{"id":3207,"date":"2023-12-21T09:10:40","date_gmt":"2023-12-21T12:10:40","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/imagine-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:40","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:40","slug":"imagine-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/imagine-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"IMAGINE &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>Imagine-se sem dinheiro, sem estudo, sem trabalho e sem casa. O primeiro terreno, seja em beira de rio, encosta de morro ou \u201crua da prefeitura\u201d, serve. O mais \u00e9 sair juntando madeira, parcos tijolos, entulho, papel\u00e3o, telhas velhas, pneus e a morada estar\u00e1 pronta. Uma puxa outra, mais outra e se forma uma favela. Dir\u00e3o sempre que moram ali h\u00e1 anos. A\u00ed aparecem os pol\u00edticos e os candidatos a pol\u00edticos e dizem que v\u00e3o urbanizar, iluminar e sanear. Imagine, paralelo a isso, uma ind\u00fastria crescente no Brasil, a da invas\u00e3o de terrenos. H\u00e1 tropas de choque para escolher, definir, fotografar, filmar, \u201colhar no google\u201d, programar e invadir terrenos. Tudo nas cidades. Os invasores t\u00eam \u201ctecnologia\u201d. D\u00e1 lucro f\u00e1cil e as revendas s\u00e3o r\u00e1pidas. Geralmente, aos fins de semana, grupos invadem \u00e1rea, marcam os \u201clotes\u201d, os fiscais e a pol\u00edcia fazem vista grossa e cria-se o que definem como movimento social de ocupa\u00e7\u00e3o. E assim o fazem. Os processos de reintegra\u00e7\u00e3o de posse quase n\u00e3o andam. Os ju\u00edzes alegam n\u00e3o poder mandar citar \u201cJos\u00e9 de tal\u201d, Maria do Barraco Azul etc. Os leg\u00edtimos donos querem sua devolu\u00e7\u00e3o, contratam advogados, pagam custas judiciais e amargam anos, d\u00e9cadas at\u00e9, para o processo andar. E se n\u00e3o pagam o IPTU do im\u00f3vel invadido v\u00e3o para o SPC, Serasa e, em breve, sacar\u00e3o os impostos das suas contas banc\u00e1rias. Imagine-se tamb\u00e9m com a capacidade de mapear nas cidades as resid\u00eancias dos policiais civis e militares. Por ganharem aqu\u00e9m do necess\u00e1rio, moram, quase sempre, na periferia e a\u00ed, mesmo sem desejarem, s\u00e3o obrigados a conviver com todos. Parte \u00ednfima do todo \u00e9 composta de marginais, tal como acontece tamb\u00e9m em bairros onde moram os tidos como classe m\u00e9dia e \u201cricos\u201d. Dessa proximidade espacial surge a camaradagem e da\u00ed para o desatino bastam a arg\u00facia do delinquente, a tenta\u00e7\u00e3o e a necessidade. Por tudo isso \u00e9 que me pergunto se as a\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias que o Brasil faz no Haiti (\u00e9 claro que o Haiti precisa, mas&#8230;) e em outros pa\u00edses mais pobres que o nosso, n\u00e3o deveriam come\u00e7ar aqui com a aten\u00e7\u00e3o para, por exemplo, os que cuidam da seguran\u00e7a p\u00fablica, sejam policiais ou agentes prisionais. Mereceriam eles ou n\u00e3o serem clientes priorit\u00e1rios, por exemplo, do \u201cMinha Casa, Minha Vida\u201d? Um redesenho dos antigos financiamentos da Caixa para casas populares, das antigas cooperativas habitacionais, das ancestrais Cohabs e tudo o mais que foi considerado o sistema financeiro da habita\u00e7\u00e3o. Criou-se por lei (4.380), extinguiu-se pela des\u00eddia e malversa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo e o Rio s\u00e3o estados onde a mis\u00e9ria e a riqueza moram juntas. Em qualquer cidade m\u00e9dia ou grande, tamb\u00e9m. Claro que uma chuva forte de mais de 200 mil\u00edmetros pode causar estragos, mas o saneamento b\u00e1sico- quando existe &#8211; deve servir tamb\u00e9m para coletar dejetos e escoar as \u00e1guas da superf\u00edcie em bueiros limpos. E onde ficam os bueiros limpos? Se h\u00e1 ocupa\u00e7\u00e3o consentida de morros, encostas, orlas mar\u00edtimas, rios e lagoas, estamos, a cada dia, plantando o caos para a pr\u00f3xima enchente. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 olhar para a meteorologia, mas cuidar de fazer certo o que se propaga e n\u00e3o se executa. Desde o s\u00e9culo passado. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/04\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine-se sem dinheiro, sem estudo, sem trabalho e sem casa. O primeiro terreno, seja em beira de rio, encosta de morro ou \u201crua da prefeitura\u201d, serve. O mais \u00e9 sair juntando madeira, parcos tijolos, entulho, papel\u00e3o, telhas velhas, pneus e a morada estar\u00e1 pronta. Uma puxa outra, mais outra e se forma uma favela. Dir\u00e3o sempre que moram ali h\u00e1 anos. A\u00ed aparecem os pol\u00edticos e os candidatos a pol\u00edticos e dizem que v\u00e3o urbanizar, iluminar e sanear. Imagine, paralelo a isso, uma ind\u00fastria crescente no Brasil, a da invas\u00e3o de terrenos. H\u00e1 tropas de choque para escolher, definir, fotografar, filmar, \u201colhar no google\u201d, programar e invadir terrenos. Tudo nas cidades. Os invasores t\u00eam \u201ctecnologia\u201d. D\u00e1 lucro f\u00e1cil e as revendas s\u00e3o r\u00e1pidas. Geralmente, aos fins de semana, grupos invadem \u00e1rea, marcam os \u201clotes\u201d, os fiscais e a pol\u00edcia fazem vista grossa e cria-se o que definem como movimento social de ocupa\u00e7\u00e3o. E assim o fazem. Os processos de reintegra\u00e7\u00e3o de posse quase n\u00e3o andam. Os ju\u00edzes alegam n\u00e3o poder mandar citar \u201cJos\u00e9 de tal\u201d, Maria do Barraco Azul etc. Os leg\u00edtimos donos querem sua devolu\u00e7\u00e3o, contratam advogados, pagam custas judiciais e amargam anos, d\u00e9cadas at\u00e9, para o processo andar. E se n\u00e3o pagam o IPTU do im\u00f3vel invadido v\u00e3o para o SPC, Serasa e, em breve, sacar\u00e3o os impostos das suas contas banc\u00e1rias. Imagine-se tamb\u00e9m com a capacidade de mapear nas cidades as resid\u00eancias dos policiais civis e militares. Por ganharem aqu\u00e9m do necess\u00e1rio, moram, quase sempre, na periferia e a\u00ed, mesmo sem desejarem, s\u00e3o obrigados a conviver com todos. Parte \u00ednfima do todo \u00e9 composta de marginais, tal como acontece tamb\u00e9m em bairros onde moram os tidos como classe m\u00e9dia e \u201cricos\u201d. Dessa proximidade espacial surge a camaradagem e da\u00ed para o desatino bastam a arg\u00facia do delinquente, a tenta\u00e7\u00e3o e a necessidade. Por tudo isso \u00e9 que me pergunto se as a\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias que o Brasil faz no Haiti (\u00e9 claro que o Haiti precisa, mas&#8230;) e em outros pa\u00edses mais pobres que o nosso, n\u00e3o deveriam come\u00e7ar aqui com a aten\u00e7\u00e3o para, por exemplo, os que cuidam da seguran\u00e7a p\u00fablica, sejam policiais ou agentes prisionais. Mereceriam eles ou n\u00e3o serem clientes priorit\u00e1rios, por exemplo, do \u201cMinha Casa, Minha Vida\u201d? Um redesenho dos antigos financiamentos da Caixa para casas populares, das antigas cooperativas habitacionais, das ancestrais Cohabs e tudo o mais que foi considerado o sistema financeiro da habita\u00e7\u00e3o. Criou-se por lei (4.380), extinguiu-se pela des\u00eddia e malversa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo e o Rio s\u00e3o estados onde a mis\u00e9ria e a riqueza moram juntas. Em qualquer cidade m\u00e9dia ou grande, tamb\u00e9m. Claro que uma chuva forte de mais de 200 mil\u00edmetros pode causar estragos, mas o saneamento b\u00e1sico- quando existe &#8211; deve servir tamb\u00e9m para coletar dejetos e escoar as \u00e1guas da superf\u00edcie em bueiros limpos. E onde ficam os bueiros limpos? Se h\u00e1 ocupa\u00e7\u00e3o consentida de morros, encostas, orlas mar\u00edtimas, rios e lagoas, estamos, a cada dia, plantando o caos para a pr\u00f3xima enchente. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 olhar para a meteorologia, mas cuidar de fazer certo o que se propaga e n\u00e3o se executa. Desde o s\u00e9culo passado. <\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 16\/04\/2010.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3207","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3207\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}