{"id":3002,"date":"2023-12-21T09:10:35","date_gmt":"2023-12-21T12:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/futebol-e-coracao-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:35","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:35","slug":"futebol-e-coracao-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/futebol-e-coracao-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"FUTEBOL E CORA\u00c7\u00c3O &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>O futebol n\u00e3o \u00e9 uma caixa de surpresas.<br \/>\nNada tenho de Nelson Rodrigues, \u00f3bvio. A paix\u00e3o pelo futebol, um dos muitos temas de seus escritos, \u00e9 uma constante desse intelectual polimorfo. Nelson, pernambucano feito carioca, soube dizer tudo, de forma clarificada. Falou de traves, chuteiras, jogadores, t\u00e9cnico, gramado, cartolas e torcedores.<br \/>\nHoje, ao meu olhar, dois nomes despontam no Brasil na boa escrita\/cr\u00f4nica esportiva &#8211; sem falar nos da terra de Alencar, por pudor e amizade. Refiro-me a Tost\u00e3o e Xico S\u00e1. Tost\u00e3o, o grande atleta mineiro da sele\u00e7\u00e3o brasileira, ao tempo em que os craques ainda n\u00e3o eram \u201ccommodities\u201d (mercadorias) de exporta\u00e7\u00e3o. M\u00e9dico, ap\u00f3s ser jogador, tornou-se articulista profundo da arte e das mazelas do futebol. Xico S\u00e1, jornalista cearense que torce pelos times pernambucanos e quase nada fala dos nossos sofr\u00edveis do futebol local. Desculpo, ele foi jovem para a mauriceia. S\u00e3o bons, cada um do seu jeito.<br \/>\nO fato \u00e9 que, mesmo maduro, ainda corre em mim o sangue do menino que viu o Fortaleza sair dos desv\u00e3os da \u00e1rea marginal \u00e0 esquerda da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, onde residia o t\u00e9cnico \u201cGavi\u00e3o, para a sede adquirida na Rua J\u00falio C\u00e9sar, no Benfica, perto do Est\u00e1dio Presidente Vargas, por meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, ent\u00e3o presidente do \u201ctricolor\u201d.<br \/>\nO Fortaleza completou 95 anos de fundado e parece cativo na Terceira Divis\u00e3o do futebol brasileiro. Vacila quando parece que vai subir. Desclassificou-se, neste 2013, por desamor dos atletas e de t\u00e9cnicos mambembes. Onde j\u00e1 se viu time de ra\u00e7a, na frente do placar, levar um gol nos minutos da prorroga\u00e7\u00e3o? Lembro Mo\u00e9sio, Mozart, Sapenha e tantos outros e sei o que eles fariam: discutiriam o tempo \u2013 ganhando-o &#8211; com o \u00e1rbitro, cairiam em campo, iriam para frente, chutariam para as arquibancadas, mas n\u00e3o sairiam sem a vit\u00f3ria.<br \/>\nHoje, os clubes locais importam comiss\u00f5es t\u00e9cnicas de segunda que indicam jogadores de suas prefer\u00eancias e esquecem os que vieram da base, das peneiras dos sub\u00farbios, e amam as cores que vestem. Ederson, nascido em Pentecoste, foi da base do Cear\u00e1, saiu, e hoje, aos 24 anos, \u00e9 o artilheiro do campeonato do Brasileiro A, pelo Atl\u00e9tico do Paran\u00e1.<br \/>\nO Fortaleza, o Cear\u00e1 e o Icasa parecem estar na contram\u00e3o do que se deve fazer quando os recursos s\u00e3o escassos para administrar a forma\u00e7\u00e3o de bons times. Os benem\u00e9ritos se foram. Os dirigentes atuais precisam conhecer a hist\u00f3ria do nosso futebol para chegar ao hoje. Devem descobrir e at\u00e9 inventar talentos, mexer com a autoestima dos peladeiros que querem ser um Neymar. Conversem e contratem, sem menosprezo, t\u00e9cnicos da terra (eles fazem milagres, sem falas vencidas, com equipes singelas por a\u00ed afora. O Sampaio Correia que o diga), n\u00e3o misturem jovens promissores com jogadores \u201crodados\u201d, sem vincula\u00e7\u00e3o afetiva com o clube e respeito \u00e0 torcida. Que altivez podem ter jogadores com \u201cempres\u00e1rios\u201d a mudar de camisa todos os anos?<br \/>\nOs 55 mil torcedores do Fortaleza que formaram, at\u00e9 hoje, o maior p\u00fablico do novo Castel\u00e3o, superior at\u00e9 aos dos jogos da sele\u00e7\u00e3o brasileira na Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, mereciam um time com mais brio. Quando o jogo findou, o meu cora\u00e7\u00e3o pulsava descompassado. A press\u00e3o arterial chegou aos 18. Era, de novo, menino. E foi ele quem me salvou do infarto.<br \/>\nEm tempo: deixei este escrito no aguardo. Esperei que o Cear\u00e1 e o Icasa chegassem \u00e0 s\u00e9rie A, mas, tais como o Fortaleza, perderam na hora em que n\u00e3o podiam. Escrevo antes da \u00faltima rodada da \u201cSegundona\u201d. Prefiro estar errado e que um dos dois consiga o milagre de subir.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29\/11\/2013.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O futebol n\u00e3o \u00e9 uma caixa de surpresas.<br \/>\nNada tenho de Nelson Rodrigues, \u00f3bvio. A paix\u00e3o pelo futebol, um dos muitos temas de seus escritos, \u00e9 uma constante desse intelectual polimorfo. Nelson, pernambucano feito carioca, soube dizer tudo, de forma clarificada. Falou de traves, chuteiras, jogadores, t\u00e9cnico, gramado, cartolas e torcedores.<br \/>\nHoje, ao meu olhar, dois nomes despontam no Brasil na boa escrita\/cr\u00f4nica esportiva &#8211; sem falar nos da terra de Alencar, por pudor e amizade. Refiro-me a Tost\u00e3o e Xico S\u00e1. Tost\u00e3o, o grande atleta mineiro da sele\u00e7\u00e3o brasileira, ao tempo em que os craques ainda n\u00e3o eram \u201ccommodities\u201d (mercadorias) de exporta\u00e7\u00e3o. M\u00e9dico, ap\u00f3s ser jogador, tornou-se articulista profundo da arte e das mazelas do futebol. Xico S\u00e1, jornalista cearense que torce pelos times pernambucanos e quase nada fala dos nossos sofr\u00edveis do futebol local. Desculpo, ele foi jovem para a mauriceia. S\u00e3o bons, cada um do seu jeito.<br \/>\nO fato \u00e9 que, mesmo maduro, ainda corre em mim o sangue do menino que viu o Fortaleza sair dos desv\u00e3os da \u00e1rea marginal \u00e0 esquerda da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, onde residia o t\u00e9cnico \u201cGavi\u00e3o, para a sede adquirida na Rua J\u00falio C\u00e9sar, no Benfica, perto do Est\u00e1dio Presidente Vargas, por meu pai, Francisco Bezerra de Oliveira, ent\u00e3o presidente do \u201ctricolor\u201d.<br \/>\nO Fortaleza completou 95 anos de fundado e parece cativo na Terceira Divis\u00e3o do futebol brasileiro. Vacila quando parece que vai subir. Desclassificou-se, neste 2013, por desamor dos atletas e de t\u00e9cnicos mambembes. Onde j\u00e1 se viu time de ra\u00e7a, na frente do placar, levar um gol nos minutos da prorroga\u00e7\u00e3o? Lembro Mo\u00e9sio, Mozart, Sapenha e tantos outros e sei o que eles fariam: discutiriam o tempo \u2013 ganhando-o &#8211; com o \u00e1rbitro, cairiam em campo, iriam para frente, chutariam para as arquibancadas, mas n\u00e3o sairiam sem a vit\u00f3ria.<br \/>\nHoje, os clubes locais importam comiss\u00f5es t\u00e9cnicas de segunda que indicam jogadores de suas prefer\u00eancias e esquecem os que vieram da base, das peneiras dos sub\u00farbios, e amam as cores que vestem. Ederson, nascido em Pentecoste, foi da base do Cear\u00e1, saiu, e hoje, aos 24 anos, \u00e9 o artilheiro do campeonato do Brasileiro A, pelo Atl\u00e9tico do Paran\u00e1.<br \/>\nO Fortaleza, o Cear\u00e1 e o Icasa parecem estar na contram\u00e3o do que se deve fazer quando os recursos s\u00e3o escassos para administrar a forma\u00e7\u00e3o de bons times. Os benem\u00e9ritos se foram. Os dirigentes atuais precisam conhecer a hist\u00f3ria do nosso futebol para chegar ao hoje. Devem descobrir e at\u00e9 inventar talentos, mexer com a autoestima dos peladeiros que querem ser um Neymar. Conversem e contratem, sem menosprezo, t\u00e9cnicos da terra (eles fazem milagres, sem falas vencidas, com equipes singelas por a\u00ed afora. O Sampaio Correia que o diga), n\u00e3o misturem jovens promissores com jogadores \u201crodados\u201d, sem vincula\u00e7\u00e3o afetiva com o clube e respeito \u00e0 torcida. Que altivez podem ter jogadores com \u201cempres\u00e1rios\u201d a mudar de camisa todos os anos?<br \/>\nOs 55 mil torcedores do Fortaleza que formaram, at\u00e9 hoje, o maior p\u00fablico do novo Castel\u00e3o, superior at\u00e9 aos dos jogos da sele\u00e7\u00e3o brasileira na Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, mereciam um time com mais brio. Quando o jogo findou, o meu cora\u00e7\u00e3o pulsava descompassado. A press\u00e3o arterial chegou aos 18. Era, de novo, menino. E foi ele quem me salvou do infarto.<br \/>\nEm tempo: deixei este escrito no aguardo. 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Prefiro estar errado e que um dos dois consiga o milagre de subir.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29\/11\/2013.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3002","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3002","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3002"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3002\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}