{"id":3046,"date":"2023-12-21T09:10:36","date_gmt":"2023-12-21T12:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/conto-desconto-e-reconto-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:36","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:36","slug":"conto-desconto-e-reconto-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/conto-desconto-e-reconto-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CONTO, DESCONTO E RECONTO &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Estou no caminho sem volta que \u00e9 o viver. Ou voc\u00ea avan\u00e7a, passo a passo, mesmo que isso custe a aus\u00eancia de pessoas essenciais, ou vai se deixar invadir pela lassid\u00e3o, a ansiedade, a amargura e a nostalgia. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o objeto desta minha conversa com voc\u00ea. Alegro-me hoje com pequenas coisas. N\u00e3o preciso mais fazer vestibular, entrar em concurso de qualquer natureza e provar que sou isso ou aquilo.<br \/>\nQuero andar de sapatos sem meias, conversar com estranhos, sair de qualquer reuni\u00e3o antes da meia-noite, n\u00e3o conviver com quem me desagrada e deixar de tentar convencer o outro das minhas certezas. Que certezas? Quero a companhia de poucos e usar o meu tempo no trabalho, que me d\u00e1 o prazer de criar. Viver do que acredito: benqueren\u00e7a desinteressada, consci\u00eancia social, viajar, ver filmes, ler e escrever da forma sempre difusa como sempre o fiz.<br \/>\nIdealizei. Quis muito que minha gente vivesse os meus sonhos e seguisse a estafante trilha. Decidiram por outras op\u00e7\u00f5es. \u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o tenha sabido engaj\u00e1-las com ternura, nessa dura e crua lida. Assim, deverei continuar s\u00f3, do meu jeito, meio sem jeito. N\u00e3o cobro mais. J\u00e1 n\u00e3o cometo a tolice de querer demonstrar o que fui, sou e o que n\u00e3o sei.<br \/>\nSou p\u00e9ssimo ator, n\u00e3o sei contar piadas, bebo pouco e n\u00e3o tenho frases de efeito. Todas j\u00e1 foram ditas. Encanto n\u00e3o \u00e9, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como menino em parque de divers\u00f5es. A vida \u00e9. N\u00e3o se arquiteta, n\u00e3o \u00e9 nada rom\u00e2ntica, tampouco f\u00e1cil, pois \u201cf\u00e1cil \u00e9 o comum\u201d, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos, quando j\u00e1 lia tanto quanto agora.<br \/>\nAgora, neste plat\u00f4 com escarpas ao meu redor, n\u00e3o deixei de amar e acreditar, mas um pouco de ceticismo me acicata. Fui, apesar de me acharem arguto, presa f\u00e1cil para pessoas embusteiras. Os embusteiros s\u00e3o como pacotes bem produzidos, mas os la\u00e7os que os adornam s\u00e3o cegos e s\u00f3 com o tempo ficam desfeitos e aparecem a podrid\u00e3o, o malfeito e o mau car\u00e1ter que evolam do nada bem escondido na apar\u00eancia. A apar\u00eancia que muitos pensam ser tudo e nada \u00e9. Todos pagam um pre\u00e7o, o dos embusteiros \u00e9 a ignom\u00ednia.<br \/>\nDesde sempre, tento ser pontual nos meus compromissos e encontros. \u201cFazer o outro esperar \u00e9 uma prerrogativa de poder, poder que eu n\u00e3o tenho\u201d, j\u00e1 dizia Roland Barthes. Considero a adula\u00e7\u00e3o, a bajula\u00e7\u00e3o ou o puxassaquismo uma forma de vileza abjeta. Os bajuladores s\u00e3o como vampiros, sempre atr\u00e1s de sangue novo. N\u00e3o acredito em quem tem muitos amigos. O homem se encontra em si mesmo. E, qui\u00e7\u00e1, com poucos.<br \/>\nSabem voc\u00eas o nome da profiss\u00e3o dos que cuidam das apar\u00eancias dos cad\u00e1veres? Vi, h\u00e1 tempos, o filme japon\u00eas \u201cA Partida\u201d, de 1998, em que o protagonista, antes violoncelista de orquestra desfeita, vai trabalhar, sem contar \u2013 por vergonha &#8211; \u00e0 sua companheira, no embelezamento de cad\u00e1veres que ser\u00e3o, em seguida, cremados. Ao final, ele que era distante do pai que morre, paradoxalmente o prepara para o forno que o transformar\u00e1 em cinzas. Ironia ou destino?<br \/>\nFaz tempos estudei Sociologia, mas hoje, ano 12 de um s\u00e9culo que vai mudar o mundo, como todos os outros pretendiam, descubro que h\u00e1 um velho soci\u00f3logo judeu, Zygmunt Bauman, que fala da \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d e isso por interm\u00e9dio de Marcos Flam\u00ednio Peres, que o entrevista. Assim, a modernidade l\u00edquida, assevera Bauman, faz-nos perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos. Ele escreve livros, tais como \u201cO amor L\u00edquido\u201d, \u201cA Vida L\u00edquida\u201d e o \u201cMedo L\u00edquido\u201d.<br \/>\nSegundo Peres, em consequ\u00eancia dessas sociedades \u2018leves\u2019 e \u2018l\u00edquidas\u2019, \u201co ser humano tornou-se mais aut\u00f4nomo, o que \u00e9 um ganho, mas passou a conviver com a incerteza\u201d. Pois \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 autonomia sem perda. A incerteza \u00e9 e ser\u00e1 constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei l\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo. Carlos Fuentes, escritor mexicano, falecido nesta semana, sabia disso quando intu\u00eda que \u201ca realidade n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/05\/2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou no caminho sem volta que \u00e9 o viver. 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Decidiram por outras op\u00e7\u00f5es. \u00c9 prov\u00e1vel que n\u00e3o tenha sabido engaj\u00e1-las com ternura, nessa dura e crua lida. Assim, deverei continuar s\u00f3, do meu jeito, meio sem jeito. N\u00e3o cobro mais. J\u00e1 n\u00e3o cometo a tolice de querer demonstrar o que fui, sou e o que n\u00e3o sei.<br \/>\nSou p\u00e9ssimo ator, n\u00e3o sei contar piadas, bebo pouco e n\u00e3o tenho frases de efeito. Todas j\u00e1 foram ditas. Encanto n\u00e3o \u00e9, infelizmente, meu forte, mas quando bate a empatia eu me solto como menino em parque de divers\u00f5es. A vida \u00e9. N\u00e3o se arquiteta, n\u00e3o \u00e9 nada rom\u00e2ntica, tampouco f\u00e1cil, pois \u201cf\u00e1cil \u00e9 o comum\u201d, dizia eu na minha bobice, aos 16 anos, quando j\u00e1 lia tanto quanto agora.<br \/>\nAgora, neste plat\u00f4 com escarpas ao meu redor, n\u00e3o deixei de amar e acreditar, mas um pouco de ceticismo me acicata. Fui, apesar de me acharem arguto, presa f\u00e1cil para pessoas embusteiras. Os embusteiros s\u00e3o como pacotes bem produzidos, mas os la\u00e7os que os adornam s\u00e3o cegos e s\u00f3 com o tempo ficam desfeitos e aparecem a podrid\u00e3o, o malfeito e o mau car\u00e1ter que evolam do nada bem escondido na apar\u00eancia. A apar\u00eancia que muitos pensam ser tudo e nada \u00e9. Todos pagam um pre\u00e7o, o dos embusteiros \u00e9 a ignom\u00ednia.<br \/>\nDesde sempre, tento ser pontual nos meus compromissos e encontros. \u201cFazer o outro esperar \u00e9 uma prerrogativa de poder, poder que eu n\u00e3o tenho\u201d, j\u00e1 dizia Roland Barthes. Considero a adula\u00e7\u00e3o, a bajula\u00e7\u00e3o ou o puxassaquismo uma forma de vileza abjeta. Os bajuladores s\u00e3o como vampiros, sempre atr\u00e1s de sangue novo. N\u00e3o acredito em quem tem muitos amigos. O homem se encontra em si mesmo. E, qui\u00e7\u00e1, com poucos.<br \/>\nSabem voc\u00eas o nome da profiss\u00e3o dos que cuidam das apar\u00eancias dos cad\u00e1veres? Vi, h\u00e1 tempos, o filme japon\u00eas \u201cA Partida\u201d, de 1998, em que o protagonista, antes violoncelista de orquestra desfeita, vai trabalhar, sem contar \u2013 por vergonha &#8211; \u00e0 sua companheira, no embelezamento de cad\u00e1veres que ser\u00e3o, em seguida, cremados. Ao final, ele que era distante do pai que morre, paradoxalmente o prepara para o forno que o transformar\u00e1 em cinzas. Ironia ou destino?<br \/>\nFaz tempos estudei Sociologia, mas hoje, ano 12 de um s\u00e9culo que vai mudar o mundo, como todos os outros pretendiam, descubro que h\u00e1 um velho soci\u00f3logo judeu, Zygmunt Bauman, que fala da \u201cmodernidade l\u00edquida\u201d e isso por interm\u00e9dio de Marcos Flam\u00ednio Peres, que o entrevista. Assim, a modernidade l\u00edquida, assevera Bauman, faz-nos perder o sentido de solidez e estabilidade que sempre buscamos. Ele escreve livros, tais como \u201cO amor L\u00edquido\u201d, \u201cA Vida L\u00edquida\u201d e o \u201cMedo L\u00edquido\u201d.<br \/>\nSegundo Peres, em consequ\u00eancia dessas sociedades \u2018leves\u2019 e \u2018l\u00edquidas\u2019, \u201co ser humano tornou-se mais aut\u00f4nomo, o que \u00e9 um ganho, mas passou a conviver com a incerteza\u201d. Pois \u00e9, n\u00e3o h\u00e1 autonomia sem perda. A incerteza \u00e9 e ser\u00e1 constante no viver, seja no sentido coletivo ou no individual, de que falei l\u00e1 no primeiro par\u00e1grafo. Carlos Fuentes, escritor mexicano, falecido nesta semana, sabia disso quando intu\u00eda que \u201ca realidade n\u00e3o \u00e9 suficiente\u201d.<\/p>\n<p> Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\nCronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18\/05\/2012.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3046","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3046\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}