{"id":3215,"date":"2023-12-21T09:10:40","date_gmt":"2023-12-21T12:10:40","guid":{"rendered":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/claudio-pereira-jornal-o-estado\/"},"modified":"2023-12-21T09:10:40","modified_gmt":"2023-12-21T12:10:40","slug":"claudio-pereira-jornal-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/joaosoaresneto.com.br\/index.php\/2023\/12\/21\/claudio-pereira-jornal-o-estado\/","title":{"rendered":"CL\u00c1UDIO PEREIRA &#8211; Jornal O Estado"},"content":{"rendered":"<p>A noite de Fortaleza procura em v\u00e3o por Cl\u00e1udio Pereira. Os amigos, desolados, sabem que aquele copo de rum com Coca-Cola n\u00e3o mais adornar\u00e1 as muitas mesas de bares de todos os nossos pontos cardeais. Uma curva m\u00e1 afamada e agourenta, entre Jo\u00e3o Pessoa e Recife, pensou que, em cortando os movimentos de seus membros inferiores, o aniquilaria. M\u00e9dicos daqui e de fora, em cirurgias, quedaram-se impotentes diante do quadro real de hemiplegia. Coitados desses m\u00e9dicos que vaticinaram vida breve ao ent\u00e3o enfermo. Cl\u00e1udio riu deles por 37 anos. Riu quando assumiu a Funda\u00e7\u00e3o de Cultura de Fortaleza, por tr\u00eas administra\u00e7\u00f5es diferentes, e agitou esta cidade como nenhuma entidade ou pessoa o fizera. N\u00e3o foram livros n\u00e3o lidos que transmitiam essa cultura, mas o fermento que ele imp\u00f4s nos m\u00faltiplos sal\u00f5es de Abril que regiam a arte com a ajuda do ent\u00e3o curador Jo\u00e3o Jorge Melo, que lamentava a perda do ex-chefe que \u201ctinha o car\u00e1ter da dignidade, na for\u00e7a da resist\u00eancia, realizados no sonho de viver\u201d. N\u00e3o foram discursos barrocos que enchem o vazio de seus autores que Cl\u00e1udio levou para a periferia. Levou folguedos, m\u00fasicas e livros acess\u00edveis, palavras curtas de dura\u00e7\u00e3o e plenas de integra\u00e7\u00e3o. As batidas dos maracatus ressurgiram em seus passos sincopados por conta de um homem que n\u00e3o podia dar um passo sequer. E o menino Cl\u00e1udio Roberto de Abreu Pereira, aos 14 anos, passou no concurso do Curso de Aprendizagem Banc\u00e1ria, do Banco do Nordeste. Fez-se banc\u00e1rio e jornalista, sem se descuidar do diploma de Direito pela UFC. Depois, ap\u00f3s a curva, veio a francesa Martine Kunz, essa professora-doutora de literatura apaixonada pelo Cear\u00e1 que, de t\u00e3o perspicaz, se casou com Cl\u00e1udio, a sua s\u00edntese da terra amada e adotada. Esse casamento tinha a fragr\u00e2ncia da benqueren\u00e7a permanente entre culturas d\u00edspares, mas complementares. Viraram o mundo por am\u00e9ricas e Europa. O sobrinho-neto de Capistrano de Abreu foi tamb\u00e9m chamado para uma academia de letras. E a\u00ed navegou por p\u00e9lagos novos da cultura, aqueles que sabem de suas limita\u00e7\u00f5es, mas t\u00eam a grandeza de aprender. Agora, estou voltando de seu vel\u00f3rio e sepultamento. N\u00e3o havia autoridades. O jazigo virou um vasto tapete de flores. Amigos de c\u00e3s gris das m\u00faltiplas faces e jornadas de Cl\u00e1udio se sentiam pat\u00e9ticos. E, ap\u00f3s o violino calar, Maria Luiza Fontenele falou com a alma dos que n\u00e3o se enlodaram na pol\u00edtica e disse que \u201cCl\u00e1udio marcou a hist\u00f3ria do Cear\u00e1 e da administra\u00e7\u00e3o popular da cidade por sua solidariedade, capacidade de romper barreiras e ter compromisso com o coletivo\u201d. Ap\u00f3s tudo, pedi \u00e0 M\u00f4nica Barroso, sua velha amiga noturna, que o definisse. Ela, olhos lacrimejando, disse que \u201cele era a concretude da fraternidade, da igualdade e da alegria cercado por um ex\u00e9rcito de amigos\u201d. Esses amigos estavam l\u00e1, mudos de vozes, desvalidos, cientes de que o insond\u00e1vel levara o Pereir\u00e3o. A relva em que pisavam no entardecer deixava ver a terra revolvida e tinham, mesmo a contragosto, a certeza da finitude, do p\u00f3.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Soares Neto,<br \/>\nEscritor<br \/>\nCR\u00d4NICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 14\/05\/2010.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite de Fortaleza procura em v\u00e3o por Cl\u00e1udio Pereira. Os amigos, desolados, sabem que aquele copo de rum com Coca-Cola n\u00e3o mais adornar\u00e1 as muitas mesas de bares de todos os nossos pontos cardeais. Uma curva m\u00e1 afamada e agourenta, entre Jo\u00e3o Pessoa e Recife, pensou que, em cortando os movimentos de seus membros inferiores, o aniquilaria. M\u00e9dicos daqui e de fora, em cirurgias, quedaram-se impotentes diante do quadro real de hemiplegia. Coitados desses m\u00e9dicos que vaticinaram vida breve ao ent\u00e3o enfermo. Cl\u00e1udio riu deles por 37 anos. Riu quando assumiu a Funda\u00e7\u00e3o de Cultura de Fortaleza, por tr\u00eas administra\u00e7\u00f5es diferentes, e agitou esta cidade como nenhuma entidade ou pessoa o fizera. N\u00e3o foram livros n\u00e3o lidos que transmitiam essa cultura, mas o fermento que ele imp\u00f4s nos m\u00faltiplos sal\u00f5es de Abril que regiam a arte com a ajuda do ent\u00e3o curador Jo\u00e3o Jorge Melo, que lamentava a perda do ex-chefe que \u201ctinha o car\u00e1ter da dignidade, na for\u00e7a da resist\u00eancia, realizados no sonho de viver\u201d. N\u00e3o foram discursos barrocos que enchem o vazio de seus autores que Cl\u00e1udio levou para a periferia. Levou folguedos, m\u00fasicas e livros acess\u00edveis, palavras curtas de dura\u00e7\u00e3o e plenas de integra\u00e7\u00e3o. As batidas dos maracatus ressurgiram em seus passos sincopados por conta de um homem que n\u00e3o podia dar um passo sequer. E o menino Cl\u00e1udio Roberto de Abreu Pereira, aos 14 anos, passou no concurso do Curso de Aprendizagem Banc\u00e1ria, do Banco do Nordeste. Fez-se banc\u00e1rio e jornalista, sem se descuidar do diploma de Direito pela UFC. Depois, ap\u00f3s a curva, veio a francesa Martine Kunz, essa professora-doutora de literatura apaixonada pelo Cear\u00e1 que, de t\u00e3o perspicaz, se casou com Cl\u00e1udio, a sua s\u00edntese da terra amada e adotada. Esse casamento tinha a fragr\u00e2ncia da benqueren\u00e7a permanente entre culturas d\u00edspares, mas complementares. Viraram o mundo por am\u00e9ricas e Europa. O sobrinho-neto de Capistrano de Abreu foi tamb\u00e9m chamado para uma academia de letras. E a\u00ed navegou por p\u00e9lagos novos da cultura, aqueles que sabem de suas limita\u00e7\u00f5es, mas t\u00eam a grandeza de aprender. Agora, estou voltando de seu vel\u00f3rio e sepultamento. N\u00e3o havia autoridades. O jazigo virou um vasto tapete de flores. 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