{"id":2992,"date":"2023-12-21T09:10:35","date_gmt":"2023-12-21T12:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/meninos-e-criancas-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:35","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:35","slug":"meninos-e-criancas-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/meninos-e-criancas-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"MENINOS E CRIAN\u00c7AS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cQuando menino, eu tinha de me calar, \u00e0 mesa: s\u00f3 as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crian\u00e7as falarem\u201d. M\u00e1rio Quintana<br \/>\nAgora que o Dia da Crian\u00e7a passou, posso dizer o que penso. No s\u00e9culo passado, \u00e9ramos meninos e meninas. Agora, s\u00e3o crian\u00e7as. Coisa de g\u00eanero? Ou a palavra menino(a) ficou velha? Sou o mais velho de nove irm\u00e3os. Escadinha. Primeiro, vieram tr\u00eas meninos. Depois, quatro meninas. Fim de rama, mais dois meninos. Mesa grande na sala de jantar, camas \u201cpatente\u201d nos quartos. Dinheiro contado. Uma antiga empregada fixa. Tias solteiras ajudavam a Margarida, a m\u00e3e, hoje, aos 94, ainda dando car\u00e3o em todos. Aos cinco anos, o meu pai, uma tia, eu e outro irm\u00e3o, tivemos paratifo. As \u00e1guas, eram de po\u00e7o instant\u00e2neo e s\u00f3 havia, quando havia, fossa-sumidouro. A penicilina nos salvou. Fortaleza quase n\u00e3o tinha rede de abastecimento de \u00e1gua e esgoto.<br \/>\nBrinc\u00e1vamos com bilas, arraias, bola, veloc\u00edpede, baladeiras, carrinhos com rolamentos usados, varas de pescar, tri\u00e2ngulo, bonecas de pano e raras de pl\u00e1stico. Aulas de refor\u00e7o com a tia Julinha. Um caqu\u00e9tico piano Pleyel na sala e nenhum virou Jacques Klein.<br \/>\nAo acordar: banho, abacatada ou bananada, caf\u00e9-com-leite, p\u00e3o com manteiga. Lev\u00e1vamos merenda para os col\u00e9gios e nada de mesada. Ao mais velho cumpria dar exemplo. \u00cdamos \u00e0s missas, ao futebol no PV, aos circos, \u00e0s feiras, rinhas de can\u00e1rio e a cinemas no centro; uma casa de pescador, comprada na n\u00e3o ainda avenida beira mar, servia para as f\u00e9rias. Ou sub\u00edamos \u00e0 Serra de Maranguape para as mordidas dos borrachudos.<br \/>\nE a\u00ed veio a TV com o seu desmundo. Escapamos. Nenhum se destrambelhou. Defeitos, temos v\u00e1rios. Somos pais-av\u00f3s, mundo afora. Agora, Dia da Crian\u00e7a j\u00e1 passado, alvitrei: que tal cada um dos leitores, a seu tempo e modo, observar como e porque florescem falsos \u2013 ou reais- enigmas e vontades em parte das crian\u00e7as de hoje em eternas compara\u00e7\u00f5es com as outras, independente das suas classes sociais? <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/10\/2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuando menino, eu tinha de me calar, \u00e0 mesa: s\u00f3 as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crian\u00e7as falarem\u201d. M\u00e1rio Quintana<br \/>\nAgora que o Dia da Crian\u00e7a passou, posso dizer o que penso. No s\u00e9culo passado, \u00e9ramos meninos e meninas. Agora, s\u00e3o crian\u00e7as. Coisa de g\u00eanero? Ou a palavra menino(a) ficou velha? Sou o mais velho de nove irm\u00e3os. Escadinha. Primeiro, vieram tr\u00eas meninos. Depois, quatro meninas. Fim de rama, mais dois meninos. Mesa grande na sala de jantar, camas \u201cpatente\u201d nos quartos. Dinheiro contado. Uma antiga empregada fixa. Tias solteiras ajudavam a Margarida, a m\u00e3e, hoje, aos 94, ainda dando car\u00e3o em todos. Aos cinco anos, o meu pai, uma tia, eu e outro irm\u00e3o, tivemos paratifo. As \u00e1guas, eram de po\u00e7o instant\u00e2neo e s\u00f3 havia, quando havia, fossa-sumidouro. A penicilina nos salvou. Fortaleza quase n\u00e3o tinha rede de abastecimento de \u00e1gua e esgoto.<br \/>\nBrinc\u00e1vamos com bilas, arraias, bola, veloc\u00edpede, baladeiras, carrinhos com rolamentos usados, varas de pescar, tri\u00e2ngulo, bonecas de pano e raras de pl\u00e1stico. Aulas de refor\u00e7o com a tia Julinha. Um caqu\u00e9tico piano Pleyel na sala e nenhum virou Jacques Klein.<br \/>\nAo acordar: banho, abacatada ou bananada, caf\u00e9-com-leite, p\u00e3o com manteiga. Lev\u00e1vamos merenda para os col\u00e9gios e nada de mesada. Ao mais velho cumpria dar exemplo. \u00cdamos \u00e0s missas, ao futebol no PV, aos circos, \u00e0s feiras, rinhas de can\u00e1rio e a cinemas no centro; uma casa de pescador, comprada na n\u00e3o ainda avenida beira mar, servia para as f\u00e9rias. Ou sub\u00edamos \u00e0 Serra de Maranguape para as mordidas dos borrachudos.<br \/>\nE a\u00ed veio a TV com o seu desmundo. Escapamos. Nenhum se destrambelhou. Defeitos, temos v\u00e1rios. Somos pais-av\u00f3s, mundo afora. Agora, Dia da Crian\u00e7a j\u00e1 passado, alvitrei: que tal cada um dos leitores, a seu tempo e modo, observar como e porque florescem falsos \u2013 ou reais- enigmas e vontades em parte das crian\u00e7as de hoje em eternas compara\u00e7\u00f5es com as outras, independente das suas classes sociais? <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/10\/2013<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-2992","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2992","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2992"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2992\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2992"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2992"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2992"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}