{"id":3192,"date":"2023-12-21T09:10:40","date_gmt":"2023-12-21T12:10:40","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/caminho-de-volta-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:40","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:40","slug":"caminho-de-volta-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/caminho-de-volta-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"CAMINHO DE VOLTA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Acabou a folga. Estou voltando. Gosto de ir, mas voltar me d\u00e1 mais prazer. Aqui \u00e9 o meu lugar. Vejo o jeito do povo, a falta de paisagismo, taludes sem grama, pedintes no sinal e o som alto do carro ao lado com a tampa do bagageiro aberta. \u00c9 um \u201cplus\u201d bobo. Bom seria se o guiador estivesse dentro ouvindo o som estridente. A avenida larga \u00e9 margeada por invas\u00f5es. Casas viram oficinas, bares, sal\u00f5es de beleza, \u201clan houses\u201d e fazem despontar microempres\u00e1rios em busca da vida. O carro d\u00e1 solavanco em cratera e vejo a fun\u00e7\u00e3o do cinto de seguran\u00e7a. Olho \u00e0 direita e sinto um esfor\u00e7o p\u00fablico para desvendar a face oculta do rio &#8211; cheio de aguap\u00e9s -com a derrubada de biroscas e a constru\u00e7\u00e3o de pequenos e alegres parques de esportes e lazer. Espero que cuidem deles. \u00c9 preciso fazer entender ao povo que aquilo \u00e9 dele. Ele \u00e9 o usu\u00e1rio, guardi\u00e3o ou depredador. Uma curva \u00e0 esquerda e miro um dos parcos viadutos. Precisar\u00edamos de muito mais. Nas passagens de trens, cruzamentos densos de ve\u00edculos e plenos de assaltantes ligeiros sabendo o tempo de cada sinal vermelho. Assaltam de arma em punho, verdadeira ou falsa, e se embrenham em caminhos tortuosos. Um micro-\u00f4nibus cruza pela esquerda e o trocador se pendura na porta aberta para refrescar o calor e gritar o destino do coletivo. \u00c9 noite e a brisa morna prenuncia chuva. Uma freada, xingamentos e tudo sai da in\u00e9rcia moment\u00e2nea. Um motel de gosto duvidoso anuncia promo\u00e7\u00f5es e nenhum carro se apresta para aceitar a oferta. A cidade define os seus contornos sutis e as luzes ficam mais claras. H\u00e1 um hospital com ambul\u00e2ncia \u00e0 porta, dois param\u00e9dicos com uniformes azuis retiram a maca com um jovem deitado a segurar o pl\u00e1stico a lhe oferecer o soro revificador. Penetraram na emerg\u00eancia. Ao lado, um carro preto com luzes piscando, fitas e latas amarradas ao para-choque traseiro, anunciam casamento e a f\u00e9 no encontro que se pressup\u00f5e duradouro. Dobro \u00e0 esquerda e sinto o cheiro da maresia e as part\u00edculas de areia afagando meu rosto \u00e1vido por um cerrar de olhos. Abro a porta, o rabo do amigo fiel entra em movimento acelerado e ele late de alegria. Cheguei, estou em casa. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 21\/02\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabou a folga. Estou voltando. Gosto de ir, mas voltar me d\u00e1 mais prazer. Aqui \u00e9 o meu lugar. Vejo o jeito do povo, a falta de paisagismo, taludes sem grama, pedintes no sinal e o som alto do carro ao lado com a tampa do bagageiro aberta. \u00c9 um \u201cplus\u201d bobo. Bom seria se o guiador estivesse dentro ouvindo o som estridente. A avenida larga \u00e9 margeada por invas\u00f5es. Casas viram oficinas, bares, sal\u00f5es de beleza, \u201clan houses\u201d e fazem despontar microempres\u00e1rios em busca da vida. O carro d\u00e1 solavanco em cratera e vejo a fun\u00e7\u00e3o do cinto de seguran\u00e7a. Olho \u00e0 direita e sinto um esfor\u00e7o p\u00fablico para desvendar a face oculta do rio &#8211; cheio de aguap\u00e9s -com a derrubada de biroscas e a constru\u00e7\u00e3o de pequenos e alegres parques de esportes e lazer. Espero que cuidem deles. \u00c9 preciso fazer entender ao povo que aquilo \u00e9 dele. Ele \u00e9 o usu\u00e1rio, guardi\u00e3o ou depredador. Uma curva \u00e0 esquerda e miro um dos parcos viadutos. Precisar\u00edamos de muito mais. Nas passagens de trens, cruzamentos densos de ve\u00edculos e plenos de assaltantes ligeiros sabendo o tempo de cada sinal vermelho. Assaltam de arma em punho, verdadeira ou falsa, e se embrenham em caminhos tortuosos. Um micro-\u00f4nibus cruza pela esquerda e o trocador se pendura na porta aberta para refrescar o calor e gritar o destino do coletivo. \u00c9 noite e a brisa morna prenuncia chuva. Uma freada, xingamentos e tudo sai da in\u00e9rcia moment\u00e2nea. 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