{"id":3064,"date":"2023-12-21T09:10:36","date_gmt":"2023-12-21T12:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/casamento-de-aluguel-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:36","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:36","slug":"casamento-de-aluguel-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/casamento-de-aluguel-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CASAMENTO DE ALUGUEL &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Uma amiga americana, professora doutora, casou-se, segundo sua vers\u00e3o, com um m\u00fasico brasileiro dezenas de anos mais jovem, simplesmente para abrir a ele as portas do para\u00edso americano. O tempo passa e a reencontro. Como vai o casamento? \u201cEle entrou nas for\u00e7as armadas americanas e agora \u00e9 cabo m\u00fasico da banda dos fuzileiros navais no Iraque\u201d, disse-me ela ano passado. Essa hist\u00f3ria, ou est\u00f3ria, foi comum nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, e at\u00e9 recentemente.<br \/>\nO fim do Milagre Brasileiro dos anos 70 enxotou muita gente para \u201cfazer a Am\u00e9rica\u201d. O munic\u00edpio mineiro de Governador Valadares, por exemplo, era o campe\u00e3o e mandava milhares de seus guapos filhos para ganhar a vida em d\u00f3lar. Uns entravam com a ajuda de \u201ccoiotes\u201d(os que comandam a entrada ilegal), pagando centenas\/milhares de d\u00f3lares pela travessia no Rio Grande. Outros, tinhosos, casavam-se. Tais como o m\u00fasico. Tudo por um punhado de d\u00f3lares. A rede Globo exportava novelas. Jornais, quase sempre tabl\u00f3ides, em l\u00edngua portuguesa, proliferavam na Fl\u00f3rida, Nova Iorque, New Jersey, Calif\u00f3rnia, Massachussets, Connecticut e em v\u00e1rios outros quadrantes dos EUA. Eles continham an\u00fancios de empregos, venda de ve\u00edculos facilitada para estrangeiros, propaganda de profissionais brasileiros, sobretudo advogados \u201cespecializados\u201d em regulariza\u00e7\u00e3o de \u201cindocumentados\u201d, Green Cards e casamentos. Esses jornais, na sua maioria, desapareceram.<br \/>\nDepois da d\u00e9b\u00e2cle econ\u00f4mica de 2008, a hist\u00f3ria e a balan\u00e7a do mundo mudaram. Muitos brasileiros est\u00e3o de volta falando um ingl\u00eas sofr\u00edvel, sobra\u00e7ando \u00e1lbuns de fotografia, tatuagens, celulares e algum dinheiro para recome\u00e7ar a vida por aqui. Foi assim tamb\u00e9m h\u00e1 algumas d\u00e9cadas com o Jap\u00e3o, que preferia descendentes de seus naturais e os utilizava como m\u00e3o-de-obra semi-escrava. O Banco do Brasil prosperou exponencialmente por l\u00e1 com as remessas mensais dos nossos trabalhadores para suas m\u00e3es, suas mulheres e seus filhos. Os decass\u00e9guis n\u00e3o contavam para as suas fam\u00edlias brasileiras as vidas ultrajantes que viviam. O encanto acabou e a volta chegava a ser financiada pelos parentes daqui.<br \/>\nPor outro lado, europeus, especialmente portugueses, espanh\u00f3is e italianos, aqui vieram, apaixonaram-se rapidamente e resolveram \u201ccasar\u201d com brasileiras e ganhar o visto de trabalho ou de residentes. \u00c9 claro que h\u00e1 uni\u00f5es verdadeiras, por sentimento, mas o casamento fabricado era e \u00e9, muitas vezes, uma mera \u201cuni\u00e3o est\u00e1vel\u201d a troco de compensa\u00e7\u00e3o financeira preestabelecida. H\u00e1 casos at\u00e9 de homossexuais que arranjam c\u00f4njuges para regularizar sua perman\u00eancia na terra brasilis. E n\u00e3o deixam a sua vida airada.<br \/>\nEsse fluxo, come\u00e7ou em 2003, quando a economia europeia j\u00e1 apresentava uma crescente taxa de desemprego. Sabe-se que a Pol\u00edcia Federal, por amostragem, visita os novos casais e at\u00e9 pode processar os nubentes por falsidade ideol\u00f3gica e expulsar os estrangeiros que se aventuram nessas tram\u00f3ias. De qualquer forma, o Brasil j\u00e1 pode orgulhar-se de ser novamente, tal como nos fins do s\u00e9culo 19 e come\u00e7o do 20, uma terra prometida. \u00c9 a gl\u00f3ria. N\u00f3s temos a for\u00e7a.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10\/08\/2012<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma amiga americana, professora doutora, casou-se, segundo sua vers\u00e3o, com um m\u00fasico brasileiro dezenas de anos mais jovem, simplesmente para abrir a ele as portas do para\u00edso americano. O tempo passa e a reencontro. Como vai o casamento? \u201cEle entrou nas for\u00e7as armadas americanas e agora \u00e9 cabo m\u00fasico da banda dos fuzileiros navais no Iraque\u201d, disse-me ela ano passado. Essa hist\u00f3ria, ou est\u00f3ria, foi comum nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, e at\u00e9 recentemente.<br \/>\nO fim do Milagre Brasileiro dos anos 70 enxotou muita gente para \u201cfazer a Am\u00e9rica\u201d. O munic\u00edpio mineiro de Governador Valadares, por exemplo, era o campe\u00e3o e mandava milhares de seus guapos filhos para ganhar a vida em d\u00f3lar. Uns entravam com a ajuda de \u201ccoiotes\u201d(os que comandam a entrada ilegal), pagando centenas\/milhares de d\u00f3lares pela travessia no Rio Grande. Outros, tinhosos, casavam-se. Tais como o m\u00fasico. Tudo por um punhado de d\u00f3lares. A rede Globo exportava novelas. Jornais, quase sempre tabl\u00f3ides, em l\u00edngua portuguesa, proliferavam na Fl\u00f3rida, Nova Iorque, New Jersey, Calif\u00f3rnia, Massachussets, Connecticut e em v\u00e1rios outros quadrantes dos EUA. Eles continham an\u00fancios de empregos, venda de ve\u00edculos facilitada para estrangeiros, propaganda de profissionais brasileiros, sobretudo advogados \u201cespecializados\u201d em regulariza\u00e7\u00e3o de \u201cindocumentados\u201d, Green Cards e casamentos. Esses jornais, na sua maioria, desapareceram.<br \/>\nDepois da d\u00e9b\u00e2cle econ\u00f4mica de 2008, a hist\u00f3ria e a balan\u00e7a do mundo mudaram. Muitos brasileiros est\u00e3o de volta falando um ingl\u00eas sofr\u00edvel, sobra\u00e7ando \u00e1lbuns de fotografia, tatuagens, celulares e algum dinheiro para recome\u00e7ar a vida por aqui. Foi assim tamb\u00e9m h\u00e1 algumas d\u00e9cadas com o Jap\u00e3o, que preferia descendentes de seus naturais e os utilizava como m\u00e3o-de-obra semi-escrava. O Banco do Brasil prosperou exponencialmente por l\u00e1 com as remessas mensais dos nossos trabalhadores para suas m\u00e3es, suas mulheres e seus filhos. Os decass\u00e9guis n\u00e3o contavam para as suas fam\u00edlias brasileiras as vidas ultrajantes que viviam. O encanto acabou e a volta chegava a ser financiada pelos parentes daqui.<br \/>\nPor outro lado, europeus, especialmente portugueses, espanh\u00f3is e italianos, aqui vieram, apaixonaram-se rapidamente e resolveram \u201ccasar\u201d com brasileiras e ganhar o visto de trabalho ou de residentes. \u00c9 claro que h\u00e1 uni\u00f5es verdadeiras, por sentimento, mas o casamento fabricado era e \u00e9, muitas vezes, uma mera \u201cuni\u00e3o est\u00e1vel\u201d a troco de compensa\u00e7\u00e3o financeira preestabelecida. H\u00e1 casos at\u00e9 de homossexuais que arranjam c\u00f4njuges para regularizar sua perman\u00eancia na terra brasilis. E n\u00e3o deixam a sua vida airada.<br \/>\nEsse fluxo, come\u00e7ou em 2003, quando a economia europeia j\u00e1 apresentava uma crescente taxa de desemprego. Sabe-se que a Pol\u00edcia Federal, por amostragem, visita os novos casais e at\u00e9 pode processar os nubentes por falsidade ideol\u00f3gica e expulsar os estrangeiros que se aventuram nessas tram\u00f3ias. De qualquer forma, o Brasil j\u00e1 pode orgulhar-se de ser novamente, tal como nos fins do s\u00e9culo 19 e come\u00e7o do 20, uma terra prometida. \u00c9 a gl\u00f3ria. N\u00f3s temos a for\u00e7a.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 10\/08\/2012<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3064","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3064"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3064\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}