939"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2939"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2939"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}