{"id":3155,"date":"2023-12-21T09:10:39","date_gmt":"2023-12-21T12:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/verdade-inventada-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:39","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:39","slug":"verdade-inventada-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/verdade-inventada-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"VERDADE INVENTADA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Com uma semana de anteced\u00eancia ela comemora a sua data. Tem pressa para viver no presente. O passado est\u00e1 emoldurado. E o faz cercada da fam\u00edlia, das filhas meninas, de um batalh\u00e3o de colegas e amigos que a acompanham desde o \u201cCanarinho\u201d, o \u201cSanta Cec\u00edlia\u201d, o \u201cBatista\u201d, \u201cBoca Ciega\u201d e a Uece. Como defini-la? alegre, irreverente, avant-garde, comunicativa, derramada, afetiva, curiosa, corajosa, calorosa, inteligente, braba, meiga, chorona e beijoqueira. Nasceu em uma sexta-feira, o dia em que todos se preparam para a festa que \u00e9 o fim de semana. Ela foi a festa. Primog\u00eanita em s\u00e9rie que a sucedeu com o mesmo calor, amor e carinho. No seu convite, cita, de forma resoluta, Clarice Lispector: \u201cN\u00e3o quero ter a terr\u00edvel limita\u00e7\u00e3o de quem vive apenas do que \u00e9 pass\u00edvel de fazer sentido. Eu n\u00e3o: quero uma verdade inventada\u201d. Parece que acertou em cheio. Sua vida \u00e9 verdade inventada por ela mesma, sem palpite de pai ou m\u00e3e. Fui, al\u00e9m da m\u00e3e e da equipe m\u00e9dica, o primeiro a v\u00ea-la e beij\u00e1-la. Que nome dar a ela? Havia comprado um livro com centenas de nomes, mas nada ficara decidido. A m\u00e3e, pressurosa, sugeriu o nome de uma czarina russa. Assim ficou. Como pai-coruja j\u00e1 estava escrevendo deslumbrado no seu livro do beb\u00ea. Depois, abreviei o nome, de forma mais conexa.<br \/>\nPrimeiro dia de aula. L\u00e1 fomos, a m\u00e3e e eu, lev\u00e1-la ao maternal. Haja choro. N\u00f3s acabamos chorando, tamb\u00e9m. Depois, veio a adapta\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de la\u00e7os de afeto com os coleginhas. Acontece que a vida n\u00e3o produz s\u00f3 flor. Dizia o doce Vin\u00edcius que \u201cfilho \u00e9 uma raiz de dente exposta\u201d. Passamos sete dias em Belo Horizonte. Legal. Findo o maternal, era hora de procurar col\u00e9gio novo, maior e adequado para o seu perfil. Vai para o Santa Cec\u00edlia onde esteve por anos. Fazia parte do processo. E a menina recebeu, com alegria, a chegada das irm\u00e3s, uma, duas e tr\u00eas. A \u00faltima, por m\u00e3os da natureza, nasceu no mesmo dia que ela, por conta de uma casa de bonecas. Come\u00e7am as aulas de bal\u00e9, aprender a nadar e o ingl\u00eas.Festivais, carnavais e que tais. A casa de praia nas f\u00e9rias em que fic\u00e1vamos brincando e recebendo amigos. Quebra um bra\u00e7o e l\u00e1 se vai o fim de semana para o ar. Chega a puberdade, florescem d\u00favidas, abrolha a ang\u00fastia. N\u00f3s, atentos e confusos, sem saber como lidar com as mudan\u00e7as advindas para todos. Surge a ideia do interc\u00e2mbio nos USA. Viajo como destacamento precursor, para ver escola, conversar com a dire\u00e7\u00e3o e acertar, com os tios, a estada. Levei e voltei com duas, carro atulhado, pois a segunda a acompanhava. Fez amizades com colegas e uma delas deve estar agora na festa de que falei no primeiro par\u00e1grafo. Choro em rodovi\u00e1ria. Termina o col\u00e9gio e entra direto na Universidade Estadual do Cear\u00e1. L\u00e1 do outro lado da cidade, todos os dias. Mesmo com resmungos, ups e downs, termina o curso sem problema. Resolve estudar teatro e participa de curso completo na Unifor. \u00c9 bom lembrar ter sido sempre a core\u00f3grafa de sua turma. Reunia irm\u00e3s e filhos de amigos comuns, montava pe\u00e7as, desfiles e jogos, tudo sob os nossos olhares. Viajou mundo afora. E a mo\u00e7a quis casar. E assim o fez, como quis, concebendo duas belas filhotas. Agora, no limiar da segunda metade do existir, decide, cria, arregimenta fam\u00edlia e amigos para um \u201chappening\u201d vespertino com o seu feeling e modo de ser. Parab\u00e9ns, Deus a aben\u00e7oe, agora e sempre. Cheiro. Estou por perto. Take care.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 17\/09\/2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com uma semana de anteced\u00eancia ela comemora a sua data. Tem pressa para viver no presente. O passado est\u00e1 emoldurado. E o faz cercada da fam\u00edlia, das filhas meninas, de um batalh\u00e3o de colegas e amigos que a acompanham desde o \u201cCanarinho\u201d, o \u201cSanta Cec\u00edlia\u201d, o \u201cBatista\u201d, \u201cBoca Ciega\u201d e a Uece. Como defini-la? alegre, irreverente, avant-garde, comunicativa, derramada, afetiva, curiosa, corajosa, calorosa, inteligente, braba, meiga, chorona e beijoqueira. Nasceu em uma sexta-feira, o dia em que todos se preparam para a festa que \u00e9 o fim de semana. Ela foi a festa. Primog\u00eanita em s\u00e9rie que a sucedeu com o mesmo calor, amor e carinho. No seu convite, cita, de forma resoluta, Clarice Lispector: \u201cN\u00e3o quero ter a terr\u00edvel limita\u00e7\u00e3o de quem vive apenas do que \u00e9 pass\u00edvel de fazer sentido. Eu n\u00e3o: quero uma verdade inventada\u201d. Parece que acertou em cheio. Sua vida \u00e9 verdade inventada por ela mesma, sem palpite de pai ou m\u00e3e. Fui, al\u00e9m da m\u00e3e e da equipe m\u00e9dica, o primeiro a v\u00ea-la e beij\u00e1-la. Que nome dar a ela? Havia comprado um livro com centenas de nomes, mas nada ficara decidido. A m\u00e3e, pressurosa, sugeriu o nome de uma czarina russa. Assim ficou. Como pai-coruja j\u00e1 estava escrevendo deslumbrado no seu livro do beb\u00ea. Depois, abreviei o nome, de forma mais conexa.<br \/>\nPrimeiro dia de aula. L\u00e1 fomos, a m\u00e3e e eu, lev\u00e1-la ao maternal. Haja choro. N\u00f3s acabamos chorando, tamb\u00e9m. Depois, veio a adapta\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o de la\u00e7os de afeto com os coleginhas. Acontece que a vida n\u00e3o produz s\u00f3 flor. Dizia o doce Vin\u00edcius que \u201cfilho \u00e9 uma raiz de dente exposta\u201d. Passamos sete dias em Belo Horizonte. Legal. Findo o maternal, era hora de procurar col\u00e9gio novo, maior e adequado para o seu perfil. Vai para o Santa Cec\u00edlia onde esteve por anos. Fazia parte do processo. E a menina recebeu, com alegria, a chegada das irm\u00e3s, uma, duas e tr\u00eas. A \u00faltima, por m\u00e3os da natureza, nasceu no mesmo dia que ela, por conta de uma casa de bonecas. Come\u00e7am as aulas de bal\u00e9, aprender a nadar e o ingl\u00eas.Festivais, carnavais e que tais. A casa de praia nas f\u00e9rias em que fic\u00e1vamos brincando e recebendo amigos. Quebra um bra\u00e7o e l\u00e1 se vai o fim de semana para o ar. Chega a puberdade, florescem d\u00favidas, abrolha a ang\u00fastia. N\u00f3s, atentos e confusos, sem saber como lidar com as mudan\u00e7as advindas para todos. Surge a ideia do interc\u00e2mbio nos USA. Viajo como destacamento precursor, para ver escola, conversar com a dire\u00e7\u00e3o e acertar, com os tios, a estada. Levei e voltei com duas, carro atulhado, pois a segunda a acompanhava. Fez amizades com colegas e uma delas deve estar agora na festa de que falei no primeiro par\u00e1grafo. Choro em rodovi\u00e1ria. Termina o col\u00e9gio e entra direto na Universidade Estadual do Cear\u00e1. L\u00e1 do outro lado da cidade, todos os dias. Mesmo com resmungos, ups e downs, termina o curso sem problema. Resolve estudar teatro e participa de curso completo na Unifor. \u00c9 bom lembrar ter sido sempre a core\u00f3grafa de sua turma. Reunia irm\u00e3s e filhos de amigos comuns, montava pe\u00e7as, desfiles e jogos, tudo sob os nossos olhares. Viajou mundo afora. E a mo\u00e7a quis casar. E assim o fez, como quis, concebendo duas belas filhotas. Agora, no limiar da segunda metade do existir, decide, cria, arregimenta fam\u00edlia e amigos para um \u201chappening\u201d vespertino com o seu feeling e modo de ser. Parab\u00e9ns, Deus a aben\u00e7oe, agora e sempre. Cheiro. Estou por perto. 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