{"id":3214,"date":"2023-12-21T09:10:40","date_gmt":"2023-12-21T12:10:40","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/razao-paixao-e-bola-diario-do-nordeste\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:40","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:40","slug":"razao-paixao-e-bola-diario-do-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/razao-paixao-e-bola-diario-do-nordeste\/","title":{"rendered":"RAZ\u00c3O, PAIX\u00c3O E BOLA &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste"},"content":{"rendered":"<p>Onde andava a minha raz\u00e3o na tarde do domingo passado? Quantas pegadas de paix\u00e3o medravam este cora\u00e7\u00e3o acelerado? Como fugir do fr\u00eamito das torcidas, se tive a coragem de usar o controle remoto e, em minha oca, vi a TV a conspurcar o sil\u00eancio. Iria participar de emo\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas em faixas, xingamentos e as d\u00favidas que precedem o apito final. Foi assim que passei os noventa e tantos minutos, intercalados por comerciais a determinar a volta ao espet\u00e1culo, o segundo tempo. A mem\u00f3ria teimava em \u201cflashback\u201d, como se fora um filme ao contr\u00e1rio. Rebobinava imagens do fim da inf\u00e2ncia e o despertar da puberdade. Estava no antigo PV, no Benfica, a sofrer em outras finais de campeonato. O Fortaleza vencia, quase sempre. O pixote aguentava nesse par de horas as idas e vindas da v\u00e2ndala bola, ora triste, ora temeroso e de cora\u00e7\u00e3o acelerado. Para, em seguida, a alegria incontida transformar-se em grito com o traspasse da v\u00e2ndala pelo complexo caminho das traves e receber o beijo das redes. Essas que n\u00e3o t\u00eam time e torcem sempre contra os goleiros, caras solit\u00e1rios que, de repente, se assustam com o que pegam, espalmam ou falham. Chorava de alegria e via, ao lado, o tamb\u00e9m meninote e amigo Ruver Herculano enxugando as suas. Ruver \u00e9 hoje medico e av\u00f4, mas creio ainda perder a raz\u00e3o pela paix\u00e3o que nos torna pat\u00e9ticos na beira da noite quando o apito final brinda uma fac\u00e7\u00e3o com a vit\u00f3ria e uma ta\u00e7a de lata passa a ser beijada por jogadores suarentos que, eventualmente, jogam pelo nosso time. E o pior, amigos, \u00e9 que no \u00faltimo domingo o apito final n\u00e3o era o fim. Havia uma quest\u00e3o em jogo. Era preciso decidir nos penais, os antigos p\u00eanaltis, quem sairia de l\u00e1 com o galard\u00e3o da vit\u00f3ria e qual o time que, sorrateiro, desceria primeiro o caminho l\u00fagubre do vesti\u00e1rio do desencanto. Minutos n\u00e3o passavam, no troca-troca de goleiros e cobradores. E deu Fortaleza, com a ajuda da trave e das m\u00e3os de um goleiro h\u00e1bil que flertara com as redes \u00e0s suas costas. A raz\u00e3o pedia calma, a paix\u00e3o reclamava seu quinh\u00e3o e o futebol perdeu a tela para a voz chata e as breguices do Faust\u00e3o. Liguei: D. Margarida, vencemos. Ela, aos 91: eu vi tudo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 09\/05\/2010<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Onde andava a minha raz\u00e3o na tarde do domingo passado? Quantas pegadas de paix\u00e3o medravam este cora\u00e7\u00e3o acelerado? Como fugir do fr\u00eamito das torcidas, se tive a coragem de usar o controle remoto e, em minha oca, vi a TV a conspurcar o sil\u00eancio. Iria participar de emo\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas em faixas, xingamentos e as d\u00favidas que precedem o apito final. Foi assim que passei os noventa e tantos minutos, intercalados por comerciais a determinar a volta ao espet\u00e1culo, o segundo tempo. A mem\u00f3ria teimava em \u201cflashback\u201d, como se fora um filme ao contr\u00e1rio. Rebobinava imagens do fim da inf\u00e2ncia e o despertar da puberdade. Estava no antigo PV, no Benfica, a sofrer em outras finais de campeonato. O Fortaleza vencia, quase sempre. O pixote aguentava nesse par de horas as idas e vindas da v\u00e2ndala bola, ora triste, ora temeroso e de cora\u00e7\u00e3o acelerado. Para, em seguida, a alegria incontida transformar-se em grito com o traspasse da v\u00e2ndala pelo complexo caminho das traves e receber o beijo das redes. Essas que n\u00e3o t\u00eam time e torcem sempre contra os goleiros, caras solit\u00e1rios que, de repente, se assustam com o que pegam, espalmam ou falham. Chorava de alegria e via, ao lado, o tamb\u00e9m meninote e amigo Ruver Herculano enxugando as suas. Ruver \u00e9 hoje medico e av\u00f4, mas creio ainda perder a raz\u00e3o pela paix\u00e3o que nos torna pat\u00e9ticos na beira da noite quando o apito final brinda uma fac\u00e7\u00e3o com a vit\u00f3ria e uma ta\u00e7a de lata passa a ser beijada por jogadores suarentos que, eventualmente, jogam pelo nosso time. E o pior, amigos, \u00e9 que no \u00faltimo domingo o apito final n\u00e3o era o fim. Havia uma quest\u00e3o em jogo. Era preciso decidir nos penais, os antigos p\u00eanaltis, quem sairia de l\u00e1 com o galard\u00e3o da vit\u00f3ria e qual o time que, sorrateiro, desceria primeiro o caminho l\u00fagubre do vesti\u00e1rio do desencanto. Minutos n\u00e3o passavam, no troca-troca de goleiros e cobradores. E deu Fortaleza, com a ajuda da trave e das m\u00e3os de um goleiro h\u00e1bil que flertara com as redes \u00e0s suas costas. A raz\u00e3o pedia calma, a paix\u00e3o reclamava seu quinh\u00e3o e o futebol perdeu a tela para a voz chata e as breguices do Faust\u00e3o. Liguei: D. Margarida, vencemos. Ela, aos 91: eu vi tudo.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nescritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO DI\u00c1RIO DO NORDESTE EM 09\/05\/2010<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-3214","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3214","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3214"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3214\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3214"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3214"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3214"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}