{"id":3143,"date":"2023-12-21T09:10:38","date_gmt":"2023-12-21T12:10:38","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-entrevista-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:38","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:38","slug":"a-entrevista-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-entrevista-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"A ENTREVISTA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Recentemente fui visitado no trabalho por uma estudante universit\u00e1ria. Usava \u00f3culos de grau com aros vermelhos (lembram da Rita Lee?), tinha cabelos encaracolados, cores indefinidas. Cal\u00e7ava rasteira (\u00e9 assim que se diz das sand\u00e1lias rasas), saia larga de chita marrom bem abaixo do joelho, camiseta branca de algod\u00e3o customizada (s\u00e3o as que se tiram as mangas, mudam o decote e cortam a bainha deixando aparecer fiapos) com pingos de tintas multicores.<br \/>\nUsava pulseiras de linhas entrela\u00e7adas em croch\u00ea, nos dois pulsos. Ao pesco\u00e7o, um grosso cord\u00e3o preto finando em bolsinha com tr\u00eas canetas. Sabia o meu nome, o que fazia (havia lido livros e textos meus) e gostaria que respondesse a algumas perguntas. Para qu\u00ea, perguntei. Falou ser para a monografia de fim de curso. Aqui n\u00e3o importa dizer qual, direi que era da \u00e1rea de ci\u00eancias sociais. N\u00e3o teria mais que 22 anos. Assim, era metade s\u00e9culo 20, metade 21. Chamou-me de Jo\u00e3o, mordeu a ponta de sua caneta, sentou na borda da cadeira e disse, de cara: voc\u00ea mente? Indaguei por que deveria responder. Ela retrucou: se voc\u00ea disser que n\u00e3o mente, a conversa est\u00e1 encerrada. Foi ent\u00e3o que perguntei: qual a raz\u00e3o disso tudo? Ela voltou a mordiscar a caneta. Falou que n\u00e3o havia verdade (grande novidade&#8230;), todas as pessoas tinham segredos.<br \/>\nEsse era o objeto de sua monografia com t\u00edtulo algo assim (pelo menos, foi o que entendi): \u201cDe como as pessoas se apegam \u00e0s mentiras, quando \u00e9 mais f\u00e1cil falar a verdade\u201d. Entrei na dela: pergunte o que quiser. Como voc\u00ea trabalha tanto e tem tempo para escrever? Ser\u00e1 que \u00e9 voc\u00ea mesmo quem escreve? O meu notebook estava aberto. Acessei o Word e fiz o resumo do seu trajar e de como a via. Dei ordem \u00e0 impressora e recebi o papel ainda \u00famido. Entreguei a ela. Era quase o que ora apresento, a diferen\u00e7a \u00e9 que nesse pequeno texto, falava da minha alegria ao v\u00ea-la esgrimindo, destemidamente, com pessoa de outra gera\u00e7\u00e3o. E conclu\u00eda: nunca tenha medo. Posso ficar com este papel? Claro, respondi. Ela, ent\u00e3o, fez as perguntas. Respondi o que pensava. Anotava tudo em p\u00e1ginas de agenda cheia de adesivos e, ao final, disse: voc\u00ea parece careta, mas n\u00e3o \u00e9. Menos Mal.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 24\/07\/2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente fui visitado no trabalho por uma estudante universit\u00e1ria. Usava \u00f3culos de grau com aros vermelhos (lembram da Rita Lee?), tinha cabelos encaracolados, cores indefinidas. Cal\u00e7ava rasteira (\u00e9 assim que se diz das sand\u00e1lias rasas), saia larga de chita marrom bem abaixo do joelho, camiseta branca de algod\u00e3o customizada (s\u00e3o as que se tiram as mangas, mudam o decote e cortam a bainha deixando aparecer fiapos) com pingos de tintas multicores.<br \/>\nUsava pulseiras de linhas entrela\u00e7adas em croch\u00ea, nos dois pulsos. Ao pesco\u00e7o, um grosso cord\u00e3o preto finando em bolsinha com tr\u00eas canetas. Sabia o meu nome, o que fazia (havia lido livros e textos meus) e gostaria que respondesse a algumas perguntas. Para qu\u00ea, perguntei. Falou ser para a monografia de fim de curso. Aqui n\u00e3o importa dizer qual, direi que era da \u00e1rea de ci\u00eancias sociais. N\u00e3o teria mais que 22 anos. Assim, era metade s\u00e9culo 20, metade 21. Chamou-me de Jo\u00e3o, mordeu a ponta de sua caneta, sentou na borda da cadeira e disse, de cara: voc\u00ea mente? Indaguei por que deveria responder. Ela retrucou: se voc\u00ea disser que n\u00e3o mente, a conversa est\u00e1 encerrada. Foi ent\u00e3o que perguntei: qual a raz\u00e3o disso tudo? Ela voltou a mordiscar a caneta. Falou que n\u00e3o havia verdade (grande novidade&#8230;), todas as pessoas tinham segredos.<br \/>\nEsse era o objeto de sua monografia com t\u00edtulo algo assim (pelo menos, foi o que entendi): \u201cDe como as pessoas se apegam \u00e0s mentiras, quando \u00e9 mais f\u00e1cil falar a verdade\u201d. Entrei na dela: pergunte o que quiser. Como voc\u00ea trabalha tanto e tem tempo para escrever? Ser\u00e1 que \u00e9 voc\u00ea mesmo quem escreve? O meu notebook estava aberto. Acessei o Word e fiz o resumo do seu trajar e de como a via. Dei ordem \u00e0 impressora e recebi o papel ainda \u00famido. Entreguei a ela. Era quase o que ora apresento, a diferen\u00e7a \u00e9 que nesse pequeno texto, falava da minha alegria ao v\u00ea-la esgrimindo, destemidamente, com pessoa de outra gera\u00e7\u00e3o. E conclu\u00eda: nunca tenha medo. Posso ficar com este papel? Claro, respondi. Ela, ent\u00e3o, fez as perguntas. Respondi o que pensava. Anotava tudo em p\u00e1ginas de agenda cheia de adesivos e, ao final, disse: voc\u00ea parece careta, mas n\u00e3o \u00e9. Menos Mal.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 24\/07\/2011.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3143","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3143","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3143"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3143\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3143"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3143"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3143"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}