{"id":3032,"date":"2023-12-21T09:10:36","date_gmt":"2023-12-21T12:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/intervencoes-para-o-futuro-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:36","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:36","slug":"intervencoes-para-o-futuro-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/intervencoes-para-o-futuro-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"INTERVEN\u00c7\u00d5ES PARA O FUTURO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Convivo com arquitetos h\u00e1 d\u00e9cadas. No come\u00e7o da minha vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um \u201cnicho\u201d de mercado na \u00e1rea de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Arag\u00e3o, Juremir Braga, Jorge Neves, Maria Clara Nogueira Paes Caminha e, posteriormente, Andr\u00e9 Steindorfer. Juntos com profissionais de outras \u00e1reas passamos a trabalhar o caos. \u00c9 claro que as nossas interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o tiveram a ousadia de um Napole\u00e3o III que modificou no s\u00e9culo XIX- com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos &#8211; a fei\u00e7\u00e3o urbana da Cidade Luz.<br \/>\nO arquiteto deve ter uma antevis\u00e3o do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espa\u00e7o urbano onde interv\u00e9m. N\u00e3o estou cogitando do arquiteto como mero criador de habita\u00e7\u00f5es uni ou plurifamiliares, mas com a fun\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de urbanista quando a singeleza de meros tra\u00e7os define o que se pretende no processo de interven\u00e7\u00e3o no tecido da cidade, deixando exposto para o julgamento de terceiros a sua genialidade ou uma mera coopta\u00e7\u00e3o com os desejos e o perfil ideol\u00f3gico dos governantes, a quem presta servi\u00e7os.<br \/>\nAlgu\u00e9m, com mais bagagem urban\u00edstica do que eu, refere que Fortaleza n\u00e3o tem &#8211; salvo exce\u00e7\u00f5es &#8211; nada a preservar. Diz que as interven\u00e7\u00f5es sofridas n\u00e3o podem ser criticadas por quem n\u00e3o \u00e9 do m\u00e9tier. Discordo. O urbanismo n\u00e3o \u00e9 dogma, privil\u00e9gio ou casamata de arquitetos, por mais bem intencionados que sejam. O urbanismo comporta, por sua complexidade, uma vis\u00e3o multidisciplinar que come\u00e7a com ge\u00f3grafos, ecologistas, ge\u00f3logos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para c\u00e1lculos de viabilidade, administradores para ajust\u00e1-lo \u00e0 realidade e advogados para ajustar\/criar as legisla\u00e7\u00f5es de \u00e1reas a serem preservadas, desapropriadas e renovadas.<br \/>\nFortaleza, at\u00e9 os anos 60, n\u00e3o havia descoberto o mar. A vis\u00e3o recente da orla mar\u00edtima; seu uso indiscriminado com a prolifera\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios de alto porte; a mix\u00f3rdia de grandes barracas de toda natureza tal qual uma babel; os projetos da ba\u00eda de lracema e o reordenamento da Av. Beira Mar(trecho Ideal \u2013 Iate), a implanta\u00e7\u00e3o dos Ve\u00edculos Leves sobre Trilhos \u2013 VLT de Parangaba ao Mucuripe, e a constru\u00e7\u00e3o do Aqu\u00e1rio exigem um pensar global, sem estrelismo, participa\u00e7\u00e3o popular e uma coordena\u00e7\u00e3o l\u00facida \u2013 e n\u00e3o autoimposta &#8211; que possa emergir no decorrer das discuss\u00f5es.<br \/>\nTudo isso tem a ver n\u00e3o somente com as m\u00ednimas ou grandes interven\u00e7\u00f5es que Fortaleza precisa e deve sofrer para a Copa de Futebol de 2014, mas para encorajar a Prefeitura e o Estado a abrirem discuss\u00f5es mais profundas sobre o que fazem e o que ainda pretendem fazer. As intrigas, por exemplo, criadas com as liga\u00e7\u00f5es domiciliares e a expans\u00e3o das redes de \u00e1gua e esgoto e o recapeamento asf\u00e1ltico s\u00e3o provas de incoer\u00eancia ou falta de esp\u00edrito p\u00fablico.<br \/>\nO importante \u00e9 que cada grande interven\u00e7\u00e3o urbana seja para a Copa ou para a cidade que n\u00e3o vai parar ap\u00f3s 2014, tenha o aval da sociedade e de t\u00e9cnicos isentos que, por enxergarem, muitas vezes, a a\u00e7\u00e3o de forma diferente, discordam, complementam, ajustam, e, por certo, enriquecem as concep\u00e7\u00f5es que s\u00e3o, quase sempre, c\u00f3pias do que j\u00e1 se fez ou se faz em outras grandes cidades do Brasil ou do exterior.<br \/>\nTomemos o exemplo de Paris. L\u00e1 as ZAC (Zone D\u2019Am\u00e9nagement Concert\u00e9) passam por todo um processo de an\u00e1lise hist\u00f3rica, social, financeira e gerencial, at\u00e9 que os urbanistas e a sociedade definam as mudan\u00e7as estruturais de uma zona de recupera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA ousadia, ponto basilar ou caracter\u00edstica nas interven\u00e7\u00f5es urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coer\u00eancia dos que podem e devem ajudar como agentes p\u00fablicos, profissionais ou cidad\u00e3os a definir o futuro da cidade onde moram, tomando-as belas. E por falar em beleza, \u00e9 bom lembrar S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino:\u201cAs coisas belas s\u00e3o as que agradam quando vistas. Portanto, a beleza consiste na devida propor\u00e7\u00e3o; pois os sentidos deliciam com o que pertence \u00e0 sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie, porque at\u00e9 o sentido \u00e9 uma esp\u00e9cie de raz\u00e3o &#8211; exatamente como o \u00e9 toda faculdade cognitiva\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23\/03\/2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convivo com arquitetos h\u00e1 d\u00e9cadas. No come\u00e7o da minha vida profissional verifiquei, como hoje se diz, existir um \u201cnicho\u201d de mercado na \u00e1rea de planejamento urbano em todo o Nordeste brasileiro. Reuni alguns bons nomes como Marrocos Arag\u00e3o, Juremir Braga, Jorge Neves, Maria Clara Nogueira Paes Caminha e, posteriormente, Andr\u00e9 Steindorfer. Juntos com profissionais de outras \u00e1reas passamos a trabalhar o caos. \u00c9 claro que as nossas interven\u00e7\u00f5es n\u00e3o tiveram a ousadia de um Napole\u00e3o III que modificou no s\u00e9culo XIX- com a ajuda de Georges Haussmann, prefeito de Paris por 17 anos &#8211; a fei\u00e7\u00e3o urbana da Cidade Luz.<br \/>\nO arquiteto deve ter uma antevis\u00e3o do futuro e buscar formas que se ajustem ou se contraponham ao espa\u00e7o urbano onde interv\u00e9m. N\u00e3o estou cogitando do arquiteto como mero criador de habita\u00e7\u00f5es uni ou plurifamiliares, mas com a fun\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de urbanista quando a singeleza de meros tra\u00e7os define o que se pretende no processo de interven\u00e7\u00e3o no tecido da cidade, deixando exposto para o julgamento de terceiros a sua genialidade ou uma mera coopta\u00e7\u00e3o com os desejos e o perfil ideol\u00f3gico dos governantes, a quem presta servi\u00e7os.<br \/>\nAlgu\u00e9m, com mais bagagem urban\u00edstica do que eu, refere que Fortaleza n\u00e3o tem &#8211; salvo exce\u00e7\u00f5es &#8211; nada a preservar. Diz que as interven\u00e7\u00f5es sofridas n\u00e3o podem ser criticadas por quem n\u00e3o \u00e9 do m\u00e9tier. Discordo. O urbanismo n\u00e3o \u00e9 dogma, privil\u00e9gio ou casamata de arquitetos, por mais bem intencionados que sejam. O urbanismo comporta, por sua complexidade, uma vis\u00e3o multidisciplinar que come\u00e7a com ge\u00f3grafos, ecologistas, ge\u00f3logos, passa por engenheiros, remonta aos historiadores, procura economistas para c\u00e1lculos de viabilidade, administradores para ajust\u00e1-lo \u00e0 realidade e advogados para ajustar\/criar as legisla\u00e7\u00f5es de \u00e1reas a serem preservadas, desapropriadas e renovadas.<br \/>\nFortaleza, at\u00e9 os anos 60, n\u00e3o havia descoberto o mar. A vis\u00e3o recente da orla mar\u00edtima; seu uso indiscriminado com a prolifera\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios de alto porte; a mix\u00f3rdia de grandes barracas de toda natureza tal qual uma babel; os projetos da ba\u00eda de lracema e o reordenamento da Av. Beira Mar(trecho Ideal \u2013 Iate), a implanta\u00e7\u00e3o dos Ve\u00edculos Leves sobre Trilhos \u2013 VLT de Parangaba ao Mucuripe, e a constru\u00e7\u00e3o do Aqu\u00e1rio exigem um pensar global, sem estrelismo, participa\u00e7\u00e3o popular e uma coordena\u00e7\u00e3o l\u00facida \u2013 e n\u00e3o autoimposta &#8211; que possa emergir no decorrer das discuss\u00f5es.<br \/>\nTudo isso tem a ver n\u00e3o somente com as m\u00ednimas ou grandes interven\u00e7\u00f5es que Fortaleza precisa e deve sofrer para a Copa de Futebol de 2014, mas para encorajar a Prefeitura e o Estado a abrirem discuss\u00f5es mais profundas sobre o que fazem e o que ainda pretendem fazer. As intrigas, por exemplo, criadas com as liga\u00e7\u00f5es domiciliares e a expans\u00e3o das redes de \u00e1gua e esgoto e o recapeamento asf\u00e1ltico s\u00e3o provas de incoer\u00eancia ou falta de esp\u00edrito p\u00fablico.<br \/>\nO importante \u00e9 que cada grande interven\u00e7\u00e3o urbana seja para a Copa ou para a cidade que n\u00e3o vai parar ap\u00f3s 2014, tenha o aval da sociedade e de t\u00e9cnicos isentos que, por enxergarem, muitas vezes, a a\u00e7\u00e3o de forma diferente, discordam, complementam, ajustam, e, por certo, enriquecem as concep\u00e7\u00f5es que s\u00e3o, quase sempre, c\u00f3pias do que j\u00e1 se fez ou se faz em outras grandes cidades do Brasil ou do exterior.<br \/>\nTomemos o exemplo de Paris. L\u00e1 as ZAC (Zone D\u2019Am\u00e9nagement Concert\u00e9) passam por todo um processo de an\u00e1lise hist\u00f3rica, social, financeira e gerencial, at\u00e9 que os urbanistas e a sociedade definam as mudan\u00e7as estruturais de uma zona de recupera\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA ousadia, ponto basilar ou caracter\u00edstica nas interven\u00e7\u00f5es urbanas de profundidade, deve ter como contraponto a coer\u00eancia dos que podem e devem ajudar como agentes p\u00fablicos, profissionais ou cidad\u00e3os a definir o futuro da cidade onde moram, tomando-as belas. E por falar em beleza, \u00e9 bom lembrar S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino:\u201cAs coisas belas s\u00e3o as que agradam quando vistas. Portanto, a beleza consiste na devida propor\u00e7\u00e3o; pois os sentidos deliciam com o que pertence \u00e0 sua pr\u00f3pria esp\u00e9cie, porque at\u00e9 o sentido \u00e9 uma esp\u00e9cie de raz\u00e3o &#8211; exatamente como o \u00e9 toda faculdade cognitiva\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 23\/03\/2012<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3032","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3032","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3032"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3032\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3032"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3032"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3032"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}