{"id":2968,"date":"2023-12-21T09:10:34","date_gmt":"2023-12-21T12:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/claudio-benevides-pamplona-o-astronomo-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:34","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:34","slug":"claudio-benevides-pamplona-o-astronomo-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/claudio-benevides-pamplona-o-astronomo-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CLAUDIO BENEVIDES PAMPLONA, O ASTR\u00d4NOMO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>As fam\u00edlias Benevides e Pamplona integram a coletividade cearense h\u00e1 s\u00e9culos. T\u00eam muitos ramos. Entrela\u00e7ados com outros da terra, j\u00e1 ofereceram contribui\u00e7\u00f5es definitivas para as suas inser\u00e7\u00f5es no livro da hist\u00f3ria local. Pol\u00edticos, profissionais liberais, cantores, administradores p\u00fablicos, professores universit\u00e1rios, intelectuais e artistas pl\u00e1sticos. N\u00e3o \u00e9 preciso nomin\u00e1-los, basta pesquisar pouco para encontr\u00e1-los nas a\u00e7\u00f5es que deram forma ao Estado do Cear\u00e1, tal como hoje o \u00e9.<br \/>\nFilho de Carlos Pamplona e Miriam Benevides, Cl\u00e1udio Benevides Pamplona nasceu em Fortaleza, cidade brejeira da d\u00e9cada de quarenta, cheia de f\u00edcus-benjamim, centrada na Pra\u00e7a do Ferreira, em meio a \u201cblackouts\u201d nos areais brancos onde as fam\u00edlias de ent\u00e3o faziam florescer aglomerados ou bairros, em quadril\u00e1teros, ilumina\u00e7\u00e3o bruxuleante, sem saneamento b\u00e1sico, consumindo \u00e1gua da \u201cPirocaia\u201d, transportada em carro\u00e7as puxadas por jumentos.<br \/>\nFortaleza era ocupada, desde o Pici (\u201cPost of Command\u201d) at\u00e9 os areais da Praia da Iracema, por for\u00e7as americanas do norte que faziam dela uma base militar de jovens pilotos &#8211; com o suprimento de uma intend\u00eancia cheia das cobi\u00e7adas sodas Coca-Cola e dos cigarros \u201cCamel\u201d e \u201dLucky Strike\u201d. Vieram para \u201cflertar\u201dcom as mo\u00e7oilas locais, atravessar o oceano Atl\u00e2ntico e alcan\u00e7ar o teatro de opera\u00e7\u00f5es da Segunda Guerra na Europa, um dos seus fulcros.<br \/>\nCl\u00e1udio come\u00e7ou a estudar j\u00e1 na \u00e9poca da redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira, ap\u00f3s a Guerra e a queda da ditadura de Vargas, e, descobriu-se talentoso em desenho (lado Pamplona) e canto orfe\u00f4nico (lado Benevides). Mas formou-se em direito, j\u00e1 nos anos ditos de chumbo, quando o pa\u00eds estava imerso no regime militar. Bacharel em Direito, bar\u00edtono, como muitos dos seus primos Benevides, cabe\u00e7a apenas polvilhada de ci\u00eancias sociais, deu uma guinada em seu destino e optou por dissentir do que se esperava dele.<br \/>\nN\u00e3o seria advogado. Viu-se encantado com o mundo silencioso dos astros. Fez-se, apesar disso, professor da Universidade Estadual do Cear\u00e1, pois se casara e tinha obriga\u00e7\u00f5es a cumprir com o filho Carlos Neto que colocara no mundo. Mas seu lado perquiridor, inquieto e sagaz o fazia olhar mais para o firmamento que para o ch\u00e3o onde pisava. N\u00e3o pesquisava divindades ou respostas para as afli\u00e7\u00f5es humanas, existenciais ou clim\u00e1ticas de nossa regi\u00e3o. Olhava, com a ajuda de lentes telesc\u00f3picas, bem mais alto e procurava, como se fora quase um Carl Sagan, aquilo que foge ao olho comum.<br \/>\nFoi, pouco a pouco, embrenhando-se nas nuvens sem fim da Astronomia, ci\u00eancia natural que tenta desvendar, constatar ou renegar corpos celestes. Munido de telesc\u00f3pios, livros, desenhos e de uma busca desenfreada para o conhecimento da Astrof\u00edsica, coligindo nebulosas, aglomerados de estrelas, planetas e gal\u00e1xias fez-se cientista.<br \/>\nCriou o seu pr\u00f3prio observat\u00f3rio a que deu o nome de Herschel-Einstein. Ajudou a fundar a Sociedade Cearense de Astronomia e at\u00e9 a NASA (National Air Space Administration) dele coletou informa\u00e7\u00f5es sobre o universo azul que nos envolve a todos. Nesse seu mundo, fez a imers\u00e3o com o escafandro da curiosidade e a luneta do sereno-intrigado, a procurar respostas certeiras para dar sentido \u00e0 sua vida peculiar e inaudita.<br \/>\nN\u00e3o queria ser diletante, mas observador integrado a uma comunidade cient\u00edfico-especuladora internacional que pode at\u00e9 parecer, aos olhos dos leigos, uma grei de esquisitos, pois n\u00e3o liga para as picuinhas dos homens comuns, os que brigam por p\u00e3o, peda\u00e7os de terra, reconhecimento ou riqueza sem ter a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o da grandeza do universo em expans\u00e3o e movimento. Somos todos t\u00e3o m\u00ednimos, micros, nanos e o Cl\u00e1udio sabia disso e ele, mesmo sem o querer, se fez grande pela contribui\u00e7\u00e3o ao seu mundo que deu at\u00e9 se finar, no primeiro dia deste julho, aos 70 anos.<br \/>\nReleio Sir Issac Newton, cientista ingl\u00eas, do s\u00e9culo 18, citado por Brewster, in \u201cMemoirs of Newton\u201d, para entender e descrever o que se passa na cabe\u00e7a de um cientista: \u201cN\u00e3o sei como pare\u00e7o aos olhos do mundo, mas eu mesmo me vejo como um pobre menino que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha mais lisa vez por outra, ou uma concha mais bonita que de costume, enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante de mim\u201d.<br \/>\nCl\u00e1udio, a seu tempo, buscava o grande oceano, que \u00e9 o firmamento, e as pedrinhas, que s\u00e3o os seus corpos celestes. Suas cinzas evolaram e se misturaram ao cosmos. Sua ascens\u00e3o ao insond\u00e1vel foi cercada por manchas solares, meteoros, cometas e estrelas. Esses corpos celestes foram os seus querubins.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\n cronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/07\/2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As fam\u00edlias Benevides e Pamplona integram a coletividade cearense h\u00e1 s\u00e9culos. T\u00eam muitos ramos. Entrela\u00e7ados com outros da terra, j\u00e1 ofereceram contribui\u00e7\u00f5es definitivas para as suas inser\u00e7\u00f5es no livro da hist\u00f3ria local. Pol\u00edticos, profissionais liberais, cantores, administradores p\u00fablicos, professores universit\u00e1rios, intelectuais e artistas pl\u00e1sticos. N\u00e3o \u00e9 preciso nomin\u00e1-los, basta pesquisar pouco para encontr\u00e1-los nas a\u00e7\u00f5es que deram forma ao Estado do Cear\u00e1, tal como hoje o \u00e9.<br \/>\nFilho de Carlos Pamplona e Miriam Benevides, Cl\u00e1udio Benevides Pamplona nasceu em Fortaleza, cidade brejeira da d\u00e9cada de quarenta, cheia de f\u00edcus-benjamim, centrada na Pra\u00e7a do Ferreira, em meio a \u201cblackouts\u201d nos areais brancos onde as fam\u00edlias de ent\u00e3o faziam florescer aglomerados ou bairros, em quadril\u00e1teros, ilumina\u00e7\u00e3o bruxuleante, sem saneamento b\u00e1sico, consumindo \u00e1gua da \u201cPirocaia\u201d, transportada em carro\u00e7as puxadas por jumentos.<br \/>\nFortaleza era ocupada, desde o Pici (\u201cPost of Command\u201d) at\u00e9 os areais da Praia da Iracema, por for\u00e7as americanas do norte que faziam dela uma base militar de jovens pilotos &#8211; com o suprimento de uma intend\u00eancia cheia das cobi\u00e7adas sodas Coca-Cola e dos cigarros \u201cCamel\u201d e \u201dLucky Strike\u201d. Vieram para \u201cflertar\u201dcom as mo\u00e7oilas locais, atravessar o oceano Atl\u00e2ntico e alcan\u00e7ar o teatro de opera\u00e7\u00f5es da Segunda Guerra na Europa, um dos seus fulcros.<br \/>\nCl\u00e1udio come\u00e7ou a estudar j\u00e1 na \u00e9poca da redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira, ap\u00f3s a Guerra e a queda da ditadura de Vargas, e, descobriu-se talentoso em desenho (lado Pamplona) e canto orfe\u00f4nico (lado Benevides). Mas formou-se em direito, j\u00e1 nos anos ditos de chumbo, quando o pa\u00eds estava imerso no regime militar. Bacharel em Direito, bar\u00edtono, como muitos dos seus primos Benevides, cabe\u00e7a apenas polvilhada de ci\u00eancias sociais, deu uma guinada em seu destino e optou por dissentir do que se esperava dele.<br \/>\nN\u00e3o seria advogado. Viu-se encantado com o mundo silencioso dos astros. Fez-se, apesar disso, professor da Universidade Estadual do Cear\u00e1, pois se casara e tinha obriga\u00e7\u00f5es a cumprir com o filho Carlos Neto que colocara no mundo. Mas seu lado perquiridor, inquieto e sagaz o fazia olhar mais para o firmamento que para o ch\u00e3o onde pisava. N\u00e3o pesquisava divindades ou respostas para as afli\u00e7\u00f5es humanas, existenciais ou clim\u00e1ticas de nossa regi\u00e3o. Olhava, com a ajuda de lentes telesc\u00f3picas, bem mais alto e procurava, como se fora quase um Carl Sagan, aquilo que foge ao olho comum.<br \/>\nFoi, pouco a pouco, embrenhando-se nas nuvens sem fim da Astronomia, ci\u00eancia natural que tenta desvendar, constatar ou renegar corpos celestes. Munido de telesc\u00f3pios, livros, desenhos e de uma busca desenfreada para o conhecimento da Astrof\u00edsica, coligindo nebulosas, aglomerados de estrelas, planetas e gal\u00e1xias fez-se cientista.<br \/>\nCriou o seu pr\u00f3prio observat\u00f3rio a que deu o nome de Herschel-Einstein. Ajudou a fundar a Sociedade Cearense de Astronomia e at\u00e9 a NASA (National Air Space Administration) dele coletou informa\u00e7\u00f5es sobre o universo azul que nos envolve a todos. Nesse seu mundo, fez a imers\u00e3o com o escafandro da curiosidade e a luneta do sereno-intrigado, a procurar respostas certeiras para dar sentido \u00e0 sua vida peculiar e inaudita.<br \/>\nN\u00e3o queria ser diletante, mas observador integrado a uma comunidade cient\u00edfico-especuladora internacional que pode at\u00e9 parecer, aos olhos dos leigos, uma grei de esquisitos, pois n\u00e3o liga para as picuinhas dos homens comuns, os que brigam por p\u00e3o, peda\u00e7os de terra, reconhecimento ou riqueza sem ter a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o da grandeza do universo em expans\u00e3o e movimento. Somos todos t\u00e3o m\u00ednimos, micros, nanos e o Cl\u00e1udio sabia disso e ele, mesmo sem o querer, se fez grande pela contribui\u00e7\u00e3o ao seu mundo que deu at\u00e9 se finar, no primeiro dia deste julho, aos 70 anos.<br \/>\nReleio Sir Issac Newton, cientista ingl\u00eas, do s\u00e9culo 18, citado por Brewster, in \u201cMemoirs of Newton\u201d, para entender e descrever o que se passa na cabe\u00e7a de um cientista: \u201cN\u00e3o sei como pare\u00e7o aos olhos do mundo, mas eu mesmo me vejo como um pobre menino que brincava na praia e se divertia em encontrar uma pedrinha mais lisa vez por outra, ou uma concha mais bonita que de costume, enquanto o grande oceano da verdade se estendia totalmente inexplorado diante de mim\u201d.<br \/>\nCl\u00e1udio, a seu tempo, buscava o grande oceano, que \u00e9 o firmamento, e as pedrinhas, que s\u00e3o os seus corpos celestes. Suas cinzas evolaram e se misturaram ao cosmos. Sua ascens\u00e3o ao insond\u00e1vel foi cercada por manchas solares, meteoros, cometas e estrelas. Esses corpos celestes foram os seus querubins.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\n cronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/07\/2013.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2968","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2968"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2968\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}