{"id":3174,"date":"2023-12-21T09:10:39","date_gmt":"2023-12-21T12:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/funk-bebida-linchamento-e-impunidade-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:39","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:39","slug":"funk-bebida-linchamento-e-impunidade-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/funk-bebida-linchamento-e-impunidade-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"FUNK, BEBIDA, LINCHAMENTO E IMPUNIDADE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Aos que perderam familiares para a viol\u00eancia.<br \/>\nO que leva um grupo de pessoas em plena cidade de S\u00e3o Paulo numa noite de domingo a linchar um motorista de \u00f4nibus que, em desmaiando, ocasionou batida em tr\u00eas carros, tr\u00eas motos e feriu um jovem? O fato aconteceu no Jardim Planalto, zona leste de S\u00e3o Paulo, nesta semana. Ali perto, acontecia uma festa Funk com cerca de 300 pessoas, carros e motos na via p\u00fablica. Pr\u00e1, pr\u00e1, pr\u00e1.<br \/>\nAo ouvirem o barulho, certamente alto para ser escutado em meio \u00e0 m\u00fasica, 40 deles sa\u00edram \u00e0 rua e foram sem saber ou indagar as raz\u00f5es do acidente, entrando no \u00f4nibus e atacando o motorista, Edmilson dos Reis Alves, casado, 60 anos, pai de quatro filhos e considerado por seus colegas de trabalho, um profissional exemplar. Al\u00e9m de socos e pontap\u00e9s foi atingido na cabe\u00e7a, sem pena e repetidas vezes, por algu\u00e9m que manuseava o extintor do pr\u00f3prio \u00f4nibus.<br \/>\nA primeira ideia \u00e9 culpar o funk, ritmo decorrente da mistura do jazz, soul music e do swing e que tem pouco mais de 20 anos no Brasil. Em 2009, a lei estadual de No. 5543, do Rio de Janeiro, diz, no seu artigo primeiro, o seguinte: \u201cFica definido que o funk \u00e9 um movimento cultural e musical de car\u00e1ter popular\u201d. O estranho dessa mesma lei \u00e9 que o par\u00e1grafo \u00fanico do citado artigo primeiro disp\u00f5e que: \u201cN\u00e3o se enquadram na regra prevista neste artigo conte\u00fados que fa\u00e7am apologia ao crime\u201d. Uma pergunta: Qual a raz\u00e3o da ressalva? J\u00e1 havia apologia ao crime, ent\u00e3o? Para que legislar ent\u00e3o sobre essa cultura popular? Muitas vezes, os funkeiros saem da teoria para a pr\u00e1tica. Voc\u00ea poder\u00e1 at\u00e9 dizer: mas a lei \u00e9 do Rio? N\u00e3o importa. O que fica claro \u00e9 a neglig\u00eancia, a falta do que fazer e o descompromisso de quem legisla absurdo como esse.<br \/>\nE como ficam os que praticaram esse crime coletivo? Nenhum dos agressores foi preso. E o IML de SP ainda vai concluir se a morte decorreu do mal s\u00fabito ou da m\u00faltipla agress\u00e3o. No dia seguinte, motoristas colegas do morto fizeram uma paralisa\u00e7\u00e3o que logo foi reprimida.A segunda ideia seria criminalizar a bebida consumida nesses bailes que poderia exacerbar a natureza dos dan\u00e7antes. Ora, faltavam 30 minutos para a meia-noite. Logo seria segunda feira. Por que a lei n\u00e3o pro\u00edbe a venda noturna de bebidas alco\u00f3licas em festas nas noites domingueiras? Outra lei?<br \/>\nPor que n\u00e3o pensar em uma terceira ideia? A falta de escolaridade, civilidade e, quem sabe, trabalho dessas 300 pessoas em um embalo noturno dominical. O fato \u00e9 que mais uma pessoa morreu por conta da clara viol\u00eancia urbana brasileira, t\u00e3o braba quanto \u00e0s lutas libert\u00e1rias que acontecem neste momento nos pa\u00edses \u00e1rabes. Hoje, o medo e a viol\u00eancia andam pela mesma via das cidades, enquanto as l\u00e2mpadas se quedam acesas e os postes, eretos, floresce a escurid\u00e3o na mente de alguns jovens brasileiros, especialmente esses que talvez nada tivessem a fazer na manh\u00e3 seguinte, segunda, dia de trabalho ou de estudo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto<br \/>\ncronista<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02\/12\/2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos que perderam familiares para a viol\u00eancia.<br \/>\nO que leva um grupo de pessoas em plena cidade de S\u00e3o Paulo numa noite de domingo a linchar um motorista de \u00f4nibus que, em desmaiando, ocasionou batida em tr\u00eas carros, tr\u00eas motos e feriu um jovem? O fato aconteceu no Jardim Planalto, zona leste de S\u00e3o Paulo, nesta semana. Ali perto, acontecia uma festa Funk com cerca de 300 pessoas, carros e motos na via p\u00fablica. Pr\u00e1, pr\u00e1, pr\u00e1.<br \/>\nAo ouvirem o barulho, certamente alto para ser escutado em meio \u00e0 m\u00fasica, 40 deles sa\u00edram \u00e0 rua e foram sem saber ou indagar as raz\u00f5es do acidente, entrando no \u00f4nibus e atacando o motorista, Edmilson dos Reis Alves, casado, 60 anos, pai de quatro filhos e considerado por seus colegas de trabalho, um profissional exemplar. Al\u00e9m de socos e pontap\u00e9s foi atingido na cabe\u00e7a, sem pena e repetidas vezes, por algu\u00e9m que manuseava o extintor do pr\u00f3prio \u00f4nibus.<br \/>\nA primeira ideia \u00e9 culpar o funk, ritmo decorrente da mistura do jazz, soul music e do swing e que tem pouco mais de 20 anos no Brasil. Em 2009, a lei estadual de No. 5543, do Rio de Janeiro, diz, no seu artigo primeiro, o seguinte: \u201cFica definido que o funk \u00e9 um movimento cultural e musical de car\u00e1ter popular\u201d. O estranho dessa mesma lei \u00e9 que o par\u00e1grafo \u00fanico do citado artigo primeiro disp\u00f5e que: \u201cN\u00e3o se enquadram na regra prevista neste artigo conte\u00fados que fa\u00e7am apologia ao crime\u201d. Uma pergunta: Qual a raz\u00e3o da ressalva? J\u00e1 havia apologia ao crime, ent\u00e3o? Para que legislar ent\u00e3o sobre essa cultura popular? Muitas vezes, os funkeiros saem da teoria para a pr\u00e1tica. Voc\u00ea poder\u00e1 at\u00e9 dizer: mas a lei \u00e9 do Rio? N\u00e3o importa. O que fica claro \u00e9 a neglig\u00eancia, a falta do que fazer e o descompromisso de quem legisla absurdo como esse.<br \/>\nE como ficam os que praticaram esse crime coletivo? Nenhum dos agressores foi preso. E o IML de SP ainda vai concluir se a morte decorreu do mal s\u00fabito ou da m\u00faltipla agress\u00e3o. No dia seguinte, motoristas colegas do morto fizeram uma paralisa\u00e7\u00e3o que logo foi reprimida.A segunda ideia seria criminalizar a bebida consumida nesses bailes que poderia exacerbar a natureza dos dan\u00e7antes. Ora, faltavam 30 minutos para a meia-noite. Logo seria segunda feira. Por que a lei n\u00e3o pro\u00edbe a venda noturna de bebidas alco\u00f3licas em festas nas noites domingueiras? Outra lei?<br \/>\nPor que n\u00e3o pensar em uma terceira ideia? A falta de escolaridade, civilidade e, quem sabe, trabalho dessas 300 pessoas em um embalo noturno dominical. O fato \u00e9 que mais uma pessoa morreu por conta da clara viol\u00eancia urbana brasileira, t\u00e3o braba quanto \u00e0s lutas libert\u00e1rias que acontecem neste momento nos pa\u00edses \u00e1rabes. 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