{"id":3162,"date":"2023-12-21T09:10:39","date_gmt":"2023-12-21T12:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-telefone-toca-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:39","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:39","slug":"o-telefone-toca-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/o-telefone-toca-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"O TELEFONE TOCA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>O telefone toca. N\u00e3o atendo. Toca, novamente. Al\u00f4. Reclama\u00e7\u00f5es de uma m\u00e3e. Ou\u00e7o tudo. \u00c9 um desabafo forte, sofrido e abusado. A filha dela mudou o compasso. N\u00e3o entra em contato com parentes. O que lhe causava pejo parece ter, aparentemente, modificado. Encastela-se no seu mutismo e n\u00e3o ouve ningu\u00e9m. Acredita-se capaz de tocar a sua vida, sem palpites e destemor. A vida n\u00e3o \u00e9 id\u00edlio. Vidas t\u00eam borr\u00f5es inapag\u00e1veis e n\u00e3o d\u00e1 direito a pausas, replays ou o uso de corretivos. Vida \u00e9 tr\u00e2nsito, direto. Vida \u00e9 constru\u00e7\u00e3o em caderno de folhas a serem escrevinhadas &#8211; riscadas, sublinhadas, emendadas &#8211; apenas a cada dia. Quando a p\u00e1gina vira, virou.<br \/>\nOs dias precisam ser conjugados com temperan\u00e7a ou destemor, amor e trabalho. \u00c9 claro que o instinto vale, mas h\u00e1 que se lan\u00e7ar para viver, mesmo que se trombe, caia, o humor mude, vacile ou desacerte o passo. A pitada de alegria que d\u00e1 o condimento do viver tem que ser aditada \u00e0 \u00e1gua grande que \u00e9 a realidade f\u00e1tica. Dizia S\u00eaneca, mais de 2.000 anos passados, que vida sem meta \u00e9 vagabundagem. Veja o original latino: \u201cVita sine prop\u00f3sito vaga est\u201d.<br \/>\nN\u00e3o posso fazer ou querer dizer o prop\u00f3sito alheio, cada qual tem que pisar o seu inferno ou para\u00edso. Ouvir harpas celestiais ou o ranger de dentes. Falei que a vida \u00e9 constru\u00e7\u00e3o. Como se pode construir se o terreno \u00e9 alheio. Cada um que capine a sua terra, revolva, tire os escolhos, regue, adube e fa\u00e7a crescer o que bem plantar. N\u00e3o importa se \u00e9 um mero lote, alqueire, hectare ou sesmaria. Voc\u00ea \u00e9 o seu arado, acione-se, caleje as m\u00e3os, de sol a sol. Como colher frutos se n\u00e3o escolher boas sementes, semeaduras corretas, regar e cuidar? Cada um escolhe o que colocar em seu terreiro, na sua cama, mesa ou sua sala.<br \/>\nEstarei filosofando ou dizendo impropriedades? N\u00e3o importa. O que tento \u00e9 analisar o fato que me foi passado, com tristeza. As perdas e ganhos s\u00e3o pessoais, n\u00e3o os transferimos por palavras escritas, tampouco por falas n\u00e3o escutadas. Alguns n\u00e3o v\u00eaem o que lhes \u00e9 mostrado, explicado e ponderado. Paci\u00eancia, cada um que cuide de seus calos, torcicolos, bolsos e mentes. Ser\u00e1 chegada o tempo de se saber o n\u00e3o revelado. E a\u00ed poder\u00e1 vir o momento de ser relevado. Ou n\u00e3o. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/10\/2011<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O telefone toca. N\u00e3o atendo. Toca, novamente. Al\u00f4. Reclama\u00e7\u00f5es de uma m\u00e3e. Ou\u00e7o tudo. \u00c9 um desabafo forte, sofrido e abusado. A filha dela mudou o compasso. N\u00e3o entra em contato com parentes. O que lhe causava pejo parece ter, aparentemente, modificado. Encastela-se no seu mutismo e n\u00e3o ouve ningu\u00e9m. Acredita-se capaz de tocar a sua vida, sem palpites e destemor. A vida n\u00e3o \u00e9 id\u00edlio. Vidas t\u00eam borr\u00f5es inapag\u00e1veis e n\u00e3o d\u00e1 direito a pausas, replays ou o uso de corretivos. Vida \u00e9 tr\u00e2nsito, direto. Vida \u00e9 constru\u00e7\u00e3o em caderno de folhas a serem escrevinhadas &#8211; riscadas, sublinhadas, emendadas &#8211; apenas a cada dia. Quando a p\u00e1gina vira, virou.<br \/>\nOs dias precisam ser conjugados com temperan\u00e7a ou destemor, amor e trabalho. \u00c9 claro que o instinto vale, mas h\u00e1 que se lan\u00e7ar para viver, mesmo que se trombe, caia, o humor mude, vacile ou desacerte o passo. A pitada de alegria que d\u00e1 o condimento do viver tem que ser aditada \u00e0 \u00e1gua grande que \u00e9 a realidade f\u00e1tica. Dizia S\u00eaneca, mais de 2.000 anos passados, que vida sem meta \u00e9 vagabundagem. Veja o original latino: \u201cVita sine prop\u00f3sito vaga est\u201d.<br \/>\nN\u00e3o posso fazer ou querer dizer o prop\u00f3sito alheio, cada qual tem que pisar o seu inferno ou para\u00edso. Ouvir harpas celestiais ou o ranger de dentes. Falei que a vida \u00e9 constru\u00e7\u00e3o. Como se pode construir se o terreno \u00e9 alheio. Cada um que capine a sua terra, revolva, tire os escolhos, regue, adube e fa\u00e7a crescer o que bem plantar. N\u00e3o importa se \u00e9 um mero lote, alqueire, hectare ou sesmaria. Voc\u00ea \u00e9 o seu arado, acione-se, caleje as m\u00e3os, de sol a sol. Como colher frutos se n\u00e3o escolher boas sementes, semeaduras corretas, regar e cuidar? Cada um escolhe o que colocar em seu terreiro, na sua cama, mesa ou sua sala.<br \/>\nEstarei filosofando ou dizendo impropriedades? N\u00e3o importa. O que tento \u00e9 analisar o fato que me foi passado, com tristeza. As perdas e ganhos s\u00e3o pessoais, n\u00e3o os transferimos por palavras escritas, tampouco por falas n\u00e3o escutadas. Alguns n\u00e3o v\u00eaem o que lhes \u00e9 mostrado, explicado e ponderado. Paci\u00eancia, cada um que cuide de seus calos, torcicolos, bolsos e mentes. Ser\u00e1 chegada o tempo de se saber o n\u00e3o revelado. E a\u00ed poder\u00e1 vir o momento de ser relevado. Ou n\u00e3o. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 16\/10\/2011<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3162"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3162\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}