{"id":2952,"date":"2023-12-21T09:10:34","date_gmt":"2023-12-21T12:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-fim-dos-cinemas-de-rua-e-irreversivel-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:34","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:34","slug":"o-fim-dos-cinemas-de-rua-e-irreversivel-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-fim-dos-cinemas-de-rua-e-irreversivel-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"O FIM DOS CINEMAS DE RUA \u00c9 IRREVERS\u00cdVEL? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Soares Neto*<br \/>\nNo s\u00e9culo atual n\u00e3o se pode falar em irreversibilidade. Pode-se falar em mudan\u00e7a, muta\u00e7\u00e3o, melhoria do n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o\/cultura e responsabilidade social das pessoas. As mudan\u00e7as e muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o exponenciais, mais r\u00e1pidas do que a forma\u00e7\u00e3o de um jovem ou a sedimenta\u00e7\u00e3o da cultura em uma pessoa adulta. O amanh\u00e3 gradativamente mais tecnol\u00f3gico \u00e9 uma certeza, para o bem ou para o mal.<br \/>\nO processo de interna\u00e7\u00e3o dos cinemas em espa\u00e7os dos centros comerciais decorreu da sempre crescente viol\u00eancia nos centros e nas ruas das cidades. J\u00e1 tem cerca de 20 anos esse \u201cstart up\u201d, para falar do in\u00edcio, usando palavra da moda. De l\u00e1 para c\u00e1, as cidades ficaram mais violentas por ac\u00famulo de fatores: crescimento natural, migra\u00e7\u00e3o, defici\u00eancia de vias e de transportes p\u00fablicos, propaga\u00e7\u00e3o de zonas consagradas como pontos de venda e uso &#8211; sem medo &#8211; de drogas, camel\u00f4s, em demasia, ocupando \u00e1reas de passeio, e o fen\u00f4meno dos sem-teto, quase sempre pessoas que desistiram de suas fam\u00edlias e vidas. Ou vice-versa.<br \/>\nA ida para centros comerciais n\u00e3o foi planejada, mas consequ\u00eancia do j\u00e1 dito. Tentamos, por desafio ou estoicismo, a opera\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o de dois cinemas no centro por cinco meses. Fizemos ajustes, mexemos na decora\u00e7\u00e3o, contamos com seguran\u00e7a contratada, divulgamos e exibimos filmes de arte. Vimos, al\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o, certa ou imaginada, da inseguran\u00e7a do local, que os cin\u00e9filos, os que entendem e analisam o cinema como arte, e os \u201ccinemeiros\u201d, os que gostam apenas gostam de cinema, n\u00e3o eram em n\u00famero suficiente para garantir uma frequ\u00eancia sequer b\u00e1sica. Optamos por baixar os pre\u00e7os dos ingressos, misturar filmes de arte, em uma sala, e, em outra, com \u201cblockbusters\u201d, os de grandes produtoras e que, via de regra alcan\u00e7am bom p\u00fablico jovem e adulto. Infelizmente, n\u00e3o deu certo.<br \/>\nAinda hoje, muita gente reclama que h\u00e1 poucos filmes de arte em exibi\u00e7\u00e3o, mas a culpa \u00e9, al\u00e9m da n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico, da baixa bilheteira, dos custos elevados com o pagamento \u00e0s distribuidoras, do problema do Ecad, vigilante escrit\u00f3rio de arrecada\u00e7\u00e3o, das obriga\u00e7\u00f5es sociais e dos impostos pagos.<br \/>\nCinemas, como elemento auxiliar da educa\u00e7\u00e3o e cultura, deveriam ser isentos de ISS e outros impostos, para poder formar p\u00fablico. A exist\u00eancia indiscriminada da meia-entrada ainda \u00e9 permissiva, pois a maioria das pessoas consegue uma identidade escolar, sem estudar regularmente. As distribuidoras imp\u00f5em a perman\u00eancia dos filmes mesmo quando eles n\u00e3o t\u00eam p\u00fablicos. Os exibidores n\u00e3o t\u00eam como sair desse dilema. Afora, os meses de f\u00e9rias, os cinemas quase n\u00e3o se pagam. Grandes redes exibidoras acabaram ou minguaram.<br \/>\nO p\u00fablico exige salas melhores, mais bonitas, com carpetes grossos, equipamentos de ponta, mas ainda precisa aprender a ter cuidado ao us\u00e1-las. Aprender a n\u00e3o sujar, n\u00e3o cortar poltronas ou colar goma de mascar, n\u00e3o colocar os p\u00e9s\/sapatos por cima da fila da frente, e n\u00e3o derramar l\u00edquidos de refrigerantes ou comidas no ch\u00e3o. Todos os cinemas t\u00eam lixeiras que deveriam ser bem usadas pelos espectadores, mas s\u00e3o poucos os que assim agem. Quer saber da educa\u00e7\u00e3o do espectador veja uma sala de cinema logo depois da proje\u00e7\u00e3o. Os intervalos s\u00e3o maiores por conta da sujeira deixada.<br \/>\nVoltando ao assunto inicial, se algum dia o Brasil aumentar significativamente o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano, gerando massa cr\u00edtica, melhorar o n\u00edvel m\u00e9dio efetivo de renda da popula\u00e7\u00e3o e motivar uma seguran\u00e7a p\u00fablica guardi\u00e3 e eficaz, os cinemas voltar\u00e3o, naturalmente, aos centros e \u00e0s ruas dos bairros das cidades.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto foi s\u00f3cio do Clube de Cinema e \u00e9 cinemeiro, desde adolescente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/05\/2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Soares Neto*<br \/>\nNo s\u00e9culo atual n\u00e3o se pode falar em irreversibilidade. Pode-se falar em mudan\u00e7a, muta\u00e7\u00e3o, melhoria do n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o\/cultura e responsabilidade social das pessoas. As mudan\u00e7as e muta\u00e7\u00f5es s\u00e3o exponenciais, mais r\u00e1pidas do que a forma\u00e7\u00e3o de um jovem ou a sedimenta\u00e7\u00e3o da cultura em uma pessoa adulta. O amanh\u00e3 gradativamente mais tecnol\u00f3gico \u00e9 uma certeza, para o bem ou para o mal.<br \/>\nO processo de interna\u00e7\u00e3o dos cinemas em espa\u00e7os dos centros comerciais decorreu da sempre crescente viol\u00eancia nos centros e nas ruas das cidades. J\u00e1 tem cerca de 20 anos esse \u201cstart up\u201d, para falar do in\u00edcio, usando palavra da moda. De l\u00e1 para c\u00e1, as cidades ficaram mais violentas por ac\u00famulo de fatores: crescimento natural, migra\u00e7\u00e3o, defici\u00eancia de vias e de transportes p\u00fablicos, propaga\u00e7\u00e3o de zonas consagradas como pontos de venda e uso &#8211; sem medo &#8211; de drogas, camel\u00f4s, em demasia, ocupando \u00e1reas de passeio, e o fen\u00f4meno dos sem-teto, quase sempre pessoas que desistiram de suas fam\u00edlias e vidas. Ou vice-versa.<br \/>\nA ida para centros comerciais n\u00e3o foi planejada, mas consequ\u00eancia do j\u00e1 dito. Tentamos, por desafio ou estoicismo, a opera\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o de dois cinemas no centro por cinco meses. Fizemos ajustes, mexemos na decora\u00e7\u00e3o, contamos com seguran\u00e7a contratada, divulgamos e exibimos filmes de arte. Vimos, al\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o, certa ou imaginada, da inseguran\u00e7a do local, que os cin\u00e9filos, os que entendem e analisam o cinema como arte, e os \u201ccinemeiros\u201d, os que gostam apenas gostam de cinema, n\u00e3o eram em n\u00famero suficiente para garantir uma frequ\u00eancia sequer b\u00e1sica. Optamos por baixar os pre\u00e7os dos ingressos, misturar filmes de arte, em uma sala, e, em outra, com \u201cblockbusters\u201d, os de grandes produtoras e que, via de regra alcan\u00e7am bom p\u00fablico jovem e adulto. Infelizmente, n\u00e3o deu certo.<br \/>\nAinda hoje, muita gente reclama que h\u00e1 poucos filmes de arte em exibi\u00e7\u00e3o, mas a culpa \u00e9, al\u00e9m da n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o de p\u00fablico, da baixa bilheteira, dos custos elevados com o pagamento \u00e0s distribuidoras, do problema do Ecad, vigilante escrit\u00f3rio de arrecada\u00e7\u00e3o, das obriga\u00e7\u00f5es sociais e dos impostos pagos.<br \/>\nCinemas, como elemento auxiliar da educa\u00e7\u00e3o e cultura, deveriam ser isentos de ISS e outros impostos, para poder formar p\u00fablico. A exist\u00eancia indiscriminada da meia-entrada ainda \u00e9 permissiva, pois a maioria das pessoas consegue uma identidade escolar, sem estudar regularmente. As distribuidoras imp\u00f5em a perman\u00eancia dos filmes mesmo quando eles n\u00e3o t\u00eam p\u00fablicos. Os exibidores n\u00e3o t\u00eam como sair desse dilema. Afora, os meses de f\u00e9rias, os cinemas quase n\u00e3o se pagam. Grandes redes exibidoras acabaram ou minguaram.<br \/>\nO p\u00fablico exige salas melhores, mais bonitas, com carpetes grossos, equipamentos de ponta, mas ainda precisa aprender a ter cuidado ao us\u00e1-las. Aprender a n\u00e3o sujar, n\u00e3o cortar poltronas ou colar goma de mascar, n\u00e3o colocar os p\u00e9s\/sapatos por cima da fila da frente, e n\u00e3o derramar l\u00edquidos de refrigerantes ou comidas no ch\u00e3o. Todos os cinemas t\u00eam lixeiras que deveriam ser bem usadas pelos espectadores, mas s\u00e3o poucos os que assim agem. Quer saber da educa\u00e7\u00e3o do espectador veja uma sala de cinema logo depois da proje\u00e7\u00e3o. Os intervalos s\u00e3o maiores por conta da sujeira deixada.<br \/>\nVoltando ao assunto inicial, se algum dia o Brasil aumentar significativamente o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano, gerando massa cr\u00edtica, melhorar o n\u00edvel m\u00e9dio efetivo de renda da popula\u00e7\u00e3o e motivar uma seguran\u00e7a p\u00fablica guardi\u00e3 e eficaz, os cinemas voltar\u00e3o, naturalmente, aos centros e \u00e0s ruas dos bairros das cidades.<br \/>\nJo\u00e3o Soares Neto foi s\u00f3cio do Clube de Cinema e \u00e9 cinemeiro, desde adolescente.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 24\/05\/2013.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2952","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}