{"id":3044,"date":"2023-12-21T09:10:36","date_gmt":"2023-12-21T12:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/compromisso-com-a-mae-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:36","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:36","slug":"compromisso-com-a-mae-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/compromisso-com-a-mae-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"COMPROMISSO COM A M\u00c3E &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Depois de amanh\u00e3 voc\u00ea tem um compromisso com a sua m\u00e3e. Importa n\u00e3o que ela tenha morrido h\u00e1 tempos. V\u00e1 ao cemit\u00e9rio, remexa no \u00e1lbum de fam\u00edlia e ore, se f\u00e9 tiver. Importa n\u00e3o que ela n\u00e3o suporte com quem voc\u00ea vive. Importa n\u00e3o que ela j\u00e1 n\u00e3o entenda \u2013 ou ou\u00e7a &#8211; a metade do que voc\u00ea diz. Importa n\u00e3o que ela more longe. \u201cLonge \u00e9 um lugar que n\u00e3o existe\u201d, diz Richard Bach em uma linda novela.<br \/>\nD\u00ea um jeito de chegar. Hoje, com os recursos da tecnologia, voc\u00ea pode gravar uma mensagem e enviar para que repassem para ela. Se n\u00e3o sabe, pe\u00e7a a algu\u00e9m para fazer isso com voc\u00ea. Mas, por favor, diga apenas o que falaria se estivessem juntos. N\u00e3o siga as fichas bregas dessas mensagens ou cart\u00f5es para as m\u00e3es que oportunistas colocam em carros de som, lojas e livrarias para vender. Escreva, diga ou grave apenas o que sente, mesmo que ache bobo. Sua m\u00e3e sabe quem \u00e9 voc\u00ea.<br \/>\nFilho n\u00e3o tem idade, deixe-se levar por seus sentimentos, mas nada de pieguices, l\u00e1grimas falsas, aquelas flores compradas no sem\u00e1foro ou os hediondos jarros que ficam na entrada dos supermercados. Fa\u00e7a algo de cora\u00e7\u00e3o ou quede-se quieto. M\u00e3e entende at\u00e9 o que n\u00e3o se diz e faz.<br \/>\nFui o primeiro filho de uma mulher destemida, inteligente e companheira do meu pai por 50 anos. Morto em 1991. Ela tem agora 92 anos e d\u00e1 conta da sua casa, empregadas, vida, presen\u00e7a ou aus\u00eancia de filhos, netos e bisnetos. \u00c9 independente e distribui o seu dinheiro segundo os seus crit\u00e9rios de justi\u00e7a. Todos os domingos tomamos caf\u00e9 juntos. Levo sempre uma lembran\u00e7a para ela, m\u00ednima que seja. Ela, meio sorrindo, meio s\u00e9ria, diz: \u201co Jo\u00e3o pensa que sou crian\u00e7a com esses presentinhos que traz\u201d.<br \/>\nEla \u00e9 assim. Clara e direta. Mora em casa cercada de \u00e1rvores e flores. L\u00ea jornal todos os dias, assinante que \u00e9. V\u00ea e ouve as missas das emissoras cat\u00f3licas de TV e movimenta as m\u00e3os fazendo \u201cfuxico\u201d com peda\u00e7os de panos coloridos, linha, agulha para criar tapetes e adere\u00e7os para os que a visitam.<br \/>\nCerta vez, uma amiga da fam\u00edlia, quis colocar a Margarida numa sinuca. Era dia do seu anivers\u00e1rio. Ela ia cortar o bolo. A amiga disse: vamos ver para quem ela dar\u00e1 o primeiro peda\u00e7o. A bonita Marga olhou de soslaio, ajustou os \u00f3culos, pegou um prato grande e come\u00e7ou a cortar pequenos peda\u00e7os e nos deu a todos, ao mesmo tempo.<br \/>\nAssim, depois de manh\u00e3, espante a pregui\u00e7a e v\u00e1 ao encontro de sua m\u00e3e. N\u00e3o importa se viva ou morta. Ligue-se a ela. O admir\u00e1vel ser\u00e1 o encontro e ele s\u00f3 acontece se voc\u00ea for simples e verdadeiro. Desnude-se dos aparatos como a crian\u00e7a que ela embalou e acalentou no seu colo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11\/05\/2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de amanh\u00e3 voc\u00ea tem um compromisso com a sua m\u00e3e. Importa n\u00e3o que ela tenha morrido h\u00e1 tempos. V\u00e1 ao cemit\u00e9rio, remexa no \u00e1lbum de fam\u00edlia e ore, se f\u00e9 tiver. Importa n\u00e3o que ela n\u00e3o suporte com quem voc\u00ea vive. Importa n\u00e3o que ela j\u00e1 n\u00e3o entenda \u2013 ou ou\u00e7a &#8211; a metade do que voc\u00ea diz. Importa n\u00e3o que ela more longe. \u201cLonge \u00e9 um lugar que n\u00e3o existe\u201d, diz Richard Bach em uma linda novela.<br \/>\nD\u00ea um jeito de chegar. Hoje, com os recursos da tecnologia, voc\u00ea pode gravar uma mensagem e enviar para que repassem para ela. Se n\u00e3o sabe, pe\u00e7a a algu\u00e9m para fazer isso com voc\u00ea. Mas, por favor, diga apenas o que falaria se estivessem juntos. N\u00e3o siga as fichas bregas dessas mensagens ou cart\u00f5es para as m\u00e3es que oportunistas colocam em carros de som, lojas e livrarias para vender. Escreva, diga ou grave apenas o que sente, mesmo que ache bobo. Sua m\u00e3e sabe quem \u00e9 voc\u00ea.<br \/>\nFilho n\u00e3o tem idade, deixe-se levar por seus sentimentos, mas nada de pieguices, l\u00e1grimas falsas, aquelas flores compradas no sem\u00e1foro ou os hediondos jarros que ficam na entrada dos supermercados. Fa\u00e7a algo de cora\u00e7\u00e3o ou quede-se quieto. M\u00e3e entende at\u00e9 o que n\u00e3o se diz e faz.<br \/>\nFui o primeiro filho de uma mulher destemida, inteligente e companheira do meu pai por 50 anos. Morto em 1991. Ela tem agora 92 anos e d\u00e1 conta da sua casa, empregadas, vida, presen\u00e7a ou aus\u00eancia de filhos, netos e bisnetos. \u00c9 independente e distribui o seu dinheiro segundo os seus crit\u00e9rios de justi\u00e7a. Todos os domingos tomamos caf\u00e9 juntos. Levo sempre uma lembran\u00e7a para ela, m\u00ednima que seja. Ela, meio sorrindo, meio s\u00e9ria, diz: \u201co Jo\u00e3o pensa que sou crian\u00e7a com esses presentinhos que traz\u201d.<br \/>\nEla \u00e9 assim. Clara e direta. Mora em casa cercada de \u00e1rvores e flores. L\u00ea jornal todos os dias, assinante que \u00e9. V\u00ea e ouve as missas das emissoras cat\u00f3licas de TV e movimenta as m\u00e3os fazendo \u201cfuxico\u201d com peda\u00e7os de panos coloridos, linha, agulha para criar tapetes e adere\u00e7os para os que a visitam.<br \/>\nCerta vez, uma amiga da fam\u00edlia, quis colocar a Margarida numa sinuca. Era dia do seu anivers\u00e1rio. Ela ia cortar o bolo. A amiga disse: vamos ver para quem ela dar\u00e1 o primeiro peda\u00e7o. 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Desnude-se dos aparatos como a crian\u00e7a que ela embalou e acalentou no seu colo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 11\/05\/2012<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3044","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3044"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3044\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}