{"id":3034,"date":"2023-12-21T09:10:36","date_gmt":"2023-12-21T12:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/requiem-para-chico-anysio-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:36","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:36","slug":"requiem-para-chico-anysio-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/requiem-para-chico-anysio-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"R\u00c9QUIEM PARA CHICO ANYSIO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s 14h45m da sexta passada, 23 de mar\u00e7o de 2012, Chico Anysio morreu. Pela \u00faltima vez. Desde dezembro ele brincava de morre-vive ou esconde-esconde com Hades, Ceifador, Angeu, Hel, Ankon, Nefitis, Yamaraz, Valdemort, Azrael, Catrina, alguns dos nomes da morte. Matavam os seus personagens, n\u00e3o o Chico. Enfim, A luz o abra\u00e7ou e levou. Liguei, em seguida, para Elano Paula, seu irm\u00e3o mais velho e querido. \u201cJo\u00e3o, ele teve hoje quatro paradas card\u00edacas e se foi na \u00faltima\u201d. Elano era contra a miss\u00e3o imposs\u00edvel de manter o irm\u00e3o, confidente, parceiro em artes, cultura e amigo, vivendo por meio de aparelhos com ris\u00edveis melhoras e declara\u00e7\u00f5es piegas nas m\u00eddias sociais por gente que o cercava. Elano fala do irm\u00e3o: \u201cO Chico \u00e9 o meu amigo especial, somos admiradores um do outro. Come\u00e7amos juntos, eu mudei de vida e ele seguiu subindo a escada do sucesso\u201d. Os irm\u00e3os de Chico t\u00eam, tal como ele, intelig\u00eancia privilegiada, mas n\u00e3o s\u00e3o expansivos ou \u201cshow off\u201d.<br \/>\nDos seus irm\u00e3os, j\u00e1 morreram L\u00edlia e Lupe. L\u00edlia era casada com m\u00e9dico paraibano. Certa vez conversamos, por horas, do seu \u201cdesterro\u201d em Jo\u00e3o Pessoa, da sogra chata, de cultura, da fam\u00edlia e do Rio, onde cresceu. Em seguida, ela se foi. Chico tinha um show no mesmo dia, o fez. Depois, chorou.<br \/>\nLupe, a irm\u00e3 mais velha, igualmente casada com m\u00e9dico, este carioca, trabalhou no r\u00e1dio, televis\u00e3o e cinema, a contragosto do marido. Da\u00ed sua vida art\u00edstica ter sido entrecortada, limitada e a pessoal, aflita. Zelito Viana, nas palavras do pr\u00f3prio Chico: \u201c\u00e9 um cara muito bom, profissionalmente, Foi o produtor dos sonhos de Glauber Rocha e dirigiu filmes admir\u00e1veis como \u201cOs Condenados\u201d e \u201cVillaLobos\u201d. O problema \u00e9 que ningu\u00e9m muda o temperamento de ningu\u00e9m. Assim, como eu sou 220 volts, o Zelito \u00e9 12 volts, nem d\u00e1 choque\u201d.<br \/>\nEm janeiro de 2004 tive uma longa conversa com o Chico, a quem conheci desde os fins dos anos sessenta. \u00c0 \u00e9poca, num fim de tarde, revendo juntos pontos de Fortaleza, falei para ele: vamos dar uma passada na casa da D. Margarida, minha m\u00e3e? Claro, Jo\u00e3o. Entramos, sentamos \u00e0 mesa da sala de jantar e ele disse: D. Margarida, podemos tomar um caf\u00e9 com bolo? Foi um momento especial e descontra\u00eddo.<br \/>\nVoltemos para 2004: Ele se queixou da emissora em que trabalhava, das suas limita\u00e7\u00f5es pulmonares por conta do cigarro e me apresentou \u00e0 sua sexta mulher, Malga, que havia sido mordida no ombro por um mosquito e foi procurar rem\u00e9dio. Ficamos s\u00f3s. Resolvi, ent\u00e3o, propor a ele uma entrevista que hoje est\u00e1 no meu livro \u201cGente que Conta\u201d. Aproveito para citar alguns trechos do que ele me disse. 1. Sobre ele mesmo: \u201cNo fim sou um covarde, que se esconde atr\u00e1s de v\u00e1rias caras por temor de me expor ou um mau-car\u00e1ter que, em vez de se dar ao trabalho, prefere por v\u00e1rios infelizes para trabalhar no seu lugar. 2. Sobre genialidade: \u00c9 uma palavra muito usada e, por esta raz\u00e3o, mal usada, nos dias de hoje. Acho que a palavra g\u00eanio s\u00f3 se aplica a um homem como (Alberto) Sabin, que inventou uma gota que tirou dos pais do mundo inteiro um grande medo, a milagrosa vacina que evita uma doen\u00e7a trist\u00edssima para as crian\u00e7as\u201d.<br \/>\n3. Sobre a sua terra: \u201cO Cear\u00e1 \u00e9 importante demais para mim, porque representa a minha inf\u00e2ncia, o momento melhor de minha vida, quando eu, filho de rico, tinha um rio em Maranguape que parecia correr somente para mim, uma casa onde havia o quarto onde nasci&#8230;No quintal da nossa casa no Benfica, eu brincava de cabe\u00e7ulinha, gol-a-gol, rodava pi\u00e3o e nunca o meu pai ou a minha m\u00e3e encostaram a m\u00e3o em mim, num gesto de castigo\u201d.4. Sobre a sua arte de pintar: \u201cQuem dera, Jo\u00e3o, que eu pudesse ter, no que pinto, qualquer m\u00ednima coisa de Renoir. Ele \u00e9 um dos meus \u00eddolos, como Vel\u00e1squez, Van Gogh, S\u00e9rgio Telles e Matisse&#8230;O sentido final das minhas tintas \u00e9 que elas sejam o emprego da minha velhice\u201d.5. Sobre a sua personalidade, perguntado por mim se era um simples que se tornou sofisticado: \u201cPara com isso, Jo\u00e3o. Quem \u00e9 sofisticado? Eu sou a coisa mais simples do Brasil. Mais simples do que eu&#8230;s\u00f3&#8230;S\u00f3&#8230;O qu\u00ea? Arroz com feij\u00e3o \u2013 que \u00e9 o que eu como todos os dias\u201d.<br \/>\nNesta sexta, 30, sete dias ap\u00f3s a sua morte, este relato foi a forma que encontrei de homenagear um cearense, cidad\u00e3o do Rio e do mundo, maior humorista do Brasil, ator, escritor, artista pl\u00e1stico e gente, sobretudo. R\u00e9quiem, Chico. \u201cActa est fabula\u201d (O espet\u00e1culo terminou), atribu\u00eddo a Augusto, romano que fez o papel de imperador. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/03\/2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s 14h45m da sexta passada, 23 de mar\u00e7o de 2012, Chico Anysio morreu. Pela \u00faltima vez. Desde dezembro ele brincava de morre-vive ou esconde-esconde com Hades, Ceifador, Angeu, Hel, Ankon, Nefitis, Yamaraz, Valdemort, Azrael, Catrina, alguns dos nomes da morte. Matavam os seus personagens, n\u00e3o o Chico. Enfim, A luz o abra\u00e7ou e levou. Liguei, em seguida, para Elano Paula, seu irm\u00e3o mais velho e querido. \u201cJo\u00e3o, ele teve hoje quatro paradas card\u00edacas e se foi na \u00faltima\u201d. Elano era contra a miss\u00e3o imposs\u00edvel de manter o irm\u00e3o, confidente, parceiro em artes, cultura e amigo, vivendo por meio de aparelhos com ris\u00edveis melhoras e declara\u00e7\u00f5es piegas nas m\u00eddias sociais por gente que o cercava. Elano fala do irm\u00e3o: \u201cO Chico \u00e9 o meu amigo especial, somos admiradores um do outro. Come\u00e7amos juntos, eu mudei de vida e ele seguiu subindo a escada do sucesso\u201d. Os irm\u00e3os de Chico t\u00eam, tal como ele, intelig\u00eancia privilegiada, mas n\u00e3o s\u00e3o expansivos ou \u201cshow off\u201d.<br \/>\nDos seus irm\u00e3os, j\u00e1 morreram L\u00edlia e Lupe. L\u00edlia era casada com m\u00e9dico paraibano. Certa vez conversamos, por horas, do seu \u201cdesterro\u201d em Jo\u00e3o Pessoa, da sogra chata, de cultura, da fam\u00edlia e do Rio, onde cresceu. Em seguida, ela se foi. Chico tinha um show no mesmo dia, o fez. Depois, chorou.<br \/>\nLupe, a irm\u00e3 mais velha, igualmente casada com m\u00e9dico, este carioca, trabalhou no r\u00e1dio, televis\u00e3o e cinema, a contragosto do marido. Da\u00ed sua vida art\u00edstica ter sido entrecortada, limitada e a pessoal, aflita. Zelito Viana, nas palavras do pr\u00f3prio Chico: \u201c\u00e9 um cara muito bom, profissionalmente, Foi o produtor dos sonhos de Glauber Rocha e dirigiu filmes admir\u00e1veis como \u201cOs Condenados\u201d e \u201cVillaLobos\u201d. O problema \u00e9 que ningu\u00e9m muda o temperamento de ningu\u00e9m. Assim, como eu sou 220 volts, o Zelito \u00e9 12 volts, nem d\u00e1 choque\u201d.<br \/>\nEm janeiro de 2004 tive uma longa conversa com o Chico, a quem conheci desde os fins dos anos sessenta. \u00c0 \u00e9poca, num fim de tarde, revendo juntos pontos de Fortaleza, falei para ele: vamos dar uma passada na casa da D. Margarida, minha m\u00e3e? Claro, Jo\u00e3o. Entramos, sentamos \u00e0 mesa da sala de jantar e ele disse: D. Margarida, podemos tomar um caf\u00e9 com bolo? Foi um momento especial e descontra\u00eddo.<br \/>\nVoltemos para 2004: Ele se queixou da emissora em que trabalhava, das suas limita\u00e7\u00f5es pulmonares por conta do cigarro e me apresentou \u00e0 sua sexta mulher, Malga, que havia sido mordida no ombro por um mosquito e foi procurar rem\u00e9dio. Ficamos s\u00f3s. Resolvi, ent\u00e3o, propor a ele uma entrevista que hoje est\u00e1 no meu livro \u201cGente que Conta\u201d. Aproveito para citar alguns trechos do que ele me disse. 1. Sobre ele mesmo: \u201cNo fim sou um covarde, que se esconde atr\u00e1s de v\u00e1rias caras por temor de me expor ou um mau-car\u00e1ter que, em vez de se dar ao trabalho, prefere por v\u00e1rios infelizes para trabalhar no seu lugar. 2. Sobre genialidade: \u00c9 uma palavra muito usada e, por esta raz\u00e3o, mal usada, nos dias de hoje. Acho que a palavra g\u00eanio s\u00f3 se aplica a um homem como (Alberto) Sabin, que inventou uma gota que tirou dos pais do mundo inteiro um grande medo, a milagrosa vacina que evita uma doen\u00e7a trist\u00edssima para as crian\u00e7as\u201d.<br \/>\n3. Sobre a sua terra: \u201cO Cear\u00e1 \u00e9 importante demais para mim, porque representa a minha inf\u00e2ncia, o momento melhor de minha vida, quando eu, filho de rico, tinha um rio em Maranguape que parecia correr somente para mim, uma casa onde havia o quarto onde nasci&#8230;No quintal da nossa casa no Benfica, eu brincava de cabe\u00e7ulinha, gol-a-gol, rodava pi\u00e3o e nunca o meu pai ou a minha m\u00e3e encostaram a m\u00e3o em mim, num gesto de castigo\u201d.4. Sobre a sua arte de pintar: \u201cQuem dera, Jo\u00e3o, que eu pudesse ter, no que pinto, qualquer m\u00ednima coisa de Renoir. Ele \u00e9 um dos meus \u00eddolos, como Vel\u00e1squez, Van Gogh, S\u00e9rgio Telles e Matisse&#8230;O sentido final das minhas tintas \u00e9 que elas sejam o emprego da minha velhice\u201d.5. Sobre a sua personalidade, perguntado por mim se era um simples que se tornou sofisticado: \u201cPara com isso, Jo\u00e3o. Quem \u00e9 sofisticado? Eu sou a coisa mais simples do Brasil. Mais simples do que eu&#8230;s\u00f3&#8230;S\u00f3&#8230;O qu\u00ea? Arroz com feij\u00e3o \u2013 que \u00e9 o que eu como todos os dias\u201d.<br \/>\nNesta sexta, 30, sete dias ap\u00f3s a sua morte, este relato foi a forma que encontrei de homenagear um cearense, cidad\u00e3o do Rio e do mundo, maior humorista do Brasil, ator, escritor, artista pl\u00e1stico e gente, sobretudo. R\u00e9quiem, Chico. \u201cActa est fabula\u201d (O espet\u00e1culo terminou), atribu\u00eddo a Augusto, romano que fez o papel de imperador. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/03\/2012<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3034","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3034","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3034"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3034\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3034"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3034"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3034"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}