{"id":3186,"date":"2023-12-21T09:10:39","date_gmt":"2023-12-21T12:10:39","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/que-bicho-e-este-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:39","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:39","slug":"que-bicho-e-este-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/que-bicho-e-este-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"QUE BICHO \u00c9 ESTE? &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no v\u00eddeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que ser\u00edamos \u00edntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acol\u00e1 e tudo sa\u00eda ao contr\u00e1rio do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, Jo\u00e3o. E recomecei a mexer em suas fun\u00e7\u00f5es. Ele era a pr\u00f3pria p\u00f3s-modernidade. Continha televis\u00e3o, r\u00e1dio FM, c\u00e2mera fotogr\u00e1fica de alta resolu\u00e7\u00e3o, som est\u00e9reo, prote\u00e7\u00e3o contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas l\u00ednguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3\/Mp4 e capacidade de mem\u00f3ria expandida. E eu havia colocado o \u201cchip\u201d do meu antigo e simples celular nele. Eu s\u00f3 queria um telefone. Um que n\u00e3o estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, n\u00e3o conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a voc\u00eas, \u00e9 que n\u00e3o sabia mais faz\u00ea-lo. At\u00e9 pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por n\u00e3o pedir ou dar o seu n\u00famero a ningu\u00e9m. Assim, s\u00e3o pouco importunadas. Mas, vez por outra, algu\u00e9m descobre o n\u00famero e invade o espa\u00e7o da privacidade sofrida. N\u00e3o perguntam onde voc\u00ea est\u00e1, se pode ou se gostaria de falar. V\u00e3o entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringon\u00e7a \u2013 o bicho estava no sonho &#8211; era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, co\u00e7ou a cabe\u00e7a escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. N\u00e3o consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Ser\u00e1 que a coisa que tinha \u00e0s m\u00e3os era um mero telefone? N\u00e3o queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir r\u00e1dio ou tv. Meucci j\u00e1 morreu. S\u00f3 queria o meu velho celular. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29\/01\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no v\u00eddeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que ser\u00edamos \u00edntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acol\u00e1 e tudo sa\u00eda ao contr\u00e1rio do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, Jo\u00e3o. E recomecei a mexer em suas fun\u00e7\u00f5es. Ele era a pr\u00f3pria p\u00f3s-modernidade. Continha televis\u00e3o, r\u00e1dio FM, c\u00e2mera fotogr\u00e1fica de alta resolu\u00e7\u00e3o, som est\u00e9reo, prote\u00e7\u00e3o contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas l\u00ednguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3\/Mp4 e capacidade de mem\u00f3ria expandida. E eu havia colocado o \u201cchip\u201d do meu antigo e simples celular nele. Eu s\u00f3 queria um telefone. Um que n\u00e3o estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, n\u00e3o conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a voc\u00eas, \u00e9 que n\u00e3o sabia mais faz\u00ea-lo. At\u00e9 pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por n\u00e3o pedir ou dar o seu n\u00famero a ningu\u00e9m. Assim, s\u00e3o pouco importunadas. Mas, vez por outra, algu\u00e9m descobre o n\u00famero e invade o espa\u00e7o da privacidade sofrida. N\u00e3o perguntam onde voc\u00ea est\u00e1, se pode ou se gostaria de falar. V\u00e3o entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringon\u00e7a \u2013 o bicho estava no sonho &#8211; era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, co\u00e7ou a cabe\u00e7a escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. N\u00e3o consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Ser\u00e1 que a coisa que tinha \u00e0s m\u00e3os era um mero telefone? N\u00e3o queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir r\u00e1dio ou tv. Meucci j\u00e1 morreu. S\u00f3 queria o meu velho celular. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29\/01\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3186"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3186\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}