{"id":3074,"date":"2023-12-21T09:10:37","date_gmt":"2023-12-21T12:10:37","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/apontamentos-com-airton-monte-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:37","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:37","slug":"apontamentos-com-airton-monte-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/apontamentos-com-airton-monte-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"APONTAMENTOS COM AIRTON MONTE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>\u201cNunca abrirei m\u00e3o dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos\u201d, dizia ele.<br \/>\n1.Airton Monte viveu sempre na era de Aqu\u00e1rio. Menino de col\u00e9gio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se de ler e estudar. Depois, j\u00e1 m\u00e9dico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, j\u00e1 na decad\u00eancia,<br \/>\ne amava a vida. Parecia o Leminski, a dizer: \u201cHaja hoje para o tanto ontem\u201d.<br \/>\n2. T\u00edmido como um monge trapista limpava as grossas lentes ao ver os balan\u00e7os das cadeiras. N\u00e3o as de sentar.<br \/>\n3.Deu-se um tempo nas traquinagens e casou-se com a prima, S\u00f4nia, sabedora de seus por\u00e9ns, amante e companheira que lhe deu os filhos B\u00e1rbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irm\u00e3o maior que os adorava na sua esquisitice. Agora, eles s\u00e3o o Airton para a S\u00f4nia. Lutem pelo futuro para discernir o resultado do presente.<br \/>\n4.Sabia-se leitor e da\u00ed, sem deslize, passou a escrever. Como disse a poeta Cora Coralina: \u201cEstamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre \u00e9 o tempo\u201d. O primeiro tempo, poemas. Vieram contos. A cr\u00f4nica j\u00e1 estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, a casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, depois, como psiquiatra cooperado da Unimed.<br \/>\n5.Desajeitado com o computador \u2013 presente do Carlos Augusto Viana- sofria com a \u201ccoisa\u201d. Ele me ligava e eu j\u00e1 enviava a colaboradora Josilene Lima a sua casa para mexer no \u201cbicho\u201d que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil m\u00e1quina de escrever. Como dizia Borges: \u201cO tempo \u00e9 a subst\u00e2ncia de que sou feito\u201d. Ele tinha pressa.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de p\u00e2nico e o fez h\u00edgido em pouco tempo. Poucas p\u00edlulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era \u201cassim, assim\u201d com o citado Carlos Augusto que o transmudava do seu \u201csolar suburbano\u201d para os altos de um pr\u00e9dio mirando o mar entre rochas da Volta da Jurema.<br \/>\n6. Quando seu pai, tamb\u00e9m Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: j\u00e1 foi l\u00e1? N\u00e3o tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanh\u00e1-lo. E l\u00e1 fomos n\u00f3s ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma crian\u00e7a ao velar o pai inconsciente. Na volta, m\u00e3os enfiadas nos bolsos da bata fez do sil\u00eancio a dor do seu semblante.<br \/>\n7. H\u00e1 alguns anos queixou-se do corpo e o Dr. Jos\u00e9 Teles ataviou-se de irm\u00e3o mais velho, cuidou de tudo e estava l\u00e1 na cirurgia que se esperava salvadora.<br \/>\n8. Foi amado por Jos\u00e9 Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Cuidou dele no \u00faltimo lustro e at\u00e9 o traficou do calor do ciumento Clube do Bode para o refrig\u00e9rio do restaurante do Ideal Clube Passou a beber cerveja sem \u00e1lcool. O achaque retornou.<br \/>\nPor fim, prostou-se e, resignado, voltou \u00e0 sua casa de fachada verde , como a ouvir Fernando Pessoa: \u201cOu\u00e7o cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gosta que cai se ouve cair\u201d.<br \/>\n9. Estive l\u00e1 h\u00e1 alguns dias. A filha B\u00e1rbara me recebeu. Pilha de jornais n\u00e3o lidos. Depois, entrei em seu quarto. Televis\u00e3o ligada, ele sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu \u00e1gua e, depois, um refrigerante. Conversamos, rimos at\u00e9. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora.<br \/>\n10.Ter\u00e7a, 21 de setembro de 2012, 17h30, seu ata\u00fade foi fechado. Batemos palmas. Era a \u00faltima cena. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14\/09\/2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cNunca abrirei m\u00e3o dos meus sonhos, mesmo que eles se transformem em pesadelos\u201d, dizia ele.<br \/>\n1.Airton Monte viveu sempre na era de Aqu\u00e1rio. Menino de col\u00e9gio marista. Adolesceu no frigir dos anos 60, jogou peladas, pintou e bordou, sem esquecer-se de ler e estudar. Depois, j\u00e1 m\u00e9dico, andava com Rogaciano Leite Filho, entre outros, curtia os bares do Benfica, o Estoril, j\u00e1 na decad\u00eancia,<br \/>\ne amava a vida. Parecia o Leminski, a dizer: \u201cHaja hoje para o tanto ontem\u201d.<br \/>\n2. T\u00edmido como um monge trapista limpava as grossas lentes ao ver os balan\u00e7os das cadeiras. N\u00e3o as de sentar.<br \/>\n3.Deu-se um tempo nas traquinagens e casou-se com a prima, S\u00f4nia, sabedora de seus por\u00e9ns, amante e companheira que lhe deu os filhos B\u00e1rbara e Pablo, hoje adultos e abalados pela perda do irm\u00e3o maior que os adorava na sua esquisitice. Agora, eles s\u00e3o o Airton para a S\u00f4nia. Lutem pelo futuro para discernir o resultado do presente.<br \/>\n4.Sabia-se leitor e da\u00ed, sem deslize, passou a escrever. Como disse a poeta Cora Coralina: \u201cEstamos todos matriculados na escola da vida, onde o mestre \u00e9 o tempo\u201d. O primeiro tempo, poemas. Vieram contos. A cr\u00f4nica j\u00e1 estava em seu alforje de letras fortalezenses, amante da cidade que se circunscrevia ao badalo, a casa e ao trabalho em hospitais de doentes mentais e, depois, como psiquiatra cooperado da Unimed.<br \/>\n5.Desajeitado com o computador \u2013 presente do Carlos Augusto Viana- sofria com a \u201ccoisa\u201d. Ele me ligava e eu j\u00e1 enviava a colaboradora Josilene Lima a sua casa para mexer no \u201cbicho\u201d que emperrava e, entre copos de cerveja, aplacar a sua saudade da senil m\u00e1quina de escrever. Como dizia Borges: \u201cO tempo \u00e9 a subst\u00e2ncia de que sou feito\u201d. Ele tinha pressa.6. Pedi-lhe, certa vez, para cuidar de um jovem com transtorno de p\u00e2nico e o fez h\u00edgido em pouco tempo. Poucas p\u00edlulas, boas risadas e papos entre um cigarro e outro. Era \u201cassim, assim\u201d com o citado Carlos Augusto que o transmudava do seu \u201csolar suburbano\u201d para os altos de um pr\u00e9dio mirando o mar entre rochas da Volta da Jurema.<br \/>\n6. Quando seu pai, tamb\u00e9m Airton, estava na UTI, perguntei-lhe: j\u00e1 foi l\u00e1? N\u00e3o tive coragem, disse-me. Apronte-se, vou apanh\u00e1-lo. E l\u00e1 fomos n\u00f3s ao hospital. Ele, olhos marejados, de comprida bata branca, parecia uma crian\u00e7a ao velar o pai inconsciente. Na volta, m\u00e3os enfiadas nos bolsos da bata fez do sil\u00eancio a dor do seu semblante.<br \/>\n7. H\u00e1 alguns anos queixou-se do corpo e o Dr. Jos\u00e9 Teles ataviou-se de irm\u00e3o mais velho, cuidou de tudo e estava l\u00e1 na cirurgia que se esperava salvadora.<br \/>\n8. Foi amado por Jos\u00e9 Teles, colega medical e seu anjo da guarda na vida e na morte. Cuidou dele no \u00faltimo lustro e at\u00e9 o traficou do calor do ciumento Clube do Bode para o refrig\u00e9rio do restaurante do Ideal Clube Passou a beber cerveja sem \u00e1lcool. O achaque retornou.<br \/>\nPor fim, prostou-se e, resignado, voltou \u00e0 sua casa de fachada verde , como a ouvir Fernando Pessoa: \u201cOu\u00e7o cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gosta que cai se ouve cair\u201d.<br \/>\n9. Estive l\u00e1 h\u00e1 alguns dias. A filha B\u00e1rbara me recebeu. Pilha de jornais n\u00e3o lidos. Depois, entrei em seu quarto. Televis\u00e3o ligada, ele sentado na cama. Sem camisa, comia pipoca vagarosamente, floco a floco. Pediu \u00e1gua e, depois, um refrigerante. Conversamos, rimos at\u00e9. Voltava a ser menino, parecia querer ver o pai que se fora.<br \/>\n10.Ter\u00e7a, 21 de setembro de 2012, 17h30, seu ata\u00fade foi fechado. Batemos palmas. Era a \u00faltima cena. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14\/09\/2012.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3074","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3074"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3074\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}