{"id":3183,"date":"2023-12-21T09:10:39","date_gmt":"2023-12-21T12:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-paz-do-senhor-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:39","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:39","slug":"a-paz-do-senhor-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/a-paz-do-senhor-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"A PAZ DO SENHOR &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>As igrejas sempre abrem as suas portas para todos. Agora, nestes tempos, costumam, quase sempre, fech\u00e1-las com fortes trancas. Vivemos num templo de viol\u00eancia, o horror nas p\u00e1ginas dos jornais, das r\u00e1dios e nos notici\u00e1rios sangrentos da televis\u00e3o. As igrejas, quando abertas, por seus padres ou pastores, sempre nos desejam a paz do Senhor. E ao sairmos para a rua, nua e crua, desponta o nosso medo camuflado, arrebatando a f\u00e9 procurada. Vemos-nos encurralados. O \u201cflanelinha\u201d pode ser amea\u00e7a. O motorista ao lado grita porque n\u00e3o lhes damos passagem na hora da sua buzina estridente. Vendedores de tudo nos abordam ou batem no vidro. Passamos do humor natural para o receio, levados pelos crimes acontecidos, sabidos e comentados dia e noite, de todas as formas. N\u00e3o vivemos mais em cidades livres, triunfantes em suas alegrias not\u00edvagas, et\u00edlicas ou futebol\u00edsticas, mas entre amea\u00e7as nos esgueiramos. Cada habitante parece um refugiado \u00e0 procura da sa\u00edda. Casas e edif\u00edcios viraram \u201cbunkers\u201d com cercas protetoras, grades em portas e janelas, interfones roufenhos, c\u00e3es a latir, vigias armados no alto de torres e alarmes prontos para o inesperado. Estamos, cada um de n\u00f3s, protagonizando &#8211; sem saber \u2013 cenas de um filme tipo \u201cOs fracos n\u00e3o t\u00eam vez\u201d, romance escrito com gosto de sangue por Cormac McCarthy, que virou celul\u00f3ide nas m\u00e3os de Ethan e Joel Cohen. T\u00e3o violento que ganhou um \u201cOscar\u201d. Mas, aqui n\u00e3o \u00e9 a Hollywood da fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 o mundo real em que crian\u00e7as s\u00e3o mortas em matagais, gangues enfrentam policiais, sequestram-se menores em col\u00e9gios, empresas de seguran\u00e7a prosperam, assaltam-se bancos semanalmente, fuma-se crack de c\u00f3coras \u00e0 vista de todos, prostitutas e travestis enfrentam as noites das ruas municiados de armas contra maus clientes e adolescentes \u201calugados\u201d cometem crimes. Em todas as horas, carros s\u00e3o roubados\/furtados, assaltos se repetem como o quebrar das ondas. Somos todos personagens da hist\u00f3ria da cidade em que vivemos do jeito que podemos e n\u00e3o nos alegram essas lembran\u00e7as reais e duras do dia a dia que parecem um manto a nos cobrir n\u00e3o como prote\u00e7\u00e3o, mas como a tenda de um circo de horrores. At\u00e9 quando?<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 17\/01\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As igrejas sempre abrem as suas portas para todos. Agora, nestes tempos, costumam, quase sempre, fech\u00e1-las com fortes trancas. Vivemos num templo de viol\u00eancia, o horror nas p\u00e1ginas dos jornais, das r\u00e1dios e nos notici\u00e1rios sangrentos da televis\u00e3o. As igrejas, quando abertas, por seus padres ou pastores, sempre nos desejam a paz do Senhor. E ao sairmos para a rua, nua e crua, desponta o nosso medo camuflado, arrebatando a f\u00e9 procurada. Vemos-nos encurralados. 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Estamos, cada um de n\u00f3s, protagonizando &#8211; sem saber \u2013 cenas de um filme tipo \u201cOs fracos n\u00e3o t\u00eam vez\u201d, romance escrito com gosto de sangue por Cormac McCarthy, que virou celul\u00f3ide nas m\u00e3os de Ethan e Joel Cohen. T\u00e3o violento que ganhou um \u201cOscar\u201d. Mas, aqui n\u00e3o \u00e9 a Hollywood da fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 o mundo real em que crian\u00e7as s\u00e3o mortas em matagais, gangues enfrentam policiais, sequestram-se menores em col\u00e9gios, empresas de seguran\u00e7a prosperam, assaltam-se bancos semanalmente, fuma-se crack de c\u00f3coras \u00e0 vista de todos, prostitutas e travestis enfrentam as noites das ruas municiados de armas contra maus clientes e adolescentes \u201calugados\u201d cometem crimes. Em todas as horas, carros s\u00e3o roubados\/furtados, assaltos se repetem como o quebrar das ondas. 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