{"id":3095,"date":"2023-12-21T09:10:37","date_gmt":"2023-12-21T12:10:37","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cronica-de-natercia-campos-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:37","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:37","slug":"cronica-de-natercia-campos-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/cronica-de-natercia-campos-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CR\u00d4NICA DE NAT\u00c9RCIA CAMPOS &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Em pequenas folhas de papel, com gravuras do franc\u00eas Claude Monet(1840-1926), recebi, em janeiro de 2002, esta carta de Nat\u00e9rcia Campos, a amiga escritora que perdi para o inescrut\u00e1vel, depois de anos de luta.<br \/>\nNat\u00e9rcia viajava a Bras\u00edlia para a posse da filha Clarissa em fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, decorrente de concurso. Escrevi, antes da sua viagem, algumas palavras em postal do reconhecido pintor americano Edward Hopper (1882-1967), que retrata, basicamente, situa\u00e7\u00f5es que falam de solid\u00e3o. Como dez anos passaram, creio poder dar a palavra \u00e0 Nat\u00e9rcia Campos, com partes do texto integral, por escrito, que guardo:<br \/>\n\u201cJo\u00e3o, estou no sagu\u00e3o de espera. O v\u00f4o sai \u00e0s 15.40hs. S\u00e3o 15.10hs. O que me faz feliz \u00e9 ter recebido seu cart\u00e3o \u2018de surpresa\u2019, ler e ser por voc\u00ea instigada!. As perguntas me levam a pensar, a imaginar e esta expectativa \u00e9 a pitada exata de sal&#8230;se n\u00e3o houvesse esta reprodu\u00e7\u00e3o de Edward Hopper eu estaria aqui a espera, lendo a \u201cVeja\u201d(acabei de adquirir) e no \u201cao\u201d vou ler o Mainard&#8230; e l\u00f3gico pensarei na pr\u00f3xima alegria da Clarissa quando avistar a M\u00e2i\u00f1ha (assim ela me chama).<br \/>\nAgora j\u00e1 afivelei o cinto. S\u00e3o 15.50hs. Atrasou. Voc\u00ea e o seu cart\u00e3o me levam para outros caminhos e devaneios. Bem pr\u00e1tica, olho a mulher e penso que ela aproveita o sol estival. Assim tamb\u00e9m \u00e9 o sol que atravessa minha janelinha deste avi\u00e3o. As janelas da sala dela s\u00e3o altas e os vidros refletem um c\u00e9u azul sem nuvens. Ela \u00e9 uma mulher ordeira. Na mesa s\u00f3 vaso com flores quebra com a luz o frio da cena. Ao longe vislumbro uma cidade. Ela j\u00e1 deve estar em um sub\u00farbio, pois \u00e9 grande a dist\u00e2ncia. Ela est\u00e1 impec\u00e1vel, o cabelo bem cortado revela seu pesco\u00e7o longo e branco. Os reposteiros est\u00e3o levantados quase na mesma altura. Eu n\u00e3o gostaria de aqui viver. Nela descubro coisas que diferem de mim: n\u00e3o gosto de estar sozinha e de costas para todo um ambiente (quarto ou sala)&#8230;tenho a sensa\u00e7\u00e3o de estar indefesa. O avi\u00e3o come\u00e7a a se mexer&#8230; vai de r\u00e9. S\u00e3o 16,05! Gostaria de t\u00ea-lo ao meu lado. Engra\u00e7ado, a cadeira est\u00e1 vazia. Um cheiro d\u2019eu.\u201d<br \/>\nE continua, ap\u00f3s a decolagem: \u201cVoc\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m Campos da\u00ed tanta afinidade&#8230;Eu tamb\u00e9m sou Soares&#8230; \u00e9 rec\u00edproco. A Carol ficou feliz com o seu cart\u00e3o. Tudo \u201cl\u00e1 fora\u201d \u00e9 branco e a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de voar em avi\u00e3o pequeno. O sol tem luz de prata. O comandante pede que \u2018os passageiros fiquem sentados e com os cintos\u2019. Continuamos no mundo branco. N\u00e3o me admiraria se visse, de repente, um anjo! Veja como foi uma maravilha seu cart\u00e3o. Fez esta viagem trepidante tornar-se amena. Palavras e pensamentos s\u00e3o companheiros\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/11\/2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em pequenas folhas de papel, com gravuras do franc\u00eas Claude Monet(1840-1926), recebi, em janeiro de 2002, esta carta de Nat\u00e9rcia Campos, a amiga escritora que perdi para o inescrut\u00e1vel, depois de anos de luta.<br \/>\nNat\u00e9rcia viajava a Bras\u00edlia para a posse da filha Clarissa em fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, decorrente de concurso. Escrevi, antes da sua viagem, algumas palavras em postal do reconhecido pintor americano Edward Hopper (1882-1967), que retrata, basicamente, situa\u00e7\u00f5es que falam de solid\u00e3o. Como dez anos passaram, creio poder dar a palavra \u00e0 Nat\u00e9rcia Campos, com partes do texto integral, por escrito, que guardo:<br \/>\n\u201cJo\u00e3o, estou no sagu\u00e3o de espera. O v\u00f4o sai \u00e0s 15.40hs. S\u00e3o 15.10hs. O que me faz feliz \u00e9 ter recebido seu cart\u00e3o \u2018de surpresa\u2019, ler e ser por voc\u00ea instigada!. As perguntas me levam a pensar, a imaginar e esta expectativa \u00e9 a pitada exata de sal&#8230;se n\u00e3o houvesse esta reprodu\u00e7\u00e3o de Edward Hopper eu estaria aqui a espera, lendo a \u201cVeja\u201d(acabei de adquirir) e no \u201cao\u201d vou ler o Mainard&#8230; e l\u00f3gico pensarei na pr\u00f3xima alegria da Clarissa quando avistar a M\u00e2i\u00f1ha (assim ela me chama).<br \/>\nAgora j\u00e1 afivelei o cinto. S\u00e3o 15.50hs. Atrasou. Voc\u00ea e o seu cart\u00e3o me levam para outros caminhos e devaneios. Bem pr\u00e1tica, olho a mulher e penso que ela aproveita o sol estival. Assim tamb\u00e9m \u00e9 o sol que atravessa minha janelinha deste avi\u00e3o. As janelas da sala dela s\u00e3o altas e os vidros refletem um c\u00e9u azul sem nuvens. Ela \u00e9 uma mulher ordeira. Na mesa s\u00f3 vaso com flores quebra com a luz o frio da cena. Ao longe vislumbro uma cidade. Ela j\u00e1 deve estar em um sub\u00farbio, pois \u00e9 grande a dist\u00e2ncia. Ela est\u00e1 impec\u00e1vel, o cabelo bem cortado revela seu pesco\u00e7o longo e branco. Os reposteiros est\u00e3o levantados quase na mesma altura. Eu n\u00e3o gostaria de aqui viver. Nela descubro coisas que diferem de mim: n\u00e3o gosto de estar sozinha e de costas para todo um ambiente (quarto ou sala)&#8230;tenho a sensa\u00e7\u00e3o de estar indefesa. O avi\u00e3o come\u00e7a a se mexer&#8230; vai de r\u00e9. S\u00e3o 16,05! Gostaria de t\u00ea-lo ao meu lado. Engra\u00e7ado, a cadeira est\u00e1 vazia. Um cheiro d\u2019eu.\u201d<br \/>\nE continua, ap\u00f3s a decolagem: \u201cVoc\u00ea \u00e9 tamb\u00e9m Campos da\u00ed tanta afinidade&#8230;Eu tamb\u00e9m sou Soares&#8230; \u00e9 rec\u00edproco. A Carol ficou feliz com o seu cart\u00e3o. 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Palavras e pensamentos s\u00e3o companheiros\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 30\/11\/2012.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3095","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3095","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3095"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3095\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}