{"id":3076,"date":"2023-12-21T09:10:37","date_gmt":"2023-12-21T12:10:37","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/bahia-de-todos-os-jorges-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:37","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:37","slug":"bahia-de-todos-os-jorges-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/bahia-de-todos-os-jorges-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"BAHIA DE TODOS OS JORGES &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Cheguei ao Aeroporto Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, antigo 02 de julho, muitos s\u00e9culos depois que D. Thom\u00e9 de Souza, tido como fidalgo portugu\u00eas, aportou por l\u00e1 em 1549. Tomei um carro e logo fui envolvido por um t\u00fanel de bambus quase um ramalhete verde que d\u00e1 boas vindas aos que se aproximam da Primeira Capital. Estive na Bahia de Jorge Amado. Vi uma grande exposi\u00e7\u00e3o de pinturas em que ele \u00e9 a figura principal em \u201cslacks\u201d com folhas vermelhas. Ele s\u00f3. Ele com Z\u00e9lia e ele com o povo. Jorge, agora centen\u00e1rio e, agora talvez em papos transcendentais no al\u00e9m com Carib\u00e9, \u00e9 nome de quase tudo na Bahia. Estava reeditado em livrarias, em capas mole e dura. Um amigo me diz que Jorge \u00e9 tal qual o Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, o deus e o diabo na seara dos votos, que ainda disputa mandato atrav\u00e9s do neto nominado. Compara\u00e7\u00e3o estranha. Calo-me.<br \/>\nDepois, andei \u2013 varando uma multid\u00e3o que ouvia um pastor evang\u00e9lico televisivo, pela Pra\u00e7a Castro Alves, mar ao fundo, pertinho da Prefeitura, do elevador Lacerda, da monumental Secretaria da Cultura e do Pelourinho apinhado de vendedores e uma ambul\u00e2ncia de portas abertas e luzes piscando. N\u00e3o havia acidente, tampouco crimes. A cidade nos abrasileiriza em sabores, cores e no jeito dolente de falar: \u201cDiga, meu lindo\u201d. Entrei na casa de Yemanj\u00e1 com a fachada plena de recortes de azulejos multicores.<br \/>\nFui a um cinema de exibidora mexicana que \u00e9 um luxo s\u00f3, a partir de poltronas que se mexem ao sabor da trama e do vento que surge na quarta dimens\u00e3o.<br \/>\nExaurido, desci ao n\u00edvel do mar, em noite agrad\u00e1vel em receptivo restaurante cujo maitre deixara o sushi e voltara ao acaraj\u00e9 e outros acepipes com pimentas de cheiros e paladares d\u00edspares. Enrubesci a minha ta\u00e7a e ela se fez vazia enquanto a luz mostrava, ao longe, a ilha de Itaparica, a que se vai de ferryboat, que deu vexame no outro dia. A ta\u00e7a seguinte me fazia pleno de sentidos ao ouvir a m\u00fasica ao longe. N\u00e3o a de lounge. Como disse Jorge: \u201cAssim \u00e9 a Bahia. Ligada ao passado, fitando o futuro\u201d.<br \/>\nUma coisa me alegrou por l\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 motoboys ou motot\u00e1xis. Se os h\u00e1, s\u00e3o piratas sem olho de vidro e sem cara de mau. O tr\u00e1fego \u00e9 lento enquanto ou\u00e7o sirenes e vejo um cortejo de motos seguir o \u00f4nibus tricolor do Bahia. Todos param e l\u00e1 vai o Bahia para um jogo de futebol em que n\u00e3o ganhou, tampouco perdeu do Atl\u00e9tico Mineiro. Esgueiro-me pela imensa orla mar\u00edtima at\u00e9 o meu pouso que fica em uma encosta, frente \u00e0 arrebenta\u00e7\u00e3o do mar aberto. Cai uma chuva fina e adorme\u00e7o ao som da TV Justi\u00e7a. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21\/09\/2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cheguei ao Aeroporto Lu\u00eds Eduardo Magalh\u00e3es, antigo 02 de julho, muitos s\u00e9culos depois que D. Thom\u00e9 de Souza, tido como fidalgo portugu\u00eas, aportou por l\u00e1 em 1549. Tomei um carro e logo fui envolvido por um t\u00fanel de bambus quase um ramalhete verde que d\u00e1 boas vindas aos que se aproximam da Primeira Capital. Estive na Bahia de Jorge Amado. Vi uma grande exposi\u00e7\u00e3o de pinturas em que ele \u00e9 a figura principal em \u201cslacks\u201d com folhas vermelhas. Ele s\u00f3. Ele com Z\u00e9lia e ele com o povo. Jorge, agora centen\u00e1rio e, agora talvez em papos transcendentais no al\u00e9m com Carib\u00e9, \u00e9 nome de quase tudo na Bahia. Estava reeditado em livrarias, em capas mole e dura. Um amigo me diz que Jorge \u00e9 tal qual o Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, o deus e o diabo na seara dos votos, que ainda disputa mandato atrav\u00e9s do neto nominado. Compara\u00e7\u00e3o estranha. Calo-me.<br \/>\nDepois, andei \u2013 varando uma multid\u00e3o que ouvia um pastor evang\u00e9lico televisivo, pela Pra\u00e7a Castro Alves, mar ao fundo, pertinho da Prefeitura, do elevador Lacerda, da monumental Secretaria da Cultura e do Pelourinho apinhado de vendedores e uma ambul\u00e2ncia de portas abertas e luzes piscando. N\u00e3o havia acidente, tampouco crimes. A cidade nos abrasileiriza em sabores, cores e no jeito dolente de falar: \u201cDiga, meu lindo\u201d. Entrei na casa de Yemanj\u00e1 com a fachada plena de recortes de azulejos multicores.<br \/>\nFui a um cinema de exibidora mexicana que \u00e9 um luxo s\u00f3, a partir de poltronas que se mexem ao sabor da trama e do vento que surge na quarta dimens\u00e3o.<br \/>\nExaurido, desci ao n\u00edvel do mar, em noite agrad\u00e1vel em receptivo restaurante cujo maitre deixara o sushi e voltara ao acaraj\u00e9 e outros acepipes com pimentas de cheiros e paladares d\u00edspares. Enrubesci a minha ta\u00e7a e ela se fez vazia enquanto a luz mostrava, ao longe, a ilha de Itaparica, a que se vai de ferryboat, que deu vexame no outro dia. A ta\u00e7a seguinte me fazia pleno de sentidos ao ouvir a m\u00fasica ao longe. N\u00e3o a de lounge. Como disse Jorge: \u201cAssim \u00e9 a Bahia. Ligada ao passado, fitando o futuro\u201d.<br \/>\nUma coisa me alegrou por l\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 motoboys ou motot\u00e1xis. Se os h\u00e1, s\u00e3o piratas sem olho de vidro e sem cara de mau. O tr\u00e1fego \u00e9 lento enquanto ou\u00e7o sirenes e vejo um cortejo de motos seguir o \u00f4nibus tricolor do Bahia. Todos param e l\u00e1 vai o Bahia para um jogo de futebol em que n\u00e3o ganhou, tampouco perdeu do Atl\u00e9tico Mineiro. Esgueiro-me pela imensa orla mar\u00edtima at\u00e9 o meu pouso que fica em uma encosta, frente \u00e0 arrebenta\u00e7\u00e3o do mar aberto. Cai uma chuva fina e adorme\u00e7o ao som da TV Justi\u00e7a. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 21\/09\/2012.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3076","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3076","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3076"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3076\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3076"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3076"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3076"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}