{"id":2941,"date":"2023-12-21T09:10:34","date_gmt":"2023-12-21T12:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mao-errada-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:34","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:34","slug":"mao-errada-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/mao-errada-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"M\u00c3O &#8220;ERRADA&#8221; &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Acabei, faz pouco tempo, de guardar o pesado e amarfanhado casaco que usei no frio da Velha Albion, a terra do contra. L\u00e1, para se andar e atravessar a rua, deve-se olhar ao contr\u00e1rio do que se faz por aqui. E eu, certamente, n\u00e3o tenho esse reflexo. Sinto-me desconfort\u00e1vel e atarantado. Eu devia entender que metade dos carros do mundo est\u00e1 com a dire\u00e7\u00e3o do lado \u201cerrado\u201d, isto \u00e9, do lado direito. O problema \u00e9 que achamos certos os nossos costumes. N\u00e3o h\u00e1 certo ou errado nessa quest\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o e tampouco nos costumes de cada terra.<br \/>\nNo come\u00e7o da hist\u00f3ria do autom\u00f3vel a dire\u00e7\u00e3o ficava ao meio do painel para o motorista ter uma vis\u00e3o ampla \u00e0 sua frente. Depois, a dire\u00e7\u00e3o veio para o lado esquerdo, a fim de bem ultrapassar os ve\u00edculos que est\u00e3o \u00e0 frente e trafegam pelo lado direito da via. Um fato interessante, os retrovisores laterais s\u00e3o inven\u00e7\u00e3o bem posterior ao tempo de Henry Ford e seus disc\u00edpulos.<br \/>\nA turma da Velha Albion, entretanto, costuma ser diferente em quase tudo &#8211; os bares fecham parte da tarde, p.ex &#8211; tendo adotado o lado direito como o \u201ccerto\u201d para a dire\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo. A ultrapassagem \u00e9 pela esquerda. Da mesma forma fizeram com a moeda deles. Se algum visitante \u2013 e s\u00e3o 30 milh\u00f5es a cada ano &#8211; quiser v\u00e1 a uma casa de c\u00e2mbio e troque o real, o d\u00f3lar ou o euro por \u201cpound\u201d.<br \/>\nAlugar um carro passou a ser uma temeridade para mim, canhoto empedernido, j\u00e1 a enfrentar dificuldades com a habilidade manual, incluindo chaves, portas e ma\u00e7anetas, imagine com a contram\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o. Chego e a Baronesa Margaret Thatcher se vai. Creio que ela n\u00e3o pode sequer ver o filme sobre a sua vida. Se o viu, n\u00e3o entendeu nada, pois havia sido atingida pela doen\u00e7a do alem\u00e3o.<br \/>\nComo diz um velho prov\u00e9rbio, creio que \u00e1rabe, \u201cDeus n\u00e3o completa nada para ningu\u00e9m\u201d. N\u00e3o viu Meryl Streep, igualzinha a ela, na caracteriza\u00e7\u00e3o e no gestual. Representou-a t\u00e3o bem que ganhou um Oscar de melhor atriz. O filme, de 2011, ser\u00e1 reprisado, certamente, pelo menos nos canais fechados. Ele mostra Streep falando e agindo como Thatcher e desvendando, de soslaio, a t\u00eanue figura do seu marido, tamb\u00e9m j\u00e1 no mundo do al\u00e9m.<br \/>\nO enredo n\u00e3o diz, por exemplo, que Margaret ganhou um concurso de poesia aos 10 anos e ao ouvir do professor: parab\u00e9ns, voc\u00ea teve sorte. Respondeu: Sorte n\u00e3o, eu mereci. Despontava ali, a sua franqueza. A hist\u00f3ria da pel\u00edcula centra na sua ascens\u00e3o pol\u00edtica e social, filha do merceeiro Alfred Roberts, da cidade de Grantham, arredores de Londres. Ela foi estudante de Oxford por m\u00e9rito pessoal, com bolsa de estudo. Ao casar, assumiu o Thatcher do marido, o empres\u00e1rio Denis, e abandonou o Roberts, do pai Alfred. Chegou, em tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es consecutivas, a ser premi\u00ea da ilha por longos 11 anos, de 1979 a 1990. A \u00fanica mulher com esse feito.<br \/>\nA Dama de Ferro, The Iron Lady, nome esculpido por um jornalista sovi\u00e9tico, era durona, \u201cconservadora\u201d, mas tomou decis\u00f5es avan\u00e7adas para a \u00e1rdua \u00e9poca em que conviveu com quebradeira e greves brabas, tendo conseguido segurar a infla\u00e7\u00e3o, ganhar a guerra das Malvinas\/Falklands, na verdade, uma aventura suicida da ditadura argentina. Ela viveu, como premi\u00ea, os \u00faltimos anos da Guerra Fria, quando bilh\u00f5es foram gastos por v\u00e1rios pa\u00edses com ataques e defesas imagin\u00e1rios e ret\u00f3ricos, e viu o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica(1989). Apenas historio, n\u00e3o julgo.<br \/>\nEnquanto isso, Elizabeth, a longeva, m\u00e3e do vi\u00favo desengon\u00e7ado a gostar de saiote \u201ckilt\u201d escoc\u00eas e casado com a velha amante, continua dirigindo, quando deixam, o seu Landrover, pela \u201cm\u00e3o errada\u201d, nas estradas vicinais dos castelos friorentos e plenos de fantasmas. Uma amiga alem\u00e3, pedindo reserva, citou a frase do poeta Friedrich Von Hardenberg, dito Novalis, tamb\u00e9m germ\u00e2nico: \u201cJeder Engl\u00e4nder ist eine Insel\u201d. Abri o dicion\u00e1rio e aprendi: \u201cTodo ingl\u00eas \u00e9 uma ilha\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12\/04\/2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabei, faz pouco tempo, de guardar o pesado e amarfanhado casaco que usei no frio da Velha Albion, a terra do contra. L\u00e1, para se andar e atravessar a rua, deve-se olhar ao contr\u00e1rio do que se faz por aqui. E eu, certamente, n\u00e3o tenho esse reflexo. Sinto-me desconfort\u00e1vel e atarantado. Eu devia entender que metade dos carros do mundo est\u00e1 com a dire\u00e7\u00e3o do lado \u201cerrado\u201d, isto \u00e9, do lado direito. O problema \u00e9 que achamos certos os nossos costumes. N\u00e3o h\u00e1 certo ou errado nessa quest\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o e tampouco nos costumes de cada terra.<br \/>\nNo come\u00e7o da hist\u00f3ria do autom\u00f3vel a dire\u00e7\u00e3o ficava ao meio do painel para o motorista ter uma vis\u00e3o ampla \u00e0 sua frente. Depois, a dire\u00e7\u00e3o veio para o lado esquerdo, a fim de bem ultrapassar os ve\u00edculos que est\u00e3o \u00e0 frente e trafegam pelo lado direito da via. Um fato interessante, os retrovisores laterais s\u00e3o inven\u00e7\u00e3o bem posterior ao tempo de Henry Ford e seus disc\u00edpulos.<br \/>\nA turma da Velha Albion, entretanto, costuma ser diferente em quase tudo &#8211; os bares fecham parte da tarde, p.ex &#8211; tendo adotado o lado direito como o \u201ccerto\u201d para a dire\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo. A ultrapassagem \u00e9 pela esquerda. Da mesma forma fizeram com a moeda deles. Se algum visitante \u2013 e s\u00e3o 30 milh\u00f5es a cada ano &#8211; quiser v\u00e1 a uma casa de c\u00e2mbio e troque o real, o d\u00f3lar ou o euro por \u201cpound\u201d.<br \/>\nAlugar um carro passou a ser uma temeridade para mim, canhoto empedernido, j\u00e1 a enfrentar dificuldades com a habilidade manual, incluindo chaves, portas e ma\u00e7anetas, imagine com a contram\u00e3o de dire\u00e7\u00e3o. Chego e a Baronesa Margaret Thatcher se vai. Creio que ela n\u00e3o pode sequer ver o filme sobre a sua vida. Se o viu, n\u00e3o entendeu nada, pois havia sido atingida pela doen\u00e7a do alem\u00e3o.<br \/>\nComo diz um velho prov\u00e9rbio, creio que \u00e1rabe, \u201cDeus n\u00e3o completa nada para ningu\u00e9m\u201d. N\u00e3o viu Meryl Streep, igualzinha a ela, na caracteriza\u00e7\u00e3o e no gestual. Representou-a t\u00e3o bem que ganhou um Oscar de melhor atriz. O filme, de 2011, ser\u00e1 reprisado, certamente, pelo menos nos canais fechados. Ele mostra Streep falando e agindo como Thatcher e desvendando, de soslaio, a t\u00eanue figura do seu marido, tamb\u00e9m j\u00e1 no mundo do al\u00e9m.<br \/>\nO enredo n\u00e3o diz, por exemplo, que Margaret ganhou um concurso de poesia aos 10 anos e ao ouvir do professor: parab\u00e9ns, voc\u00ea teve sorte. Respondeu: Sorte n\u00e3o, eu mereci. Despontava ali, a sua franqueza. A hist\u00f3ria da pel\u00edcula centra na sua ascens\u00e3o pol\u00edtica e social, filha do merceeiro Alfred Roberts, da cidade de Grantham, arredores de Londres. Ela foi estudante de Oxford por m\u00e9rito pessoal, com bolsa de estudo. Ao casar, assumiu o Thatcher do marido, o empres\u00e1rio Denis, e abandonou o Roberts, do pai Alfred. Chegou, em tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es consecutivas, a ser premi\u00ea da ilha por longos 11 anos, de 1979 a 1990. A \u00fanica mulher com esse feito.<br \/>\nA Dama de Ferro, The Iron Lady, nome esculpido por um jornalista sovi\u00e9tico, era durona, \u201cconservadora\u201d, mas tomou decis\u00f5es avan\u00e7adas para a \u00e1rdua \u00e9poca em que conviveu com quebradeira e greves brabas, tendo conseguido segurar a infla\u00e7\u00e3o, ganhar a guerra das Malvinas\/Falklands, na verdade, uma aventura suicida da ditadura argentina. Ela viveu, como premi\u00ea, os \u00faltimos anos da Guerra Fria, quando bilh\u00f5es foram gastos por v\u00e1rios pa\u00edses com ataques e defesas imagin\u00e1rios e ret\u00f3ricos, e viu o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica(1989). 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