{"id":3193,"date":"2023-12-21T09:10:40","date_gmt":"2023-12-21T12:10:40","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/de-repente-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:40","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:40","slug":"de-repente-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/de-repente-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"DE REPENTE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>De repente, saio do trem moderno, executivo \u2013 gar\u00e7ons, acepipes e jornais &#8211; s\u00f3brio em seus detalhes pertinentes e jogo meu corpo amigo em outro comboio el\u00e9trico, velhusco, poltronas simples e gastas. Ar de dever cumprido. \u00c9 cedo da noite. A vidra\u00e7a do tempo leva-me em um quase sacolejar para a imers\u00e3o consciente em outras eras quando a vontade de vir e conhecer me guiara desde o Cais de Sodr\u00e9 at\u00e9 Narvik, l\u00e1 na calota do norte, com muitas paradas de permeio. Agora, d\u00e9cadas depois, escolho o imprevisto e me visto de jovem sem destino. Cato identidades, f\u00e9 e fulgores em lugares repassados e novos. N\u00e3o miro o destino, saboreio o percurso e os nomes das esta\u00e7\u00f5es mostram que tudo se move. Aqui, uma casinhola com tijolos carcomidos pela infiltra\u00e7\u00e3o onde a hera descuidada divide a paisagem com a gorda senhora \u00e0 janela. No pasto, cordeiros se unem para banir o frio e n\u00e3o balir. Ali, a moderna ind\u00fastria est\u00e1 cinzenta pelo tempo frio e os salpicos das chuvadas n\u00e3o param de cair. H\u00e1 luz fe\u00e9rica. Trabalham na noite. Oper\u00e1rios usam equipamentos de seguran\u00e7a e se aquecem em grossas vestimentas enquanto constroem o futuro, quem sabe, em a\u00e7o ou tecnologia. Ap\u00f3s, um grande p\u00e1tio abriga milhares de carros novos, encalhados. O compasso muda e cruzamos uma ponte. Do lado esquerdo diviso pela grande janela a berma do rio com a sequ\u00eancia de grandes \u00e1rvores, troncos pintados de branco, decepadas em suas copas. De l\u00e1, vem um dos sobrenomes do meu av\u00f4 materno e as luzes desaparecem t\u00e3o logo a curva desponta para afirmar a mudan\u00e7a de rota. Singularidades de pessoas est\u00e3o no vag\u00e3o. Quanto mais vejo, menos me entranho. \u00c0 frente, uma mulher silente de cabelos multicores dedilha um pequeno computador e parece entretida com as palavras n\u00e3o captadas pelo soslaio. Do lado direito, frente a frente, dois casais maduros mant\u00eam conversas trocadas e estranham o que se fala do mais jovem dos tr\u00eas fara\u00f3s -ou reis- das c\u00e9lebres pir\u00e2mides, em Giz\u00e9. Eruditos? N\u00e3o h\u00e1 crian\u00e7as a bordo. Um b\u00eabado estouvado sobe no instante em que as portas se abrem, em autom\u00e1tico, na nova esta\u00e7\u00e3o. Pede dinheiro e seu h\u00e1lito \u00e9 forte. Esgueira-se, fugindo do controle. Descer\u00e1 na pr\u00f3xima. \u00c9 costume. Abro os olhos. O sonho acaba na leve c\u00e2imbra do ded\u00e3o do p\u00e9 canhoto.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/02\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De repente, saio do trem moderno, executivo \u2013 gar\u00e7ons, acepipes e jornais &#8211; s\u00f3brio em seus detalhes pertinentes e jogo meu corpo amigo em outro comboio el\u00e9trico, velhusco, poltronas simples e gastas. Ar de dever cumprido. \u00c9 cedo da noite. A vidra\u00e7a do tempo leva-me em um quase sacolejar para a imers\u00e3o consciente em outras eras quando a vontade de vir e conhecer me guiara desde o Cais de Sodr\u00e9 at\u00e9 Narvik, l\u00e1 na calota do norte, com muitas paradas de permeio. Agora, d\u00e9cadas depois, escolho o imprevisto e me visto de jovem sem destino. Cato identidades, f\u00e9 e fulgores em lugares repassados e novos. N\u00e3o miro o destino, saboreio o percurso e os nomes das esta\u00e7\u00f5es mostram que tudo se move. Aqui, uma casinhola com tijolos carcomidos pela infiltra\u00e7\u00e3o onde a hera descuidada divide a paisagem com a gorda senhora \u00e0 janela. No pasto, cordeiros se unem para banir o frio e n\u00e3o balir. Ali, a moderna ind\u00fastria est\u00e1 cinzenta pelo tempo frio e os salpicos das chuvadas n\u00e3o param de cair. H\u00e1 luz fe\u00e9rica. Trabalham na noite. Oper\u00e1rios usam equipamentos de seguran\u00e7a e se aquecem em grossas vestimentas enquanto constroem o futuro, quem sabe, em a\u00e7o ou tecnologia. Ap\u00f3s, um grande p\u00e1tio abriga milhares de carros novos, encalhados. O compasso muda e cruzamos uma ponte. Do lado esquerdo diviso pela grande janela a berma do rio com a sequ\u00eancia de grandes \u00e1rvores, troncos pintados de branco, decepadas em suas copas. De l\u00e1, vem um dos sobrenomes do meu av\u00f4 materno e as luzes desaparecem t\u00e3o logo a curva desponta para afirmar a mudan\u00e7a de rota. Singularidades de pessoas est\u00e3o no vag\u00e3o. Quanto mais vejo, menos me entranho. \u00c0 frente, uma mulher silente de cabelos multicores dedilha um pequeno computador e parece entretida com as palavras n\u00e3o captadas pelo soslaio. 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O sonho acaba na leve c\u00e2imbra do ded\u00e3o do p\u00e9 canhoto.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 26\/02\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3193","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3193\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}