{"id":2945,"date":"2023-12-21T09:10:34","date_gmt":"2023-12-21T12:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/aria-de-papeis-nao-rasgados-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:34","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:34","slug":"aria-de-papeis-nao-rasgados-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/aria-de-papeis-nao-rasgados-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"\u00c1RIA DE PAP\u00c9IS N\u00c3O RASGADOS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Sou um homem cercado de pap\u00e9is por todos os lados. Minha casa \u00e9, em parte, uma biblioteca desordenada. A outra, \u00e9 uma quase pinacoteca, multifacetada. Houve um tempo, creio que em 1995, em que resolvi jogar fora livros, jornais, cartas pessoais e bilhetes antigos. Eram valiosos para mim, pelos ensinamentos, verdades e at\u00e9 pelas mentiras\/tolices contidas. Fui exprobrado por cartas n\u00e3o pedidas, por meras letras de m\u00fasicas encadeadas formando um texto amistoso, afetivo.E me imputaram culpa, como se destinat\u00e1rio fosse, imaginem, por carta de amiga madura a revelar suas conversas telef\u00f4nicas com algu\u00e9m, mais idoso ainda, j\u00e1 alquebrado, desenganado e, logo depois, finado. Os dois, pelas idades, estavam al\u00e9m do Bojador e n\u00e3o se consumaria o \u201ctal amor\u201d, se perto vivessem e nus estivessem. Mesmo assim, fez-se o dil\u00favio. E n\u00e3o me chamo No\u00e9.<br \/>\nEsse foi o libelo, n\u00e3o que eu fosse um extraterrestre, um n\u00e3o culpado, mas as provas eram falsas e mal lidas. Nada resistiria a uma an\u00e1lise s\u00e9ria. Rasguei o que me restou. Assimilei a senten\u00e7a por outro epis\u00f3dio e fui exilar-me em morada simples, despojada de tudo. De novo, pouco a pouco os pap\u00e9is foram brotando. Hoje, quase vinte anos passados, j\u00e1 em outro pouso, sou cercado por livros, jornais esmaecidos, revistas, cartas e bilhetes com e sem nomes . Nem falo da internet: a essa dou o tratamento devido, a tecla mais usada \u00e9 a de deletar, mesmo tendo perdido, com pesar, mais de 100 escritos a narrar uma hist\u00f3ria bonita, e encadeada com a vida.<br \/>\nOntem, resolvi fazer mais uma limpeza, mas h\u00e1 uma dor, acreditem, em cada papel rasgado, em cada bilhete ou carta que se esfuma, ou nos livros doados, por t\u00ea-los lido ou por n\u00e3o ter conseguido ir at\u00e9 aos seus finais. Agora, neste instante, estou com duas folhas, de pessoa que, entre aspas, me enviou, h\u00e1 algum tempo, pois data n\u00e3o tem, texto atribu\u00eddo a Nietzsche: \u201cEcce Homo\u201d. O texto: \u201cUm homem bem nascido ado\u00e7a os nossos sentidos; ele \u00e9 composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe \u00e9 \u00fatil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando ele ultrapassa os limites do \u00fatil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que n\u00e3o o aniquila, torna-o bem mais forte. De tudo o que ele v\u00ea, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma, \u00e9 um princ\u00edpio de sele\u00e7\u00e3o. Muitas coisas deixa cair. Est\u00e1 sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens como discerne, como aceita, e le tamb\u00e9m honra. Reage a toda esp\u00e9cie de fascina\u00e7\u00e3o, lentamente, com aquela lentid\u00e3o que lhe ensinaram uma longa prud\u00eancia e uma soberba vol\u00fapia&#8230;\u201d.<br \/>\nParo por aqui, mas fico a pensar se o texto, citado apenas em parte, \u00e9 mesmo de Nietzsche. Nunca tive a curiosidade de conferir. S\u00e3o quase 11 da noite e daqui observo os sof\u00e1s do quarto abarrotados de livros, recortes revistas e jornais, de d\u00e9cadas passadas. Foram ficando e se quedaram l\u00e1, formando manchas cinzas no tecido dos m\u00f3veis. C\u00e1, onde escrevo, um anexo ao quarto, uma esp\u00e9cie de escrit\u00f3rio, com mesa de m\u00e1rmore envelhecido repousa o caos, em forma de pap\u00e9is. Amea\u00e7o ordenar o espa\u00e7o, mas n\u00e3o tenho coragem, fica para outra vez. Sobra apenas o espa\u00e7o para este limitado notebook, j\u00e1 velhusco. Agora \u00e9 tempo de tentar dormir e, sem pauta ou musicalidade, admito, data v\u00eania, ter composto um canto silencioso, mas com ritmo e compasso contemplativos, uma a \u00e1ria de n\u00e3o rasgar pap\u00e9is.<br \/>\nDa internet<br \/>\n\u201cUm homem bem nascido ado\u00e7a os nosso sentidos: ele \u00e9 composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe \u00e9 \u00fatil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando lhe ultrapassa os limites do \u00fatil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que n\u00e3o o aniquila torna-o bem mais forte. De tudo o que ele v\u00ea, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma; \u00e9 um princ\u00edpio de sele\u00e7\u00e3o: muitas coisas deixa cair. Est\u00e1 sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens: como discerne, como aceita, como confia, ele tamb\u00e9m honra. Reage a toda esp\u00e9cie de fascina\u00e7\u00e3o, lentamente, com aquela lentid\u00e3o que lhe ensinaram uma longa prud\u00eancia e uma soberba vol\u00fapia; examina o enlevo que ascende a ele &#8211; est\u00e1 bem longe de ir-lhe ao encontro. N\u00e3o acredita nem na \u201cdesventura\u201d nem na \u201cculpa\u201d: prev\u00ea logo qualquer coisa, consigo mesmo e com os outros, sabendo sobretudo olvidar; \u00e9 suficientemente forte para que tudo lhe redunde em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Pois bem; eu sou o oposto de um decadente, porque descrevi a mim mesmo.\u201d<br \/>\nFriedrich Nietzsche<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\n cronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/04\/2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou um homem cercado de pap\u00e9is por todos os lados. Minha casa \u00e9, em parte, uma biblioteca desordenada. A outra, \u00e9 uma quase pinacoteca, multifacetada. Houve um tempo, creio que em 1995, em que resolvi jogar fora livros, jornais, cartas pessoais e bilhetes antigos. Eram valiosos para mim, pelos ensinamentos, verdades e at\u00e9 pelas mentiras\/tolices contidas. Fui exprobrado por cartas n\u00e3o pedidas, por meras letras de m\u00fasicas encadeadas formando um texto amistoso, afetivo.E me imputaram culpa, como se destinat\u00e1rio fosse, imaginem, por carta de amiga madura a revelar suas conversas telef\u00f4nicas com algu\u00e9m, mais idoso ainda, j\u00e1 alquebrado, desenganado e, logo depois, finado. Os dois, pelas idades, estavam al\u00e9m do Bojador e n\u00e3o se consumaria o \u201ctal amor\u201d, se perto vivessem e nus estivessem. Mesmo assim, fez-se o dil\u00favio. E n\u00e3o me chamo No\u00e9.<br \/>\nEsse foi o libelo, n\u00e3o que eu fosse um extraterrestre, um n\u00e3o culpado, mas as provas eram falsas e mal lidas. Nada resistiria a uma an\u00e1lise s\u00e9ria. Rasguei o que me restou. Assimilei a senten\u00e7a por outro epis\u00f3dio e fui exilar-me em morada simples, despojada de tudo. De novo, pouco a pouco os pap\u00e9is foram brotando. Hoje, quase vinte anos passados, j\u00e1 em outro pouso, sou cercado por livros, jornais esmaecidos, revistas, cartas e bilhetes com e sem nomes . Nem falo da internet: a essa dou o tratamento devido, a tecla mais usada \u00e9 a de deletar, mesmo tendo perdido, com pesar, mais de 100 escritos a narrar uma hist\u00f3ria bonita, e encadeada com a vida.<br \/>\nOntem, resolvi fazer mais uma limpeza, mas h\u00e1 uma dor, acreditem, em cada papel rasgado, em cada bilhete ou carta que se esfuma, ou nos livros doados, por t\u00ea-los lido ou por n\u00e3o ter conseguido ir at\u00e9 aos seus finais. Agora, neste instante, estou com duas folhas, de pessoa que, entre aspas, me enviou, h\u00e1 algum tempo, pois data n\u00e3o tem, texto atribu\u00eddo a Nietzsche: \u201cEcce Homo\u201d. O texto: \u201cUm homem bem nascido ado\u00e7a os nossos sentidos; ele \u00e9 composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe \u00e9 \u00fatil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando ele ultrapassa os limites do \u00fatil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que n\u00e3o o aniquila, torna-o bem mais forte. De tudo o que ele v\u00ea, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma, \u00e9 um princ\u00edpio de sele\u00e7\u00e3o. Muitas coisas deixa cair. Est\u00e1 sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens como discerne, como aceita, e le tamb\u00e9m honra. Reage a toda esp\u00e9cie de fascina\u00e7\u00e3o, lentamente, com aquela lentid\u00e3o que lhe ensinaram uma longa prud\u00eancia e uma soberba vol\u00fapia&#8230;\u201d.<br \/>\nParo por aqui, mas fico a pensar se o texto, citado apenas em parte, \u00e9 mesmo de Nietzsche. Nunca tive a curiosidade de conferir. S\u00e3o quase 11 da noite e daqui observo os sof\u00e1s do quarto abarrotados de livros, recortes revistas e jornais, de d\u00e9cadas passadas. Foram ficando e se quedaram l\u00e1, formando manchas cinzas no tecido dos m\u00f3veis. C\u00e1, onde escrevo, um anexo ao quarto, uma esp\u00e9cie de escrit\u00f3rio, com mesa de m\u00e1rmore envelhecido repousa o caos, em forma de pap\u00e9is. Amea\u00e7o ordenar o espa\u00e7o, mas n\u00e3o tenho coragem, fica para outra vez. Sobra apenas o espa\u00e7o para este limitado notebook, j\u00e1 velhusco. Agora \u00e9 tempo de tentar dormir e, sem pauta ou musicalidade, admito, data v\u00eania, ter composto um canto silencioso, mas com ritmo e compasso contemplativos, uma a \u00e1ria de n\u00e3o rasgar pap\u00e9is.<br \/>\nDa internet<br \/>\n\u201cUm homem bem nascido ado\u00e7a os nosso sentidos: ele \u00e9 composto de uma fibra ao mesmo tempo dura, tenra e perfumada. Apraz-lhe somente aquilo que lhe \u00e9 \u00fatil: o seu prazer e o seu desejo cessam quando lhe ultrapassa os limites do \u00fatil. Advinha ele todos os meios para reparar os males, afastando-se dos acidentes adversos; aquilo que n\u00e3o o aniquila torna-o bem mais forte. De tudo o que ele v\u00ea, ouve, vive, colhe instintivamente a sua suma; \u00e9 um princ\u00edpio de sele\u00e7\u00e3o: muitas coisas deixa cair. Est\u00e1 sempre em sua companhia, ou ocupando-se com os livros, ou com os homens, ou com as paisagens: como discerne, como aceita, como confia, ele tamb\u00e9m honra. Reage a toda esp\u00e9cie de fascina\u00e7\u00e3o, lentamente, com aquela lentid\u00e3o que lhe ensinaram uma longa prud\u00eancia e uma soberba vol\u00fapia; examina o enlevo que ascende a ele &#8211; est\u00e1 bem longe de ir-lhe ao encontro. N\u00e3o acredita nem na \u201cdesventura\u201d nem na \u201cculpa\u201d: prev\u00ea logo qualquer coisa, consigo mesmo e com os outros, sabendo sobretudo olvidar; \u00e9 suficientemente forte para que tudo lhe redunde em benef\u00edcio pr\u00f3prio. Pois bem; eu sou o oposto de um decadente, porque descrevi a mim mesmo.\u201d<br \/>\nFriedrich Nietzsche<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\n cronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/04\/2013.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2945","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2945","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2945"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2945\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}