{"id":3132,"date":"2023-12-21T09:10:38","date_gmt":"2023-12-21T12:10:38","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/julia-saraiva-caminha-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:38","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:38","slug":"julia-saraiva-caminha-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/julia-saraiva-caminha-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"J\u00daLIA SARAIVA CAMINHA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Houve um tempo, no fim do s\u00e9culo 19 e at\u00e9 o s\u00e9culo passado, em que fam\u00edlias viviam entrela\u00e7adas por v\u00ednculos de profundo afeto. Falo, especificamente, das fam\u00edlias que se uniram pelo casamento de Jo\u00e3o Caminha Monteiro e Luiza Saraiva Le\u00e3o, meus av\u00f3s maternos. O Farmac\u00eautico Jo\u00e3o Caminha Monteiro havia sido educado por sua tia, Eulina (Yay\u00e1) Bezerra Monteiro, solteira at\u00e9 \u00e0 veneranda morte, olhos claros, pele muito branca, quase transparente, religiosa de missa di\u00e1ria, cabelos arrematados em coque e simplicidade profunda.<br \/>\nJo\u00e3o, meu av\u00f4 materno, morreu de c\u00e2ncer no est\u00f4mago, aos 42 anos, depois de longa enfermidade, deixando muitos filhos e uma desolada vi\u00fava, apoiada por seu tio, o Padre Jo\u00e3o Saraiva Le\u00e3o. Yay\u00e1, que a tudo acompanhara, pediu \u00e0 Luiza, minha av\u00f3, para ajudar. E a achega consistiu em levar para a sua casa a sobrinha-neta J\u00falia Saraiva Caminha, estudante do Col\u00e9gio das Dorot\u00e9ias. Assim, J\u00falia passou a ser a filha que Yay\u00e1 nunca teve.<br \/>\nA jovem J\u00falia, j\u00e1 formada, submeteu-se a um rigoroso concurso p\u00fablico para o ent\u00e3o cobi\u00e7ado cargo de Inspetor Federal de Ensino, do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Eram muitos os candidatos. Poucos passaram. Entres eles, J\u00falia e seus futuros colegas Ed\u00edlson Brasil So\u00e1rez e Hugo Porto. O tempo passava e J\u00falia, ao mesmo tempo em que trabalhava, ainda ministrava aulas particulares para parentes e amigos.<br \/>\nSua amiga e colega das Dorot\u00e9ias, Marister Machado Juc\u00e1, pediu que a ajudasse na educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Assim o fez. Eu, o sobrinho mais velho, aos 10 anos, ainda de cal\u00e7as curtas, quis fazer o Exame de Admiss\u00e3o ao Gin\u00e1sio do Farias Brito, pulando o ent\u00e3o 5\u00ba. Ano. Tive muitas aulas com a Tia Julinha e passei sem problemas. Anos depois, Margarida, minha m\u00e3e, engravidava pela nona vez. Gravidez normal, at\u00e9 que levou um choque na geladeira de casa. Dias depois, nascia Luiza Helena. Yay\u00e1 ainda era viva. Ela e a Tia Julinha, que moravam no nosso quarteir\u00e3o da Visconde do Rio Branco, foram ver a sobrinha e se encantaram com ela. Pediram, de princ\u00edpio, que ela ficasse l\u00e1 durante o dia, para desafogar a casa, plena de crian\u00e7as. E a\u00ed Luiza foi ficando por l\u00e1.<br \/>\nJ\u00falia, tamb\u00e9m solteira, culta, declamadora de longos poemas, cat\u00f3lica fervorosa e simples, caiu de amores por Luiza. Repetia-se a tradi\u00e7\u00e3o. Ela cresceu, formou-se em Sociologia e casou com o m\u00e9dico Winifried Hechelmann. Tia Julinha n\u00e3o entendia porque Luiza, sua sobrinha-filha, iria morar na Alemanha. Coisas do destino. Luiza teve duas belas filhas l\u00e1 na terra de Goethe, ambas nas presen\u00e7as de Margarida e J\u00falia. A primeira foi batizada com o nome J\u00falia, em homenagem \u00e0 tia-av\u00f3. A segunda, recebeu o nome de Isabella, por ter nascido no dia sete de setembro. Ontem, 25 de maio de 2011, J\u00falia Saraiva Caminha,90 anos, serena, partiu para o insond\u00e1vel. As almas, imagino, podem voar e ela, certamente, deve ter dado um sobrevoo pela Germ\u00e2nia para olhar as suas duas sobrinhas-netas estudando medicina e sua sobrinha-filha Luiza, parceira fiel da cl\u00ednica de seu marido, Wini.<br \/>\nEsta \u00e9 uma hist\u00f3ria familiar, de vida e amor. Simples, como devem ser as das pessoas de bem que fazem de suas hist\u00f3rias uma eterna doa\u00e7\u00e3o. Ela, certa vez, me mandou, entre bilhetes trocados, o seu salmo preferido: Sl 9.10: \u201cPorque aqueles que buscam o Senhor t\u00eam o seu cora\u00e7\u00e3o voltado para o irm\u00e3o sofredor\u201d. Tia Julinha, descanse em paz.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/05\/2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo, no fim do s\u00e9culo 19 e at\u00e9 o s\u00e9culo passado, em que fam\u00edlias viviam entrela\u00e7adas por v\u00ednculos de profundo afeto. Falo, especificamente, das fam\u00edlias que se uniram pelo casamento de Jo\u00e3o Caminha Monteiro e Luiza Saraiva Le\u00e3o, meus av\u00f3s maternos. O Farmac\u00eautico Jo\u00e3o Caminha Monteiro havia sido educado por sua tia, Eulina (Yay\u00e1) Bezerra Monteiro, solteira at\u00e9 \u00e0 veneranda morte, olhos claros, pele muito branca, quase transparente, religiosa de missa di\u00e1ria, cabelos arrematados em coque e simplicidade profunda.<br \/>\nJo\u00e3o, meu av\u00f4 materno, morreu de c\u00e2ncer no est\u00f4mago, aos 42 anos, depois de longa enfermidade, deixando muitos filhos e uma desolada vi\u00fava, apoiada por seu tio, o Padre Jo\u00e3o Saraiva Le\u00e3o. Yay\u00e1, que a tudo acompanhara, pediu \u00e0 Luiza, minha av\u00f3, para ajudar. E a achega consistiu em levar para a sua casa a sobrinha-neta J\u00falia Saraiva Caminha, estudante do Col\u00e9gio das Dorot\u00e9ias. Assim, J\u00falia passou a ser a filha que Yay\u00e1 nunca teve.<br \/>\nA jovem J\u00falia, j\u00e1 formada, submeteu-se a um rigoroso concurso p\u00fablico para o ent\u00e3o cobi\u00e7ado cargo de Inspetor Federal de Ensino, do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. Eram muitos os candidatos. Poucos passaram. Entres eles, J\u00falia e seus futuros colegas Ed\u00edlson Brasil So\u00e1rez e Hugo Porto. O tempo passava e J\u00falia, ao mesmo tempo em que trabalhava, ainda ministrava aulas particulares para parentes e amigos.<br \/>\nSua amiga e colega das Dorot\u00e9ias, Marister Machado Juc\u00e1, pediu que a ajudasse na educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Assim o fez. Eu, o sobrinho mais velho, aos 10 anos, ainda de cal\u00e7as curtas, quis fazer o Exame de Admiss\u00e3o ao Gin\u00e1sio do Farias Brito, pulando o ent\u00e3o 5\u00ba. Ano. Tive muitas aulas com a Tia Julinha e passei sem problemas. Anos depois, Margarida, minha m\u00e3e, engravidava pela nona vez. Gravidez normal, at\u00e9 que levou um choque na geladeira de casa. Dias depois, nascia Luiza Helena. Yay\u00e1 ainda era viva. Ela e a Tia Julinha, que moravam no nosso quarteir\u00e3o da Visconde do Rio Branco, foram ver a sobrinha e se encantaram com ela. Pediram, de princ\u00edpio, que ela ficasse l\u00e1 durante o dia, para desafogar a casa, plena de crian\u00e7as. E a\u00ed Luiza foi ficando por l\u00e1.<br \/>\nJ\u00falia, tamb\u00e9m solteira, culta, declamadora de longos poemas, cat\u00f3lica fervorosa e simples, caiu de amores por Luiza. Repetia-se a tradi\u00e7\u00e3o. Ela cresceu, formou-se em Sociologia e casou com o m\u00e9dico Winifried Hechelmann. Tia Julinha n\u00e3o entendia porque Luiza, sua sobrinha-filha, iria morar na Alemanha. Coisas do destino. Luiza teve duas belas filhas l\u00e1 na terra de Goethe, ambas nas presen\u00e7as de Margarida e J\u00falia. A primeira foi batizada com o nome J\u00falia, em homenagem \u00e0 tia-av\u00f3. A segunda, recebeu o nome de Isabella, por ter nascido no dia sete de setembro. Ontem, 25 de maio de 2011, J\u00falia Saraiva Caminha,90 anos, serena, partiu para o insond\u00e1vel. As almas, imagino, podem voar e ela, certamente, deve ter dado um sobrevoo pela Germ\u00e2nia para olhar as suas duas sobrinhas-netas estudando medicina e sua sobrinha-filha Luiza, parceira fiel da cl\u00ednica de seu marido, Wini.<br \/>\nEsta \u00e9 uma hist\u00f3ria familiar, de vida e amor. Simples, como devem ser as das pessoas de bem que fazem de suas hist\u00f3rias uma eterna doa\u00e7\u00e3o. Ela, certa vez, me mandou, entre bilhetes trocados, o seu salmo preferido: Sl 9.10: \u201cPorque aqueles que buscam o Senhor t\u00eam o seu cora\u00e7\u00e3o voltado para o irm\u00e3o sofredor\u201d. Tia Julinha, descanse em paz.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\n escritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27\/05\/2011.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3132","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3132","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3132"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3132\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3132"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3132"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3132"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}