{"id":3041,"date":"2023-12-21T09:10:36","date_gmt":"2023-12-21T12:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/epifania-do-barros-pinho-jornal-o-povo\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:36","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:36","slug":"epifania-do-barros-pinho-jornal-o-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/epifania-do-barros-pinho-jornal-o-povo\/","title":{"rendered":"EPIFANIA DO BARROS PINHO &#8211; Jornal O Povo"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o invoco amizade com Barros Pinho. Ele n\u00e3o est\u00e1 aqui para confirm\u00e1-la. Fomos colegas de 61 a 64. A Escola de Administra\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1 nos usava como alunos e cobaias. \u00c9ramos aprendizes em sedes mutantes, goteiras a marcar o cimento do piso. Fundamos o Centro Acad\u00eamico Juscelino Kubitschek para nos dar compasso e Barros Pinho emerge na presid\u00eancia. Fomos \u00e0 luta. Ningu\u00e9m nos reconhecia como universit\u00e1rios. Que escola era aquela? Veio o agosto de 61. O presidente J\u00e2nio Quadros renuncia. H\u00e1 impasse com a presen\u00e7a na China do vice Jango.<br \/>\nAqui, jovens conseguem de Mois\u00e9s Pimentel, ent\u00e3o dono da R\u00e1dio Drag\u00e3o do Mar, um transmissor volante. \u00c9 decretada greve universit\u00e1ria. Barros Pinho fazia parte do \u201cComando da Legalidade\u201d. Jango assume o governo. Floresce o ano de 1962 e o tamb\u00e9m Z\u00e9 Maria luta pela presid\u00eancia da UEE, reduto exclusivo de universit\u00e1rios da UFC, a \u00fanica de ent\u00e3o. E vence. Em julho, fomos ao conturbado congresso da UNE em Petr\u00f3polis, Rio. A comitiva cearense recebe uma Kombi do Governo Federal, por iniciativa do Senador Paulo Sarasate. Sou designado para dirigi-la por l\u00e1 at\u00e9 que fosse enviada para Fortaleza. Paralelo a isso, BP intu\u00eda que \u201ca ponte e o rio\/me ligam \u00e0 vida\/vida que se liga\/na solid\u00e3o\u201d. Conhece Isabel Aracimy que o tirou da solid\u00e3o e virou seu mote de vida permanente fugindo do \u201camor nas veredas disputado no ch\u00e3o com as serpentes\u201d.<br \/>\nAbril de 64, uma tormenta o leva para as \u201cterras barrentas do Parna\u00edba\u201d e \u00e9 trazido para a avenida 13 de Maio, mas n\u00e3o para a igreja. Tudo era o \u201ctr\u00e1gico do apocalipse no \u00faltimo cata-vento\u201d. Ultrapassa o port\u00e3o verde e sai com \u201ca indigna\u00e7\u00e3o do poeta a rasgar no punhal\u201d. Com eloqu\u00eancia, destemor e desenvoltura \u00e9 eleito vereador de Fortaleza e, no pleito seguinte, elege-se Deputado Estadual. Mas o poeta encobria um educador que precisava construir uma escola. Com unhas e dentes constr\u00f3i e dirige um col\u00e9gio a homenagear o abolicionista e escritor Oliveira Paiva, autor de \u201cDona Guidinha do Po\u00e7o\u201d. E disse: \u201cFui al\u00e9m de mim para acender uma luz\u201d. Luzes nunca o ofuscaram.<br \/>\nEm 1985 assume a Prefeitura de Fortaleza e sai tal como entrou: limpo e festejado. T.S. Eliot acreditava que \u201ca poesia n\u00e3o \u00e9 um modo de liberar a emo\u00e7\u00e3o, mas uma fuga da emo\u00e7\u00e3o\u201d. Eu direi que a poesia era o seu remanso ou o catalisador de suas infinitas ang\u00fastias, humano pensante, profundo e engajado que foi. Depois, o gestor e homem de letras reflexivo pastoreou, por anos, com aprumo e retid\u00e3o, a cultura do Estado e a de Fortaleza sempre fazendo milagres com os tost\u00f5es contados.<br \/>\nPoetou e contou versos que se transmutaram em prosa. E ei-lo maduro, pai e av\u00f4, temente a um Deus que imaginara (des)acreditar na reflex\u00e3o e no mourejo da lida e escrita. C\u00e3s, com 70 poemas para orvalhar o outono, canetas no bolso da camisa, em plena madureza sentia e vivia a sua epifania no planisf\u00e9rio do castelo azul. O circo encantado o chama, como antevira, em N\u00fapcias das \u00c1guas: \u201co c\u00e9u se preparando pra noite com o len\u00e7ol da camarinha\u201d. E no outro lado, al\u00e9m do planisf\u00e9rio, \u00e9 recepcionado pelo poeta e amigo Gerardo Mello Mour\u00e3o: \u201camadureceram-me as narinas s\u00e1bias tal a rosa-dos-ventos dia e noite do navegante.\u201d<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O POVO EM 03\/05\/2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o invoco amizade com Barros Pinho. Ele n\u00e3o est\u00e1 aqui para confirm\u00e1-la. Fomos colegas de 61 a 64. A Escola de Administra\u00e7\u00e3o do Cear\u00e1 nos usava como alunos e cobaias. \u00c9ramos aprendizes em sedes mutantes, goteiras a marcar o cimento do piso. Fundamos o Centro Acad\u00eamico Juscelino Kubitschek para nos dar compasso e Barros Pinho emerge na presid\u00eancia. Fomos \u00e0 luta. Ningu\u00e9m nos reconhecia como universit\u00e1rios. Que escola era aquela? Veio o agosto de 61. O presidente J\u00e2nio Quadros renuncia. H\u00e1 impasse com a presen\u00e7a na China do vice Jango.<br \/>\nAqui, jovens conseguem de Mois\u00e9s Pimentel, ent\u00e3o dono da R\u00e1dio Drag\u00e3o do Mar, um transmissor volante. \u00c9 decretada greve universit\u00e1ria. Barros Pinho fazia parte do \u201cComando da Legalidade\u201d. Jango assume o governo. Floresce o ano de 1962 e o tamb\u00e9m Z\u00e9 Maria luta pela presid\u00eancia da UEE, reduto exclusivo de universit\u00e1rios da UFC, a \u00fanica de ent\u00e3o. E vence. Em julho, fomos ao conturbado congresso da UNE em Petr\u00f3polis, Rio. A comitiva cearense recebe uma Kombi do Governo Federal, por iniciativa do Senador Paulo Sarasate. Sou designado para dirigi-la por l\u00e1 at\u00e9 que fosse enviada para Fortaleza. Paralelo a isso, BP intu\u00eda que \u201ca ponte e o rio\/me ligam \u00e0 vida\/vida que se liga\/na solid\u00e3o\u201d. Conhece Isabel Aracimy que o tirou da solid\u00e3o e virou seu mote de vida permanente fugindo do \u201camor nas veredas disputado no ch\u00e3o com as serpentes\u201d.<br \/>\nAbril de 64, uma tormenta o leva para as \u201cterras barrentas do Parna\u00edba\u201d e \u00e9 trazido para a avenida 13 de Maio, mas n\u00e3o para a igreja. Tudo era o \u201ctr\u00e1gico do apocalipse no \u00faltimo cata-vento\u201d. Ultrapassa o port\u00e3o verde e sai com \u201ca indigna\u00e7\u00e3o do poeta a rasgar no punhal\u201d. Com eloqu\u00eancia, destemor e desenvoltura \u00e9 eleito vereador de Fortaleza e, no pleito seguinte, elege-se Deputado Estadual. Mas o poeta encobria um educador que precisava construir uma escola. Com unhas e dentes constr\u00f3i e dirige um col\u00e9gio a homenagear o abolicionista e escritor Oliveira Paiva, autor de \u201cDona Guidinha do Po\u00e7o\u201d. E disse: \u201cFui al\u00e9m de mim para acender uma luz\u201d. Luzes nunca o ofuscaram.<br \/>\nEm 1985 assume a Prefeitura de Fortaleza e sai tal como entrou: limpo e festejado. T.S. Eliot acreditava que \u201ca poesia n\u00e3o \u00e9 um modo de liberar a emo\u00e7\u00e3o, mas uma fuga da emo\u00e7\u00e3o\u201d. Eu direi que a poesia era o seu remanso ou o catalisador de suas infinitas ang\u00fastias, humano pensante, profundo e engajado que foi. Depois, o gestor e homem de letras reflexivo pastoreou, por anos, com aprumo e retid\u00e3o, a cultura do Estado e a de Fortaleza sempre fazendo milagres com os tost\u00f5es contados.<br \/>\nPoetou e contou versos que se transmutaram em prosa. E ei-lo maduro, pai e av\u00f4, temente a um Deus que imaginara (des)acreditar na reflex\u00e3o e no mourejo da lida e escrita. C\u00e3s, com 70 poemas para orvalhar o outono, canetas no bolso da camisa, em plena madureza sentia e vivia a sua epifania no planisf\u00e9rio do castelo azul. O circo encantado o chama, como antevira, em N\u00fapcias das \u00c1guas: \u201co c\u00e9u se preparando pra noite com o len\u00e7ol da camarinha\u201d. E no outro lado, al\u00e9m do planisf\u00e9rio, \u00e9 recepcionado pelo poeta e amigo Gerardo Mello Mour\u00e3o: \u201camadureceram-me as narinas s\u00e1bias tal a rosa-dos-ventos dia e noite do navegante.\u201d<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O POVO EM 03\/05\/2012.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3041","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3041"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3041\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3041"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3041"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3041"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}