{"id":3084,"date":"2023-12-21T09:10:37","date_gmt":"2023-12-21T12:10:37","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-correios-o-hoje-e-as-cartas-dequase-amor-entre-pessoa-e-ofelia\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:37","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:37","slug":"os-correios-o-hoje-e-as-cartas-dequase-amor-entre-pessoa-e-ofelia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/os-correios-o-hoje-e-as-cartas-dequase-amor-entre-pessoa-e-ofelia\/","title":{"rendered":"OS CORREIOS, O HOJE E AS CARTAS DE(QUASE) AMOR ENTRE PESSOA E OF\u00c9LIA"},"content":{"rendered":"<p>Hoje, pelos Correios, recebem-se cobran\u00e7as banc\u00e1rias, convites, propagandas, oferecimento de cart\u00f5es de cr\u00e9dito, lan\u00e7amentos imobili\u00e1rios, cumprimentos de pol\u00edticos no Natal e em datas anivers\u00e1rias, agradecimentos de fam\u00edlias dos mortos amigos e que tais.<br \/>\nExauriu-se o tempo em que cartas nos traziam boas ou m\u00e1s not\u00edcias, esperadas sofregamente. O Carteiro \u00e9 hoje um mero despachante abarrotado de envelopes em pastas a tiracolo cujos conte\u00fados nos dizem quase nada.<br \/>\nHoje a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 instant\u00e2nea &#8211; pelo computador e telefone e, quase sempre, em palavras abreviadas, como se a pressa impedisse o outro de ser mais expl\u00edcito ou cordial. Vivemos um tempo minimalista e vol\u00e1til. Nada \u00e9 permanente. Tudo \u00e9 programado para cair em desuso ou ficar careta e antiquado. Os \u201cnerds\u201d, nome dado aos que se ligam em tudo na comunica\u00e7\u00e3o informatizada e que pouco se situam no nosso mundo, dito real, viram adictos em mudan\u00e7as e criam comunidades com com\u00e9rcio e linguagens pr\u00f3prias.<br \/>\nA propaganda nos impinge todos os anos, lan\u00e7amentos de novas vers\u00f5es de celulares, tabletes e computadores Nenhum de n\u00f3s, os meros usu\u00e1rios dessas m\u00e1quinas que usamos para o trabalho e a comunica\u00e7\u00e3o com amigos, tem o dom\u00ednio absoluto dos constantes \u201cupgrades\u201d ou melhorias para os nossos notebooks e celulares, programados que s\u00e3o para a breve obsolesc\u00eancia.<br \/>\nImagino, por exemplo, como seria a vida do poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa (1888 -1935), se vivo fosse agora. Pessoa usava v\u00e1rios heter\u00f4nimos (criaturas inventadas por ele com profiss\u00e3o e caracter\u00edsticas particulares, com estilos e modos dessemelhantes). Cito os principais: \u00c1lvaro de Campos (\u201cTodas as cartas de amor s\u00e3o rid\u00edculas), Ricardo Reis(\u201cDa verdade n\u00e3o quero mais que a vida\u201d), Alberto Caeiro(\u201cN\u00e3o sei o que \u00e9 conhecer-me\u201d) e Bernardo Soares (\u201cMas n\u00e3o h\u00e1 sossego \u2013 e ai de mim! Nem sequer h\u00e1 desejo de o ter\u201d). Se Pessoa tivesse um computador \u00e0 sua merc\u00ea quantos mais heter\u00f4nimos teria criado e o que eles n\u00e3o haveriam escrito?<br \/>\nEsta semana, conversando com o Embaixador portugu\u00eas no Brasil, Francisco Ribeiro Telles, falei sobre a Colet\u00e2nea das cartas trocadas entre Fernando e Of\u00e9lia Queiroz, que no Brasil sair\u00e1 no pr\u00f3ximo ano. Ele, como diplomata, falou sobre o tema, mas estava mesmo preocupado com as medidas fiscais que o seu pa\u00eds est\u00e1 a tomar de modo for\u00e7ado. Este \u00e9 o mundo que o D\u00f3lar, o Euro e o Yan criaram.<br \/>\nVoltando \u00e0s cartas trocadas entre Fernando Pessoa e a quase-namorada Of\u00e9lia Queiroz, creio que elas dizem pouco, pois nada mais s\u00e3o que um quase com fim. Leio e adoto texto enviado por Isabel Coutinho para a Folha de SP. Pessoa sempre foi esquivo. Ele se auto define: \u201c\u00c9 preciso que todos, que lidam comigo, se conven\u00e7am de que sou assim&#8230;\u201d Assim como? Perguntaria algu\u00e9m. N\u00e3o sei. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/10\/2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, pelos Correios, recebem-se cobran\u00e7as banc\u00e1rias, convites, propagandas, oferecimento de cart\u00f5es de cr\u00e9dito, lan\u00e7amentos imobili\u00e1rios, cumprimentos de pol\u00edticos no Natal e em datas anivers\u00e1rias, agradecimentos de fam\u00edlias dos mortos amigos e que tais.<br \/>\nExauriu-se o tempo em que cartas nos traziam boas ou m\u00e1s not\u00edcias, esperadas sofregamente. O Carteiro \u00e9 hoje um mero despachante abarrotado de envelopes em pastas a tiracolo cujos conte\u00fados nos dizem quase nada.<br \/>\nHoje a comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 instant\u00e2nea &#8211; pelo computador e telefone e, quase sempre, em palavras abreviadas, como se a pressa impedisse o outro de ser mais expl\u00edcito ou cordial. Vivemos um tempo minimalista e vol\u00e1til. Nada \u00e9 permanente. Tudo \u00e9 programado para cair em desuso ou ficar careta e antiquado. Os \u201cnerds\u201d, nome dado aos que se ligam em tudo na comunica\u00e7\u00e3o informatizada e que pouco se situam no nosso mundo, dito real, viram adictos em mudan\u00e7as e criam comunidades com com\u00e9rcio e linguagens pr\u00f3prias.<br \/>\nA propaganda nos impinge todos os anos, lan\u00e7amentos de novas vers\u00f5es de celulares, tabletes e computadores Nenhum de n\u00f3s, os meros usu\u00e1rios dessas m\u00e1quinas que usamos para o trabalho e a comunica\u00e7\u00e3o com amigos, tem o dom\u00ednio absoluto dos constantes \u201cupgrades\u201d ou melhorias para os nossos notebooks e celulares, programados que s\u00e3o para a breve obsolesc\u00eancia.<br \/>\nImagino, por exemplo, como seria a vida do poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa (1888 -1935), se vivo fosse agora. Pessoa usava v\u00e1rios heter\u00f4nimos (criaturas inventadas por ele com profiss\u00e3o e caracter\u00edsticas particulares, com estilos e modos dessemelhantes). Cito os principais: \u00c1lvaro de Campos (\u201cTodas as cartas de amor s\u00e3o rid\u00edculas), Ricardo Reis(\u201cDa verdade n\u00e3o quero mais que a vida\u201d), Alberto Caeiro(\u201cN\u00e3o sei o que \u00e9 conhecer-me\u201d) e Bernardo Soares (\u201cMas n\u00e3o h\u00e1 sossego \u2013 e ai de mim! Nem sequer h\u00e1 desejo de o ter\u201d). Se Pessoa tivesse um computador \u00e0 sua merc\u00ea quantos mais heter\u00f4nimos teria criado e o que eles n\u00e3o haveriam escrito?<br \/>\nEsta semana, conversando com o Embaixador portugu\u00eas no Brasil, Francisco Ribeiro Telles, falei sobre a Colet\u00e2nea das cartas trocadas entre Fernando e Of\u00e9lia Queiroz, que no Brasil sair\u00e1 no pr\u00f3ximo ano. Ele, como diplomata, falou sobre o tema, mas estava mesmo preocupado com as medidas fiscais que o seu pa\u00eds est\u00e1 a tomar de modo for\u00e7ado. Este \u00e9 o mundo que o D\u00f3lar, o Euro e o Yan criaram.<br \/>\nVoltando \u00e0s cartas trocadas entre Fernando Pessoa e a quase-namorada Of\u00e9lia Queiroz, creio que elas dizem pouco, pois nada mais s\u00e3o que um quase com fim. Leio e adoto texto enviado por Isabel Coutinho para a Folha de SP. Pessoa sempre foi esquivo. Ele se auto define: \u201c\u00c9 preciso que todos, que lidam comigo, se conven\u00e7am de que sou assim&#8230;\u201d Assim como? Perguntaria algu\u00e9m. N\u00e3o sei. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19\/10\/2012.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3084","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3084","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3084"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3084\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3084"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3084"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3084"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}